Palhaça inversa

Não me pintei de palhaço.
Me pintei de nuvem, fantasia, drama e tatuagem.
Mas nunca de palhaço.
Me pintei de mocinha, fantasminha, borralheira sem carruagem.
Me pintei de puta, homem, cigana, marginal.
Mas nunca de palhaça.
Me pintaram.

Palhaçada Moderna

Pintei meu rosto de branco
Preenchi toda a face num tom
Sobre as bochechas abri um grande riso
Abraçando também a boca
Do olho desci uma lágrima prateada

Olhar a vida sob o prisma
Da alegria...
Na modernidade...
Só se for com cara e boca
De palhaço

Pingando na pedra


Poros cálidos dia
Pele úmida noite
O choro gozo asfixia
Contato veneno matilha
Sorte


Enfrentamento
Incrustação
Delicada análise
Ceifa corte
Lápide

Rápida decisão
Executor
freqüência
Lapidante

Diamante
Dinamite
Máquina

A marcha dos sentidos sobre terra árida e indiferença

Avante olhos incorruptíveis
hirtos e de franca estreiteza
Avante contra toda essa corrente-luz
Matéria refletida e percepção coesa

Silêncio imperioso a que se reduz
o inadvertido ouvido
pai da mais viril clareza

Esquecimento amarelo

Choviam flores amarelas
E por segundos esqueci quem era
Assim, como em tardes de primavera
E se tudo fossem flores, quimera.

O homem sentado logo adiante
Em viagens alucinantes
Do seu cachimbo brilhante
Esqueceu tudo por instantes

O Fantasma no Espelho


"Os olhos são espelhos d'alma"

E alma lá precisa de espelho pra se enxergar?

O espelho reflete o fantasma, aquele, soturno vindo pelo corredor escuro

Envolto na fumaça pinçada da ilusão cotidiana do viver

Fantasma que vivo, perambula por cômodos vazios a impregnar ambientes

Sim, o espelho reflete o fantasma-homem e sorri dele

Que ingenuamente cava suas covas dia após outro

Ah fantasma! Recolhe tuas vestes rotas, outrora tecidas por mãos habilidosas

Apanha tua botina velha a carregar resquícios do lamaçal

E marca o céu azul anil com teus passos febris rumo à imensidão

Corri na direção contrária

Corri na direção contrária
Mas mesmo essa
Acabava em poças feitas de seus restos
Em meus olhos 
E em teus olhos - cor de café
Me via nua e à espera
Do que disse que não quereria
Eles fixos, balbuciam teu nome
Me descolando de mim.
E, correndo pra se fazer gesto
Perdem-se em sua sobra de vista
Mais uma vez
E esses olhos - Ah esses olhos
Tornaram-se íntimos de minh'alma

Na nau

Lá vem. E outra vez. Foi onda que fez o nível baixar subir baixar do mar. Nessa embarcação, o peso do cobre não é perigo: não existe. Os temperos humildes que recobrem nosso casco perfumam os espaços nas dispensas, nos bolsos, no vento. E tem mais gente a estibordo, que peso trazem elas? Trazem promessas, juventudes, solidões.

Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.

Sobre o que sinto; e não dos sentidos que tem

Poderia falar-te mil coisas sobre os sentidos, mas nenhum sentido teria se eu não dissesse em palavras. Poderia calar infinitamente num gosto, aroma ou numa visão repentina de um mundo em que só se ouve em cores. Mas e daí se o fizesse? Quem teria em mente a medida do encanto da melodia de um passáro se não nos tivessem comunicado antes o sentido bucólico daqueles sutis elementos? Eu não sei. Tu Falas em sentidos como se visse neles uma porta aberta ao mundo; como se o mundo fosse, de fato, algo externo a ti. Eu, no entanto, não consigo jamais entender que cor seria o vermelho se antes essa palavra tão pulcra, manchada em três sílabas que têm em si um próprio sentido em ocorrências afora, não me tivesse representado do sangue a imagem perene de seu conteúdo. Para ver-me, basta que tu me fales, como para mim basta ver-te e dizer-lhe que vi. Não que eu precise, de fato, tocar-te com a minha retina, pois não preciso que seja com olhos - esses tão cegos da parede adiante (como tudo mais nesse corpo que anda e balança) - basta apenas que diga ou que ouça; que escreva, que leia ou rabisque em uma nota de supermercado. E quem há de negar que os tomates tenham tanta vida numa lista de compras quanto num pomar recém semeado? Talvez tu me aches satírico demais pra te ser companhia digna, já que espero tão pouco dos momentos silenciosos. Talvez me aches indigno de qualquer amor espontâneo, por ter eu dado às palavras o peso colossal como o daquela estátua em Rodes, que apesar de nunca ter sido vista por olhos de homens vivos, ainda assim, é possível vê-la com sumpto e magnificência em histórias antigas e novas. Mas entendo que tu mesmo não se dê tanto a essas visões. Não te culpo por olhares tanto pra frente, mesmo quando sabes que lá é que espreita o teu fim. Mas também não direi que te admiro a coragem. Porque não admiro. Sei que existe infinitamente mais sabedoria em olhos fechados que aquela estúpida certeza de que o concreto a tua frente pede o martelo e não tinta preta e pincel. E se tivermos que dar mérito aos sentidos, será menos pelo que encerram em si de absoluta contingência, que pelos adornos supérfluos ou impróprios com que subtraímos eles às palavras. Se o mundo que, com efeito, nos toca é mesmo um mundo de luz e som e matéria, então, mais belas ainda deverão ser estas que dizem sem sombrea-lo - o mundo - senão na memória arcaica que o homem tão ingenuamente aprisinou. E se tu me perdeste na fração diminuta entre um piscar de olhos e a passagem de um vulto, é porque, pobre de ti, tão bem te valem os olhos e a pele e os ouvidos pr'aquelas simples operações do espírito como é o "ver" e o "sentir". Já eu, devo dizer-te, jamais te perderei de vista enquanto tiver - como estas - tantas e tão interessadas palavras alçadas à dentro, como se a porta aberta fosse, ao contrário, um poço profundo e o escuro tão repleto de nuances quanto qualquer primavera. Pois existem mais camadas entre o branco do papel e o preto da tinta do que julgam afetados uns furtivos e ingênuos impressionistas.

Cores

Caminho sobre cores
.... variadas cores
.... calorosas cores
Que escorrem ao toque de meus pés
Deslizam pelo desfiladeiro
Novos mosaicos ao relento
Novas composições ao acaso

Sol nasceu

                                (Tela: Sol poente, Tarsila do Amaral)

SOL NASCEU
    &
       SUA
               EU.

Suado

 Molhados de suor terminam.
 Apressados começaram.
 Ela calcula cada movimento
 Ele sufoca cada gemido.
 O suor
 O grito abafado.
 Ela espera a hora certa
 Ela pondera, ela pensa.
 Ela quer fugir.
 Ele respira. Ele se entrega.
 Ele espera. Ela quer sorrir.
 Os olhos tristes, perdidos.
 O corpo triste, cansado.
 O gemido.
 O calor do quarto abafado
 O fogo do grito abafado.
 O gemido triste.
 Desesperado.
 Molhados de suor terminam.
 O gemido.
 Sufocado.

Certezas, somente quando...

