A propósito do descabimento

Despertei de repente, embora já estivesse acordado. Impelido por qualquer vaidade, fui ao berço de ça propriedade como um, que sou, destemido. Queria saber até onde ia minh'obra. Desafiei-me, então. Subi num palco sem qualquer roteiro e fiz tecer, indecentemente, mais uma alucinação de meu ego. Disse que assim era o trato e me pus ao labor da escultura como um artesão à altura fizesse arte do artesanato. Eu, no entanto, queria mais que um tom de cultura; queria a mágica e o encanto que surgem da folha vazia, da alma em branco. E fui. Pensei não precisar de argumento; de motivo ou inspiração. Pensei que era só por pra for o de dentro e a notícia teria sentido, o "teria" seria por si, e o sentido faria a razão. Mas caber em meu ego, como a caixa onde cabe o sapato cabe no armário, não é uma simples tarefa do intento e não basta a vontade ou os ossos pequenos, pois o espaço que falta não é gaveta ou compartimento, mas justamente esse excesso em pauta, do falar tão seguro que exalta, a propósito do descabimento. E, então, percebi que era tarde; que a tarde na história era o texto e o seu momento - e não a sacada do gênio. Pensei em apagar cada verbo, cada vírgula, palavra e até o espaçamento. Mas havia uma clausula já prevista nos astros - que os minutos gastos, era esse o investimento. E mesmo que assim apagasse, e o branco aos olhos abertos voltasse, o poema jamais voltaria no tempo.

Tempo


A demora vem socorrer o tempo já velho,
como se as linhas das mãos fossem estradas.
Qual será o tempo dos meus olhos?
Fenomenologia aplicada.
Tempo que escapa e se guarda.
Chá frio...
Cromos da aurora de meus olhos.
Sentidos que o tempo faz sentir doído.
Muros que te deixam subir bem alto.
Descobertas, desafios...Muralhas...
O tempo é como a bicicleta...
Um quase voar.

Auto-imagem e semelhança

Ele: esse labirinto concêntrico em forma de umbigo
Um buraco amigo pra chamar de seu: quarto
Onde possa imitar anúncios de cigarro
E planejar a próxima frase de efeito.

Hoje acordou olhou para a janela e, desconfiado,  se perguntou: tem alguém aí?

Evaporização

Sobre este espaço vazio tento escapar do compasso binário, do pêndulo sufocante e monótono. Pago pedágio o dia inteiro. Nas ruas, disfarço-me na frivolidade e sigo cantando. O denso cotidiano coagula meu sangue. Repouso nas paredes amareladas de nicotina do meu quarto. Com a fumaça faço ininterruptos círculos concêntricos, acho graça em vê-los se desfazer no ar. Preparo-me para o breu insondável. Fujo dos voos estéticos e sedutores das palavras bem encaixadas e sonoramente bem desenhadas. Brinco de funâmbulo entre as quase memórias das quase experiências que quase tive. Se pudesse me enterrava por aqui, escrevendo enfurecidamente, disparando palavra atrás de palavra, ora vociferando, ora fazendo gracejo, ora sem propósito algum. Cada palavra é um passo, corro sem olhar para trás. Sofro de fúria ambulatória. Ouço gente lá fora, buzinas, o caminhão do lixo, risos, fragmentos de conversa, confundo os tempos, incluo-os no ciranda. Não faço isso por necessidade, por vontade ou para me sentir feliz. Faço simplesmente para criar uma lacuna de mim mesmo. Faço para escapar do abismo cego das preocupações diárias. Neste espaço de tempo, sou os ininterruptos círculos concêntricos que se desmancham no ar, tudo que é específico evapora-se, transformam-se em paisagem. É isso. Busco a calma inerte das paisagens, não pela alegria doentia de confundir-me no coletivo, a mesma alegria que se vende nas lojas de 1,99 e sim por entender a frágil e sublime dança dos fragmentos. Pela claraboia do meu quarto percebo que já está na hora. Faço a barba, me visto e disfarço minha indiferença com um belo sorriso.

Desapego


Em dias que o peso do mundo cai sobre sua total responsabilidade,
aprenda que, o tempo é outro, mas os poetas antigos, falavam sobre nossos problemas,
vejamos, o sol é o mesmo, a lua é a mesma, estrelas mortas ainda brilham,
a vida é uma ponte, e somos deuses.