Só quando tiveres olhos de infinito...
Verás como são ínfimas, as certezas que dizes ter
Caberás no vácuo, e mesmo assim te acharás
Teus redemoinhos, tuas obras-primas e teus juízos
Tudo isso será teu e de todo o mundo
Mas somente quando tiveres paisagem de infinito...
Porque os abismos têm fundo
E as estradas, essas que tu dizes querer
Se desdobram para passar em tua esquina
Teu guarda-chuva, se fecha só para a chuva te molhar
Mas tudo isso, só quando tiveres flores em teu jardim infinito
Porque teu sal precisa ter gosto de mar
E o teu saber e o teu sentir,
São tuas entranhas, tua pele, o teu suor.

Anamorfose

Havia ela escrito esse texto; um texto tão particular que cada um que lia tinha impressão de tratar-se de história totalmente distinta daquela que lhe havia contado o amigo, tendo lido o texto alguns dias antes. Mas não era no tempo que a diferença se estabelecia e senão no espaço. Duas pessoas que lessem o texto ao mesmo tempo, de pontos diversos no espaço, teriam razão de uma outra novela; ou de um poema; quem sabe, ainda, de uma nota de rodapé; poderia ser que lessem as duas uma mesma coluna jornalística e que, no entanto, cada notícia relatasse o mesmo acontecido numa cidade inteiramente outra. Seria, então, por haverem lido aquelas palavras que chegariam a conclusão de sua própria existência no mundo, uma vez que lendo distintas imagens diante de um mesmo pedaço de papel preso a uma parede, seriam, assim, depoentes da divergência essencial em que se estabelecia aquela experiência. Sentiriam como se estivessem também sendo lidos quando julgassem, por sua posição no espaço, colocarem-se as vistas de um observador atencioso, que enxergava, para cada visada e em cada lugar, uma história particular.

Era uma vez um dia de chuva

Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.

Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.

Sobre ou sob um pedaço roubado de mim ou de você

Como pode uma certeza se esvair como incerteza?
De modo ingênuo e duradouro perco-me nos vãos que se instalam de nada entre nós.
Vãos espaços.
Vãos espasmos. 
Vão. 
Vão de ir, mais de um. 
Vão de partir um sem outro, um em dois. 
Ele foi e consigo levou parte: nem todo nem nada: parte de mim.
Um pedaço que não se encontra mais.
Arrancou, levou sem pedir.
Roubou-me. 
Roubou-me de mim.
E agora quando o vejo - Ele - não o vejo mais: só procuro o que me foi roubado e nem sei mais, se ele é dono desse pedaço de pecado que tiraram de mim. 
Ou se fiquei, em pedaços perdida, no ar. 
Não sei se sou, se tenho, se sinto.
Só sei que vou, como ele foi e permissiva estou.
Dei-me carta de alforria: alforria da dor da ausência e do tempo mastigado e dificilmente digerido todos os dias pela falta.
Fui e quando vi era pro outro lado. 
Fui como ele, mas algum pedaço desse um dividido em dois decidiu habitar o não-lado do outro.
Amor-maldito, incerteza-tenra, dor-passiva, cor-massiva, pensamento-desalento.
Careço. Padeço. Suplico:
- Me habite em seus olhos para então habitar-me.

Rogaine, Viagra, Olestra

Roberto fez 30 anos semana passada. Sem muito que fazer, chamou os colegas de trabalho pra um happy-hour na sexta. Não tinha mais sua família por perto para comemorar. Seus pais moravam longe, e o seu relacionamento com eles nunca foi dos melhores. Eu sou os cabelos caídos de Roberto

Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.

Assaltantes Anônimos


"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer 
sociedade, é um homem sem nada a perder."   
Malcolm X        

Isso é um assalto! Anunciou confiante. Passa tudo! Vamo, vamo, vamo logo senão leva chumbo agora! A mão firme. O rosto escondido. O corpo protegido pelas vestes. O corpo fechado pelo terreiro. Tá olhano o quê? Qué morre cara, cê tá quereno morre? As chave! A bolsa da madame também! Passa, passa, passa logo cara. Chico, pega tudo aqui, vamo logo, corre qui os home tá chegano. Apressadamente saem da lanchonete dos Jardins. Droga! Essa moto falha quando mais precisa! Duas, três, quatro fortes pisadas no pedal, ela arranca, Chico na garupa. O cachorro louco [1] rasga a cidade.

Ausente à dor

A dor, se não era quase
Era nada
Um nada de prazer
Um nada de vazio incompreensível
Porque se afastara dela assim,
Como se não reconhecesse suas mãos e pernas
Mas iria voltar,
Iria morrer esta
E renascer a outra
Outra, que era ela...

Quase...

Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.

A caixa laranja do arco-íris dourado

Selenita realiza, assim como centenas de milhares de mulheres, uma dupla jornada de trabalho. É secretária de um advogado falido no centro da cidade. Dr. Miguel. E, além disso, ao chegar em sua casa, passa roupa, lava copo, estende roupa e pinta o cabelo. Vinte e quatro horas multiplicadas por três ao cubo. É essa a impressão que se tem observando essa dona

Selenita é uma alavanca, daquelas que aprendemos em física, mais precisamente em mecânica. É só fazer a associação. Não olha nem para os próprios pés. Levanta-se às sete da manhã, sempre com o pé direito, pois isso já a direciona para o guarda-roupa, de onde recolhe sua calça preta de veludo e uma camisa branca amarelada, assim como todas as outras que ainda tem. Depois escova os dentes. Toma café. Escova de novo os dentes e faz uma trança no cabelo (dá mais credibilidade, um dia lhe disseram).


Sobre um Conto de Ninar

Era uma vez uma menina que não se chamava. Que ninguém chamava. Ela não tinha nome.
Uma menina que não morava em nenhum lugar. Ela não estava nem permanecia. Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe. Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava. Que não dizia nada não ouvia nada. Ela não tinha voz nem ouvidos. Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava. Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas não tinha estômago nem rim nem coração ela não tinha nada. Uma menina que era um monte de nada e de nunca. Nada e nunca dentro dela num monturo, no meio do dentro que não tinha fora.
Era uma vez uma menina que não chorava. Não brotava água dela. Uma menina que não ria. Não tinha força para um espasmo de gargalhada, não lhe saía força.
Uma menina que nunca incomodava.
Ela não tinha mãos nem pés nem cabeça. Uma menina que ninguém via.

Mas pairava, uma presença.

Gata BorraAlheia

Em uma era de nenhuma vez, não havia espaço para o faz de conta.

A Gata Borralheira esperava aquele sempre onde seria feliz.

Sem contos de fada, diziam. 
Ouvia-se apenas contos de um fado.

Era só uma borra no fazer de contas.

A mulher de azul

Todos os dias no mesmo andar. O segundo. No mesmo passo. Arrastado e pulsante. No mesmo toque. Mãos leves e que desliza. Com os mesmos pisos. Os mesmos panos. Os mesmos produtos. As mesmas sujeiras.

Uma senhora já de idade. Parece uma vó querida, digo. Não, não pude ter filhos, me diz ela ainda com o seu brilho nos olhos. Uma senhora de brilho nos olhos. De um brilho que parece vida. Um brilho que parece que tem algo pra sair do corpo.

Época de Verão


“Época de verão
Criança, a vida é fácil
Os peixes pulando fora d'àgua
E o algodão, Senhor,
    O algodão está alto, Senhor, tão alto.”
(Summertime, Janis Joplin)

Dirige-se para o quintal, não pregara o olho a noite toda. pega a corda no quarto de trabalho do marido. arrasta-se mais que anda, segue para a sala, pé direito mais alto da morada. não é dona de seus passos. puxa uma cadeira, sobe  nela para encaixar a corda no caibro alto, joga a corda passando-a de um lado a outro da madeira. numa das pontas dá três nós, assegura-se de que estejam firmes o suficiente para suportar o peso do corpo. desce da cadeira com a outra extremidade da corda nas mãos, nesta faz o laço... cuidadosamente, mecanicamente, ajusta-o para o pescoço fino. dependura-se na corda, puxa e repuxa, muitas vezes, tantas que a mesma escorrega até a parede entre a sala e o quarto das crianças e ali se aloja, em segurança. novos puxões para testar a firmeza do objeto, um pouco da cal cai sobre sua cabeça, tons esbranquiçados nos cabelos a branquear... a corda deixa marcas na parede velha. será que a casa suportará o peso? sente-se tão densa! sente-se tão nada! novamente pega a cadeira - o sol anunciava o espetáculo no horizonte, precisa guardar bem tudo aquilo – esconde a corda sobre a madeira. exposta somente suas marcas na parede, ninguém há de botar reparo naquilo. esmeralda levanta antes do sol todos os dias, deixa na cama filhos e filhas dormindo, quando acordarem não terão o que comer. dor. arranjar o que colocar à mesa durante o dia. tem de garantir ao menos uma refeição por dia ou uma refeição a cada dois dias. impunha-se esta missão. deus! não fossem suas crias! pega a enxada, que o falecido deixara sempre organizada no canto de trabalho da casa e parte. olhos não tinham onde buscar lágrimas, tamanha a fundara da dor. pés, protegidos por chinelas gastas, tocam a terra seca do lugar. na vastidão terra, pedras e um pequeno riacho que vinga no outono, traz poucos tons verdes na localidade amarronzada. passa por ali.. tanta beleza no ar.. mas não vê a beleza exterior. o vilarejo é ermo, cinematográfico, muita gente da cidade grande vai até lá para gravar filmes que falam da realidade do nordestino. o cenário nasceu pronto. chega mais um grupo na cidade, esmeralda ignora, trabalha, cava em busca de um milagre. o luto pesa mais a fina tez. não vê, é vista. a magia do cinema à sua frente. a possibilidade de ganhar dinheiro como figurante. Sorteio. será a viúva. ironia do destino, a arte imitando a vida. tem certeza que o papel é dela, não sofrerá para desempenhá-lo. grava as cenas. para o cinema. vê-se na tela grande. é atriz. desperta nela uma felicidade, um sentido de vitória. forças que não sabia possuir. sente que é capaz de fazer qualquer coisa. encara a vida. encara a morte batendo a porta da memória... constantemente. diz não, um “não” rancoroso, cheio de certezas e de renascimento. a vida corre, como o riacho com cores. precisa de arte para viver. cria e recria sua realidade. constrói um castelo com sua criatividade: deposita na calçada estrelas, nas paredes fé, na mesa o alimento, na vida de cada filho a música e a poesia. surgem novos sentidos da vida. a casa é arte, atenta a quem passa. a alma está em paz. na parede da sala, entre a sala e o quarto das crianças.. marcas da corda. Dali, como reféns, somente as marcas.

A medida do gosto

Há quem consiga amar co'a alma
quando o corpo, dono dos gestos amáveis,
imerso em dura e estafante labuta, vacila?

Há quem a arte redima dos golpes
a seco nas feridas e calos, que o faça
querer mesmo o palco ao invés d'uma cama?

A medida da gota era a medida do pó

Lá fora chovia
Cá dentro secava
A medida da gota era a medida do pó

Queria chamar por Cecília
Queria falar de João
A medida do não era a medida do pó

Lá fora molhava
Cá dentro moía
A medida da dor era a medida do pó

Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.

O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Nem uma nuvem ao longe anunciava a vinda de uma gota sequer. Passara já por um bezerro todo feito de costelas que o fez salivar. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.

Declaração de inocência

No banco dos réus, o cérebro permanecia calado, astuto, certamente maquinando sua própria defesa, enquanto do outro lado, uma promotoria sem papas despejava verbos e verbos contra aquele pobre músculo, cujo uso - assim a língua dizia - enrijecia a alma e desprendia o corpo de sua mais fresca humanidade.

Pelo banco das testemunhas passaram fígado e rins, estômago, olhos, apêndice (este, refutado pela defesa na simples confirmação de sua franca inutilidade), mãos e genitália. Subia, agora, a voz que mais se esperava e fez-se silêncio no recinto quando, chamado ao juramento, o coração se apresentou. A língua amaciou seu tom, que antes vociferava sem calculo ou pudor, e fez do drama, que agora se inclinava diante do júri como uma orquestra silenciosa, o cenário ideal para esse depoimento. Falou o coração. Repetiu-se algumas vezes numa oratória que dizia não apenas criminoso o cérebro, veículo marginal de uma tão seca premissa, mas condenou com ainda mais veemência sua protetora, progenitora e religião. Disse, dentre outros adjetivos cujas descrições não serão aqui alarmadas, da razão: intolerante, abusiva, autoritária, insensível e frígida. Esse último, repetiu-o sete ou oito vezes, e desandou um lamento que comoveu até mesmo os ouvidos, que tentavam até ali se por na imparcialidade de orgãos sem filiação.

Na quadra.

tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum

E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...

Primeira de Mangueira

O sambista: gari, bacharel, manobrista.
Pai de Santo, pau de arara. Autista:
O sambista está dormindo,
Mas não tarda em acordar.

Alvorada, o dia, à tarde, à noite,
a madrugada toda, raposas e gatos,
macacos e ratos fuxicam,
fornicam e fuçam, e roncam.

Estação

Perdi o ultimo vagão para a estação triste
Caminhei nos trilhos como se fosse feliz
Aprendi que as pernas seguem os pés
Em qualquer trilho que se sabe aonde quer
Passeio de pedra em pedra
Uma no bolso
Outras para trás

Minha música muda

E naqueles olhos eu morri.
Calei minha voz aguda.
Perdi!

A luz, o palco e o movimento

Há uma lebre morta embaixo da primeira cartola.

Há uma lebre morta embaixo da segunda cartola.

Há uma lebre morta embaixo da terceira cartola.

Embaixo da quarta cartola, há uma lebre morta.

Há uma lebre morta, também, embaixo da quinta cartola.

Há uma lebre embaixo da sexta cartola: morta.

Há, morta, embaixo da sétima cartola, uma lebre.

Há, enfim, lebres mortas embaixo de uma oitava e nona cartolas.

Eis que o mágico, então, uma cartola levanta – a décima.

Obscura luz

O jardim da noite cidades em chamas,
enxames de abelhas de luzes elétricas.
Mas damas e rainhas ainda perfumam o ar.

As sombras estão cheias
de cores, pulsos e sangue.
O silêncio que ouço no barulho,
e o seu contrário multidão.

Parabólicas Bucólicas

“Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
 Traz do sonho pro mundo quem já não o queria
 Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia” (Paralamas do Sucesso)

Na cidade estendida qual rede a quarar
O corpo desfalece clamando por água e sal
No ar circularidades de ondas a invadir
Ouvidos e corpo inerte
Que valem as ondas invisíveis a nos vigiar?
Que valem as ondas levando e trazendo
Notícias de um mundo fantasia?

do que somos

Meu amor
Quando você fez em mim espaços de aterrissagem
Cheio de promessas de flores, frutos e vôos
Não olhou pra terra nos meus pés

Toda sorte de presentes
Todo gosto por partilhar
Me fazem desembocar no mar
Fluindo leve
Feliz pleno até do perfume
Mas olha: não vou sozinho
E muitos deles, não sabem nadar

Fragmentado

Há dias na estrada. Não me acostumo com a distância. Não essa. Horas a fio tecendo com o olhar uma geografia longínqua e estia, quiçá até íntima, já nem sei, agora que até meu corpo parece às avessas, sem lugar, se confundindo a tudo que me é solidão. Tudo que me é memória. Um indício ralo deixado lá atrás, a quilômetros de distância daqui, esse ínterim roçando cada pedaço de chão a que aporto. Agora mesmo levo o cigarro à boca com os olhos lá fora no estacionamento, tão longe que me perco em mim mesma, a poeira cobrindo o capô do carro e tudo a volta. E Deus parece a milhas distante daqui, faz vista grossa a nós duas, vê?, talvez nem ouça Dylan baixinho no rádio como eu o faço, com o cigarro na boca e lembrando que dias antes de apagar cada prova de minha antiga vida e bater a porta e dar com o dia me pesando sobre o dorso feito dúvida, dias antes eu me decidira por você. Sobretudo me decidi por você, deitada rente ao sono. Ainda levo os sentimentos nos poros, junto aos grãos de areia, em cada ranhura de minha pele, no talho sob as gazes feito guardados de memória. Talvez não me livre disso, logo vira cicatriz e a leve comigo, atada aos pulsos. Trago o cigarro com ânsia, certa gana nesse corpo cavo, ausente. Não durmo. Fecho os olhos. Sob as pálpebras fantasmas se esgueiram no breu, meio da noite ainda, feito os pesadelos de quando criança, quando a madrugada salivava suas sombras no teto e eu temia me debruçar sobre o sono para não mais acordar. E então não dormia, feito agora, insone, e tecia minhas fugas horas a fio. Até crescer, descobrir o corpo, um dique que não se rompia nunca, mesmo que eu quisesse, ainda que me esvaísse pelos pulsos, não se rompia nunca...

Semente

Tenho sede do mundo,
Como se o mundo me tomasse em arrastão
Tenho fome de carnavais lunares,
De rasos profundos
Como se eu fosse inteira cometa,
Como se as vozes fossem trombetas
Anunciando as marés e luas cheias

Tenho um mundo explodindo nos poros
A sair pelas narinas
Chamado pela luz do sol, pelas gotas de chuva
Pelo suor da minha dança,
Que prepara um rito,
Para o arrastão passar

Liberdade embalada

Olhou para a porta, pensou em como seria bom poder sair dali e pelo menos um dia (depois de tantos) ver o sol partir. Mas lembrou da nova máquina de ponto que instalaram há algumas semanas e olhou para os dedos, ainda faltavam duas horas. Portanto, se ausentar não podia.

O despertador era programado para todos os dias tocar no mesmo horário, pensou em desliga-lo, mas isso seria descontado no final do mês. Acordou, como de praxe, as 5:30 da manhã.

Pensou em dizer o que pensava, mas seria chamada de insolente pelo cliente e isso lhe custaria bem caro. Calou-se.

Embalo da Liberdade

Experimente
Sair de cena
      Ausente-se!


Experimente
Chegar mais tarde
           Desligue-se!


Experimente
Dizer o que pensa
          Distraia-se!


Experimente
O silencio...


Experimente
Ser bem livre
Isso, mais do que experimente!


Pra ver se é
Bem isso mesmo...
Que te embala
Livremente...

Memória

Certa vez, em alguma esquina da vida, encontrei um garotinha, linda, seus traços beiravam a perfeição, apesar de suas imperfeições caóticas, era linda.

Olhar expressivos, confusos a ponto de não se decidirem nem quanto a cor, apesar da aparente confusão, por vezes decididos, por vezes inseguros, transmitiam alguns sentimentos e informações nobres, a quem tivesse o interesse, a paciência e capacidade de desvendar.

Vivia como em uma espécie de mundo só seu. Com seus fantasmas, suas angústias, seu (des)amores, suas alegrias, suas tristezas, suas fantasias, loucuras, perversões.

da solidão

no peito
um deserto
inteiro, sem reservas
me abocanha
o ser
- esse verbo
latente
habitando as reentrâncias
da geografia tortuosa
do corpo

Cabotina ironia

Do outro lado da rua
em frente ao espelho
a terceira margem do rio:

A linha de fuga
no horizonte virtual
de uma solidão fragmentada:

Algo se debate
que não fica à vontade
e na deriva se deixa levar:

em multiplicidades.

Penteando a barba

A literatura que se instala em meu peito não é aquela que me alcança através dos olhos ou dos ouvidos, senão a que tem olhos e ouvidos próprios e me encara diante do espelho. Mas, então, responda-me seu grandessíssimo cabotino: Por que tanto amor dado a si e nem ao menos bom-dia a uma pobre alma que estende a ti sua voz do outro lado da rua?





Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.

Hotel Amargo

Surpreendeu-se com os olhos fixos no teto. O olhar dele, que antes percorria inquieto as coisas e o mundo, as coisas dentro do mundo, ou o mundo dentro das coisas, agora dera para estatelar o nada. Olhou para dentro de si mesmo. O tempo correu. Surpreendeu-se olhando para dentro de si mesmo. Desviou os olhos. Pensou que deveria acender a luz do quarto, passava das seis horas da tarde, o escuro aparecendo e dramatizando tudo, pinceladas expressionistas sobre sua incapacidade. Paredes, móveis. Permaneceu deitado, porém. Fitou os pés magros aparecendo na barra da calça do pijama, brincou um pouco com os pelos lisos da barriga. Cruzou os braços sobre o peito, tentando encapar o movimento com o embrulho da superioridade, mas conseguia ouvir o barulho do chuveiro em que o outro se enfiara, imaginava os olhos dele ardendo por causa do xampu barato. Sentou-se na cama, bruscamente.

Era estranho. O quanto sua capacidade de enxergar aumentara, a partir do momento em que passou a usar os olhos dele. Quando era criança, costumava achar que o mundo terminava naquela linha, naquele limite redondo que a vista alcançava. Ficava imaginando que se a pessoa desse um passo além do horizonte, essa pessoa cairia. O que antes era apenas intuição, agora se tornava uma verdade. Ele foi além, e caiu.

íntimo

... Trazia os olhos sobre uma memória, e a fiava com o silêncio de quem pura e simplesmente se pega a remoer o passado numa dobra ou outra do dia. Não a notariam - não ali sob o finzinho de tarde, com os olhos sobre o guardado de fotografia que trazia consigo, amarelado, alguns rostos (felizes?), o passado alinhavando aquela lonjura de anos a fio - ranhuras, as nódoas na pele, já cansada. O tempo, esse que mal sabe, mas tão presente agora. “Cá dentro não me esgoto, me farto”, ali, dedilhando sentimentos, “palavra dá corpo a sentimento?”, perguntava-se. Sabia mesmo que tardes iguais àquela roçavam o peito, e se por segundos fechasse os olhos, num gesto vago, lhe brotaria sob as pálpebras a saudade de um amor feito lá atrás, quando ainda não era ausência feito agora...

Angústia

Comprou cigarros. De início iria fumar só um (talvez outro) depois do trabalho e jogaria fora o maço ainda cheio, como fizera tantas vezes. Mas desta vez fumou vários, um a um, dia após dia, na interminável promessa de parar na manhã seguinte. Que não chegou. E ao redor da fumaça fedorenta flutuavam nebulosos pensamentos sobre a vida e uma certa nostalgia. E um buraco no estômago... humores? Blá-blé-bli-bló-blu, diria um poeta apaixonado. Não podia crer em poesia; não neste momento. Caminhava errado, porém qual o atalho correto. Angústia crescente nas lombadas. A cada cigarro aceso percebia que o buraco não era vazio, estava repleto de uma massa aterradora, absurda. Sufocante. Sentia falta, mas de quê. Uominis-humbre-falus-pensantis-amenos, blasfemara o filósofo. Não entendia nada de filosofia, psicologia ou meteorologia. E os raios esbravejando no seu cérebro vertiginoso. Não é estômago, é coração, percebeu. Aí era tarde demais e os cigarros já tinham acabado: voltara a fumar.

Indivíduos ou um conto sobre angústia.

Tinham o peito preenchido pela ausência. A selva que cercava suas casas também cresciam em galhos nos  pensamentos. Eram, naturalmente, felizes (ou deveriam ser) já que possuíam a mais rica tecnologia para se comunicarem - eram lindas mercadorias com as mais diferentes luzes e botões. Acreditavam no poder  como resultado dos anos trabalhados em esforços. Possivelmente alguém (em tantos) vingaria, assim poderia distribuir em bondades e caridades o que os outros necessitavam para se manterem vivos durante os dias que voavam com o tempo.

(O tempo, velho ingrato que teima em voar, insiste em perpetuar a ausência, aquela mesma que preenche os peitos.)

Se encontram, toda semana, em grupos de crenças para satisfazerem o doce prazer da relação.

Labirinto

Uma estrela hoje caiu
Minha cabeça atingiu em cheio
Assim despencou...do nada
Sangue lunar de repente
Por minha face escorrendo

Seu brilho noturno clama o céu
De suas luzes apossou-se
A megalópole
Morte súbita entre as luzes artificiais
Estava só, quando dei por mim

haikai urbano

o neon na pele

liquefaz o corpo todo.

sombras no asfalto.

cru

eu vivo aqui mesmo, perto do chão
gosto de sentir o cheiro de mijo da calçada
gosto do gosto de porra na boca
vôo às vezes por aí
mordida numa nuvem cinza
vôo cego, sem capacete
e o sol na cara
o chão é meu segundo lar, volto sempre que posso
pouso derrapante em dias de chuva

Parceiro de Queda Livre

Eu também varo nuvens caindo
por entre rajadas de vento
do topo de minhas pretensões mais elevadas
e contraponho momentos em que vôo
à margem do choque fatal
com o desespero de quem não tem onde se segurar
afundando cada vez mais 
nas profundezas existenciais

Eu fui olhar o abismo
e me encantei com sua grandeza
atraído pelo brilho sublime da luz
dei um passo além
e caí pra sempre no vício do sonho
no lodo humano
caí para sempre em seu desvão de sentido
estou caindo sem nenhum controle
e nenhuma oração pode me salvar
e nenhum remédio nem uma bela mentira 
pode evitar meu desastre

nada

Voltava pra casa depois de duas semanas fora, tinha precisado de umas férias da própria vida, mas já sentia saudades de casa. Não há lugar como nosso lar, descia a rua lembrando de Dorothy e quando viu já estava em frente ao seu prédio.

Abriu a porta e sentiu aquele cheiro conhecido, de cera misturado com desinfetante. Engraçado como lembramos dos cheiros, ainda lembrava do cheiro da escola na primeira série e sempre que sentia aquele cheiro, que nem sabia identificar, era transportada pra aquela época.

Entrou no elevador antigo e mais uma vez teve medo que ele parasse de repente entre os andares, apesar de nunca ter parado com ela era insuportavelmente lento. Décimo terceiro andar era o dela, sã e salva. O corredor era comprido e cheio de portas, numa delas estava sua casa. Não há lugar como nosso lar. Na sua porta, o tapete colorido e brega parecia gritar algo sobre a dona da casa. Chave na fechadura e a pressa de tirar os sapatos e fazer um xixi, porque não conseguia mijar calçada.

Caindo

Não lembro muito bem quando pulei, ou se jogaram-me... Só sei que quando percebi já caía neste precipício sem fim. Todos caiam, e caiam sozinhos.

Alguns dos que caiam, agarravam-se a pedras, guarda-chuvas ou papéis soltos, deixados pelos que antes caíram. As vezes divinizavam tais objetos, e diziam que lhe contavam histórias sobre o fim da queda, ou que um dia o sofrimento e o medo acabariam. Mas se acabasse o sofrimento o que seria do Amor?! Por vezes tentei acreditar, também tentei agarrar-me, mas logo desistia, havia pouca beleza em tudo.

...

Vai desconstruindo essa eternidade dentro de ti,
Porque é tudo poeira
Vai lavando em rio,
Tua alma arteira
Porque no final, cujo lugar desconhecemos,
O que se tem são correntezas,
Que se espalham terra a dentro...

sem título

e de repente a gente nem precisa de espelho pra entender que cresceu
que cresceu demais para o que queria
que o que escorre já tem outro peso
dói mais
demora mais pra passar
demora mais pra entender
pra compreender
pra aceitar
e de repente os silêncios fazem mais parte do que se queria
as incertezas, as dúvidas e os medos já nem se contam mais
isso porque parecia que quanto mais se crescia mais simples seria
poder fazer qualquer coisa
ir a qualquer lugar
e de repente ser o dono de si mesmo pesa
pesa mais do que se sonhava
do que se podia imaginar
e nessa construção
pensamentos ossificados
sensações liquidas
medos santificados
buscas mobiliadas
e são várias paredes brancas
e são vários os silêncios
e você crescido...

O fim previsível é o mais provável de todos os erros

Braços vão além da extensão do corpo, e eu, com essa iluminação, tracei tua áurea com a língua sobre seus pêlos.  Imaginei o corpo sendo o mundo desnudo, e nós, as partes deslocadas da matéria-mãe, desencaixados e vulneráveis a seguir objetivos que nunca serão nossos. Válvulas de improviso  que resistem ao prazo de validade, sabendo que só há uma chance de romper com os dogmas. E se por alguma crença, existirem outras, essa não deixará de ser única. Nada é o mesmo sempre, nem mesmo as peças do mesmo fabricante.

Pé de estrela!

Havia ventado tanto, que as emoções foram todas levadas junto com o vento. Emoções, segredos e histórias - aquelas contadas e não contadas. Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos. Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou. E você sabe, né, vapor que sobe para o céu,  tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva,  tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.

A Ausência

A ausência era seu par. Para ela dava colo, consolo, cuidado. Saiam para passear de mãos dadas. Visitavam bosques, museus, cinemas, espetáculos dos mais variados. Bebiam vinho. Preferiam comida japonesa com shoyu light. Ele e ela, a ausência, sempre lá. Um bom tempo passou. E, ele, só de olhar para ela sentia cansaço. Quis terminar o romance. Ela? Não. Bateu o pé. Já estava acostumada ao colo, ao consolo, ao cuidado. Não teve jeito. Ele partiu para o litigioso. Em meio às discussões banhadas em dores o processo correu. Foi mais rápido do que ele imaginava. Enfim: a separação! Um alívio. Agora sim! Naquela noite ao deitar sentiu um cheiro que nunca tinha sentido, pelo menos não se lembrava. Ao acordar olhou para o lado da cama que a ausência costumava ocupar. Sentiu-se só.

Flores do Paraíso

Faço de minha loucura meus versos

De meus versos faço meu reverso

Busco solução para o que não tem mais

que ser resolvido

Tento acreditar em algo e diariamente

me mostram que estou enganada

Da viril vaidade do homem que escreve ou fálico é o falante

Éramos praticantes das mesmas simbologias, embora tomássemos parte nessa mecânica como partes distintas e destacadas. Enquanto eu marcava a ferro as datas das minhas mais cabais frustrações, ele empunhava o ferro e dava o contorno tipografado dos números de dias e anos que em minha pele devia servir de brasão.

Andávamos juntos ao rigor da sincronia das marchas. Eu era sempre o pé que apoiava, que suportava todo o peso nas juntas comprimidas querendo partir-se. Mas era ele quem conduzia, quem revelava o caminho e estava sempre no ar. O pé que impulsionava era leve como a fumaça, mas combustível como o âmbar.

Quarar

Atravessar-me
Mudar de metade
Ver a que não conheço
Dar a ela a mão
Tirá-la do cheiro de guardado

Dar a ela banho de sol
Quarar com sabão de côco
Deixar a espuma endurecer
Banhar na água a metade quarada
Vê-la transparente, clareando

Da parte que não domino eu

Metade da minha vida
Tenho nos dentes
A outra metade, caminha
Não sei se chega,
Não sei se levo
Sinto-me do outro lado da beira
Da estrada que não quero borrar
Sinto-me a um pulo de mudar o eixo
De trocar os sapatos
De me vestir de mim
Sinto-me querendo voltar
À essência que me transforma em ser

Minha receita cotidiana

Todas as manhãs levanto antes do sol
faminto de sono

Misturo passos e pequenos saltos
mexo até dar liga

Bato tudo com um pouco de ônibus
e pitadas de metrô

Cozinho meu caminho até o serviço
em fogo baixo

Aroma

Minha fé tem cheiro de mato.
Terra molhada, café torrado.
Doce e amarga.

Café

Café, terra coada.
É o teu sumo que me corteja.
Seja ele quente, morno ou frio.

Principia.

A propósito do descabimento

Despertei de repente, embora já estivesse acordado. Impelido por qualquer vaidade, fui ao berço de ça propriedade como um, que sou, destemido. Queria saber até onde ia minh'obra. Desafiei-me, então. Subi num palco sem qualquer roteiro e fiz tecer, indecentemente, mais uma alucinação de meu ego. Disse que assim era o trato e me pus ao labor da escultura como um artesão à altura fizesse arte do artesanato. Eu, no entanto, queria mais que um tom de cultura; queria a mágica e o encanto que surgem da folha vazia, da alma em branco. E fui. Pensei não precisar de argumento; de motivo ou inspiração. Pensei que era só por pra for o de dentro e a notícia teria sentido, o "teria" seria por si, e o sentido faria a razão. Mas caber em meu ego, como a caixa onde cabe o sapato cabe no armário, não é uma simples tarefa do intento e não basta a vontade ou os ossos pequenos, pois o espaço que falta não é gaveta ou compartimento, mas justamente esse excesso em pauta, do falar tão seguro que exalta, a propósito do descabimento. E, então, percebi que era tarde; que a tarde na história era o texto e o seu momento - e não a sacada do gênio. Pensei em apagar cada verbo, cada vírgula, palavra e até o espaçamento. Mas havia uma clausula já prevista nos astros - que os minutos gastos, era esse o investimento. E mesmo que assim apagasse, e o branco aos olhos abertos voltasse, o poema jamais voltaria no tempo.

Tempo


A demora vem socorrer o tempo já velho,
como se as linhas das mãos fossem estradas.
Qual será o tempo dos meus olhos?
Fenomenologia aplicada.
Tempo que escapa e se guarda.
Chá frio...
Cromos da aurora de meus olhos.
Sentidos que o tempo faz sentir doído.
Muros que te deixam subir bem alto.
Descobertas, desafios...Muralhas...
O tempo é como a bicicleta...
Um quase voar.

Auto-imagem e semelhança

Ele: esse labirinto concêntrico em forma de umbigo
Um buraco amigo pra chamar de seu: quarto
Onde possa imitar anúncios de cigarro
E planejar a próxima frase de efeito.

Hoje acordou olhou para a janela e, desconfiado,  se perguntou: tem alguém aí?

Evaporização

Sobre este espaço vazio tento escapar do compasso binário, do pêndulo sufocante e monótono. Pago pedágio o dia inteiro. Nas ruas, disfarço-me na frivolidade e sigo cantando. O denso cotidiano coagula meu sangue. Repouso nas paredes amareladas de nicotina do meu quarto. Com a fumaça faço ininterruptos círculos concêntricos, acho graça em vê-los se desfazer no ar. Preparo-me para o breu insondável. Fujo dos voos estéticos e sedutores das palavras bem encaixadas e sonoramente bem desenhadas. Brinco de funâmbulo entre as quase memórias das quase experiências que quase tive. Se pudesse me enterrava por aqui, escrevendo enfurecidamente, disparando palavra atrás de palavra, ora vociferando, ora fazendo gracejo, ora sem propósito algum. Cada palavra é um passo, corro sem olhar para trás. Sofro de fúria ambulatória. Ouço gente lá fora, buzinas, o caminhão do lixo, risos, fragmentos de conversa, confundo os tempos, incluo-os no ciranda. Não faço isso por necessidade, por vontade ou para me sentir feliz. Faço simplesmente para criar uma lacuna de mim mesmo. Faço para escapar do abismo cego das preocupações diárias. Neste espaço de tempo, sou os ininterruptos círculos concêntricos que se desmancham no ar, tudo que é específico evapora-se, transformam-se em paisagem. É isso. Busco a calma inerte das paisagens, não pela alegria doentia de confundir-me no coletivo, a mesma alegria que se vende nas lojas de 1,99 e sim por entender a frágil e sublime dança dos fragmentos. Pela claraboia do meu quarto percebo que já está na hora. Faço a barba, me visto e disfarço minha indiferença com um belo sorriso.

Desapego


Em dias que o peso do mundo cai sobre sua total responsabilidade,
aprenda que, o tempo é outro, mas os poetas antigos, falavam sobre nossos problemas,
vejamos, o sol é o mesmo, a lua é a mesma, estrelas mortas ainda brilham,
a vida é uma ponte, e somos deuses.

Escravos do tempo, não entendem que a velocidade aumenta os batimentos,
mas jamais, ouça, jamais, trará a paz que procura, essa paz,
se faz no cotidiano, nas escolhas diárias,
como podem se preparar pra um futuro,
esquecendo o futuro do dia de ontem,
o vento não sopra o mesmo lírio,
ele cria novos lírios.

E ainda me vêm com a ideia de que somos evoluídos...

A luz tem sombra?


LAURA SALERNO

Espanto

O menino interrompeu seu passo. A voz que ouvia não era de alguém, mas da sombra.

A sua sombra falava.

Falou de quando era jovem e pequena, de como cresceu e tornou-se sombra adulta. Contou que as sombras vivem para sempre, aparecem onde tem luz, e fazem festa onde não tem. Disse que se alimentava de poeira, e que estava cansada de tanto andar.

Jack in the box

Certa vez,
aconteceu de uma amiga
ganhar um presente 
Desses presentes de afeto
e não de nota
Desses presentes que dados na hora
são os que a gente mais gosta

Ofereceram-lhe uma balinha
E era água para sede
Aquele doce, 
naquela hora, 
naquele dia

Boneca Inflável

Ela está ali, pronta, cheia de ar desde a ponta dos cabelos até a unha do mindinho. A boca sempre pronta a oferecer prazer, batom vermelho, lábios finos sempre abertos No corpo somente o plástico claro a modelar suas curvas sinuosas, o toque especial eram as longas unhas vermelhas das mãos prontas para as carícias, mas em nada, nada mesmo jamais superariam aquela boca, pronta para amar. Assim ele a via... Sobre os olhos sombra azul celeste convidava à viagem entre nuvens de diamantes, fechando-se em nariz afinado e meio arrebitado estilo Marilyn Monroe.

Carregava o estigma da sensualidade feminina a toda prova, tinha que sê-lo, pois precisava muito de dinheiro e a profissão de artista plástico não andava nada boa, ainda mais para os populares, sem escolarização. Seus estudos eram a vida e a arte na rua, para a rua, mas precisava sobreviver e resolvera investir em sexo, coisa sem a qual nenhum caboclo, do mais simples ao mais pomposo, não vivia.

Ancestrais

Caminho por uma praia abstrata,
frequencial,
dodecafônica.
A ressaca das águas,
despeja plânctons e recalques
nos meus pés nus.

O cheiro de ancestralidade,
diante do crepom abissal,
a maresia
me derruba com a sua insolência.

A umidade relativa da água.

Chegou na minha casa às 23:37. Sei exatamente a hora porque olhei no relógio - sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria escrevendo sobre isso e me apeguei aos detalhes desde a espera até a hora que ela partiu. Abri a porta e ela entrou. Sentou-se no sofá, cruzando as pernas que saíam de dentro do vestido minúsculo, e esboçou um início de conversa: - Bela casa você tem.

- É alugada. – tive que dizer para que ela não pensasse enganosamente da minha situação financeira.

- Ainda assim é bonita. – ela concluiu.

Eu ofereci um vinho, cerveja ou água, ela rejeitou todos sumariamente, se levantou do sofá, colocou as duas mãos na minha cintura e começou com as carícias. Primeiro subindo pelo abdômen, por dentro da camisa, por todo torso até o peitoral, depois descendo, cravando as mãos por dentro das minhas calças e apertando minhas nádegas com força.

Na Chuva, Não Tem Que Se Molhar

“Belezas à parte, quero mesmo é viver.
Chuva para mim é só tempo úmido”
(Valéria)


O ambiente é opressor, sabe que diante daquelas situações o melhor é se calar. Cruza as pernas bem delineadas e continua somente apreciando o lugar. O salão oval, abobadado, termina em lindo vitral fornecido pelo príncipe regente, as paredes são mantidas com características de época, vez por outra, surge um lugar desbotado, desgastado pelo tempo.

A reunião continua, não sabe até que horas suportará companhias tão desagradáveis, políticos vencem eleições em nome do povo, governam para si próprios, acovardados diante da vida, seguem causando mais malefícios que benefícios.

Se ao menos aquela mulher parasse um pouco de falar, ajudaria. Todos na sala sabiam que nenhum tratado internacional jamais seria assinado em prol das comunidades pobres e da preservação do meio ambiente, mas faziam defesa à proposta, daria força à candidatura.

O beijo sob a chuva ácida

O barulho da chuva era tão alto que nós não conseguíamos nos ouvir, torrencialidades de desejos, eu me lembro que você disse alguma coisa sobre a gente, sobre estar juntos, mas as gotas grossas e pesadas nos separavam como abismos, eu me lembro de ter perguntado bem alto o que foi que você disse, enquanto deslizava a mão no rosto para represar aqueles aquedutos correndo, um fluxo de expressões ansiosas que eu queria esconder de você, parados os dois naquele estacionamento vazio, você se aproximou e tocou com dedos leves o meu rosto pulando corajosamente gargantas e ravinas, éramos dois homens nos tocando naquele teatro de Noé, e não havia lugar onde pudéssemos nos abrigar daquele dilúvio, mas a pergunta era: queríamos isso realmente? Talvez se a gente se escondesse daquele aguaceiro, talvez isso significasse uma ruptura do momento, talvez nós passássemos a nos ouvir melhor, e no nosso caso, compreender era perigoso, você me perguntou se eu estava a fim de me render ao clichê e juntarmos nossas bocas na chuva, beijo cinematográfico, hudsons e newmans. Eu disse que sim, que só faltava alguém com aquela plaquinha divertida de claquete pra dizer ação e então nos beijaríamos bem hollywood debaixo daquela chuva, você me respondeu qualquer coisa assim como a chuva é a nossa diretora e eu dei risada, rimos juntos, eu me aproximei de você, olhei no fundo da tua boca e beijei o cristalino dos teus olhos, estes olhos estranhos e belos, ficamos assim parados nesse nosso teatrinho de representações, você deu um passo dentro da chuva, você estendeu a mão e tocou na minha barba, a partir disso mundos cederam em alguma parte, na realidade, expostos da chuva, sem fugir da chuva eu fugia da chuva, fugia do chuvisqueiro dentro de mim, você fugia da sua garoa interna, refúgio, marquise existencial de mãos dadas, um carro passou, depois outro, deviam estranhar aqueles dois caras estatelados por atrações mútuas, os faróis iluminando aqueles dois perdidos que se encontraram, mas faltava muito pouco, a minha boca já diante da sua, o bafo de cerveja e halls se misturando, as bocas e línguas quase se enroscando entre as Águas e Incontinências do mundo, dois rios, Amazonas e Orinoco, tua boca encostou na minha, minha boca encostou na tua, descarga elétrica no diapasão dos nossos corpos, nossas línguas se enroscaram num quente, redundante, molhado e triste beijo, um carro passou nos iluminou, musiquinha dos Smiths tocando alto "and if you must go to work tomorrow"..., nossas línguas enroscadas naquele embate desmitificador de projeções, meu halls passou pra tua boca, eu me embebedei com seu hálito, e nos olhamos e ficamos parados na chuva abraçados e, sim, éramos o melhor exemplar de nossa espécie.

Dobradinha



Lua fénix:
oscilante espectadora




Isto é


Muita chuva e pouco arco-íris

Seria mais um dia de inumeráveis incoerências onde as crianças são terríveis, os homens os donos, as mulheres caladas e os velhos apêndices. Outra vez o amor seria confundido com propriedade do corpo alheio e frases concluídas pelo romântico fetichismo. Mais uma vez morreriam milhares em nome da mercancia pátria intolerante fanática do senso comum. Seguiriam as pessoas, confiando para si como verdade, as palavras de revistas que veem. Algum indivíduo voaria o mundo em primeira classe em busca de felicidade e outro alguém não daria (sequer) um passo, graças a tristeza do estômago vazio. Humanos assistiriam a dramaturgia real espetacular de um mundo em um quadrado de imagens hegemônicas. Seria até possível presenciar aqueles que desempenham seu emprego de sacrificar os desrespeitosos da ordem. Seria mais um dia desses o próximo e os próximos e os próximos...

Poesia sem poeta II

Um dia vou fazer uma poesia,
Que explique tudo,
Sei que ninguém vai entender,
Por isso mesmo farei!

Será uma poesia que não falará de amor,
Muito menos de saudade!
Não citará nem sequer a paixão!

Não será ridiculamente romântica,
Não haverá fantasias ou devaneios.
Será verdadeiramente sincera!

Filacantos

Abrem a janela do dia,
Fios de canto e poesia
Contos, prosas em fotografia...
Uma rede vai se tecendo em palavras
Um tanto de ócio, um tanto de saudade,
Um tanto de dor, um tanto de risos.

Aqui, nesse canto da rede de calor e muito mar
Faz hoje uma chuvinha preguiçosa,
Que chamam os versos em sopro
Que ardem somente a calma...

O chamavam de Gorila

Se queria comer, pegava
Se não queria, dormia
De todo modo não falava
Se escutava, não entendia

Ali parado só olhava
Se pensava, não sabia
Se queria comer, pegava
Se não queria, dormia

Aguda gravidade


Tão simples quanto
entrar no buraco de uma agulha:
um gol, uma luva,
um amor, um girassol.

Peso

Arrasto minha liberdade pelas ruas, quase como uma obrigação. Ela está atada ao meu calcanhar esquerdo, porque era a única forma que encontrei de arrastá-la com uma certa facilidade. Minhas mãos ainda estão esfoladas com seu peso e sua aspereza e não mais conseguem segurá-la por muito tempo. A noite eu deito minha cabeça sobre minha liberdade, tento fazê-la de travesseiro. O cansaço cotidiano é tanto que consigo dormir rápido, mas sempre acordo com dores no pescoço e costas, já que é tão desconfortável quanto dura. Arrasto minha liberdade com tanto orgulho, que nem percebo minhas roupas rotas e minha pele ferida enquanto sorrio para as pessoas, dizendo: "vê? Sou livre!!"

Sou livre para morrer de liberdade, porque dela, de qualquer forma, pouco consigo viver. Ainda assim, a seguro com o cuidado de um Shyloch para com sua bolsa de moedas. Tudo o que tenho é essa liberdade, que é minha e só minha. Liberdade que conquistei como se conquista um troféu valioso, uma medalha brilhante, uma mulher difícil.

Simples Enganos

Quando imbuído de insegurança
Externamente travestida de orgulho
Tomado torna-se o pobrezinho
Em terra delira quixotescamente

Mãos, pernas e costas apoiadas
Salvação em escombros a boiar
Burla em si mesmo a legalidade
Fragilidade ancorada noutros mares

Da metafísica e outras medidas

a distancia entre a idéia
e o impulso
será a mesma
que a que há entre o impulso
e o que segue?

Dos motivos, das causas
quem sabe ao certo
do certo a medida
entre os possíveis e os prováveis?

Coisas de gente preconceituosa...


A língua dilacera a alma 
Engana o homem
Dá prazer e vertigem
Apodrece,
Quando consome
A língua mora na boca
Que come
E que será comida 
Os vermes devoram 
O homem e a língua
E evacuam a intolerância infame
de toda uma vida perdida...

Ao extremo

Eles fazem da noite o terror dos que se mostram. E andam juntos, por ruas claras e escuras, procurando por quem se atreve a ser. Em seus rostos, a multiplicidade étnica dos brasileiros. Mas preferem narizes importados e a “pureza” de ideias que julgam próprias.

Vítimas do machismo, trancafiam seus desejos no imundo cárcere de corpos mal amados e dedicam-se a combater a liberdade dos afetos.

Ignoram as cores, as origens e os ritmos de seus ascendentes, enquanto marcham, com tênis made in, sobre o solo de um país inexistente. A terra sul-caucasiana de um delírio fora do mapa.

Não lhes falta coragem, nem ideais, nem energia. Não lhes falta estudo, nem dinheiro e nem advogados. Só lhes falta um espelho ou, quem sabe, alguma tintura capaz de mudar a cor do próprio sangue.

Ideologia

Ontem, na solidão dada pelo descaso assistia TV, novela. Uma coceira na omoplata direita. Coçou. A vilã vence a mocinha, assim como em todos os capítulos, com exceção do último. Uma coceira na omoplata esquerda. Coçou. Beijo apaixonado da mocinha enganada pelo vilão. De tudo já sabia, mas gostava de emendar a das seis com a das sete, durante o jornal banhava-se. Depois a das oito. Como coçam suas costas.

Acabou o comercial, deita-se no sofá. Algo por debaixo. Levanta-se. Nada. Como é engraçada a empregada. Engraçada e preta. Algo incomoda por debaixo. Pequenas pontas. Estranha. Coça. Sangue?

Não tinha a quem correr. Suas costas sangravam. Algo estranho saía dela. Esqueceu até da novela.

Mais bela

Enrolada colcha de lençol,
uma concha, uma ostra,
uma pérola.

Lá fora, a noite, da janela,
a lua alumia um gato.
Fada?

A boneca

Ela não gostava de ursinhos de pelúcia nem da cor rosa e não tinha bonecas. Gostava de rolar na terra e vivia sujinha a correr pelos arredores da casa.

Quer dizer, havia uma, somente uma boneca.

E foi assim:

Quando sua avó paterna morreu num enfarto fulminante acharam guardados no seu guarda-roupas os brinquedos que já havia começado a comprar para as crianças da família. Ainda era agosto mas talvez intuindo que lhe faltava pouco para partir adiantou as compras de Natal. Deu tempo apenas de presentear dois de seus seis netos: lá estavam duas bonecas. E uma delas era exatamente para "X". Vou chamá-la assim. 

Durante alguns meses X apenas olhava pra aquela boneca limpa, rosa, posta em sua cama como enfeite. Ninguém mexia nela, a menina de seis anos não deixava. Apenas sua mãe podia pegá-la para o ritual cotidiano de arrumar a cama da filha e colocá-la de volta ali, apoiada no travesseiro. X não tocava na boneca, apenas a olhava, um pouco de longe porque de alguma forma sentia medo. É que no dia do enterro  ela não entendeu porque jogavam terra em cima de sua avó. Como podiam fazer aquilo?, pensou. Então aos berros pediu pra que parassem, chorou, gritou e depois dos afagos maternos e paternos, acalmou. A garotinha não sabia exatamente do que se tratava a morte... Bom, isso talvez até hoje não saiba!