Escravos do tempo, não entendem que a velocidade aumenta os batimentos,
mas jamais, ouça, jamais, trará a paz que procura, essa paz,
se faz no cotidiano, nas escolhas diárias,
como podem se preparar pra um futuro,
esquecendo o futuro do dia de ontem,
o vento não sopra o mesmo lírio,
ele cria novos lírios.

E ainda me vêm com a ideia de que somos evoluídos...

A luz tem sombra?


LAURA SALERNO

Espanto

O menino interrompeu seu passo. A voz que ouvia não era de alguém, mas da sombra.

A sua sombra falava.

Falou de quando era jovem e pequena, de como cresceu e tornou-se sombra adulta. Contou que as sombras vivem para sempre, aparecem onde tem luz, e fazem festa onde não tem. Disse que se alimentava de poeira, e que estava cansada de tanto andar.

Jack in the box

Certa vez,
aconteceu de uma amiga
ganhar um presente 
Desses presentes de afeto
e não de nota
Desses presentes que dados na hora
são os que a gente mais gosta

Ofereceram-lhe uma balinha
E era água para sede
Aquele doce, 
naquela hora, 
naquele dia

Boneca Inflável

Ela está ali, pronta, cheia de ar desde a ponta dos cabelos até a unha do mindinho. A boca sempre pronta a oferecer prazer, batom vermelho, lábios finos sempre abertos No corpo somente o plástico claro a modelar suas curvas sinuosas, o toque especial eram as longas unhas vermelhas das mãos prontas para as carícias, mas em nada, nada mesmo jamais superariam aquela boca, pronta para amar. Assim ele a via... Sobre os olhos sombra azul celeste convidava à viagem entre nuvens de diamantes, fechando-se em nariz afinado e meio arrebitado estilo Marilyn Monroe.

Carregava o estigma da sensualidade feminina a toda prova, tinha que sê-lo, pois precisava muito de dinheiro e a profissão de artista plástico não andava nada boa, ainda mais para os populares, sem escolarização. Seus estudos eram a vida e a arte na rua, para a rua, mas precisava sobreviver e resolvera investir em sexo, coisa sem a qual nenhum caboclo, do mais simples ao mais pomposo, não vivia.

Ancestrais

Caminho por uma praia abstrata,
frequencial,
dodecafônica.
A ressaca das águas,
despeja plânctons e recalques
nos meus pés nus.

O cheiro de ancestralidade,
diante do crepom abissal,
a maresia
me derruba com a sua insolência.

A umidade relativa da água.

Chegou na minha casa às 23:37. Sei exatamente a hora porque olhei no relógio - sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria escrevendo sobre isso e me apeguei aos detalhes desde a espera até a hora que ela partiu. Abri a porta e ela entrou. Sentou-se no sofá, cruzando as pernas que saíam de dentro do vestido minúsculo, e esboçou um início de conversa: - Bela casa você tem.

- É alugada. – tive que dizer para que ela não pensasse enganosamente da minha situação financeira.

- Ainda assim é bonita. – ela concluiu.

Eu ofereci um vinho, cerveja ou água, ela rejeitou todos sumariamente, se levantou do sofá, colocou as duas mãos na minha cintura e começou com as carícias. Primeiro subindo pelo abdômen, por dentro da camisa, por todo torso até o peitoral, depois descendo, cravando as mãos por dentro das minhas calças e apertando minhas nádegas com força.

Na Chuva, Não Tem Que Se Molhar

“Belezas à parte, quero mesmo é viver.
Chuva para mim é só tempo úmido”
(Valéria)


O ambiente é opressor, sabe que diante daquelas situações o melhor é se calar. Cruza as pernas bem delineadas e continua somente apreciando o lugar. O salão oval, abobadado, termina em lindo vitral fornecido pelo príncipe regente, as paredes são mantidas com características de época, vez por outra, surge um lugar desbotado, desgastado pelo tempo.

A reunião continua, não sabe até que horas suportará companhias tão desagradáveis, políticos vencem eleições em nome do povo, governam para si próprios, acovardados diante da vida, seguem causando mais malefícios que benefícios.

Se ao menos aquela mulher parasse um pouco de falar, ajudaria. Todos na sala sabiam que nenhum tratado internacional jamais seria assinado em prol das comunidades pobres e da preservação do meio ambiente, mas faziam defesa à proposta, daria força à candidatura.

O beijo sob a chuva ácida

O barulho da chuva era tão alto que nós não conseguíamos nos ouvir, torrencialidades de desejos, eu me lembro que você disse alguma coisa sobre a gente, sobre estar juntos, mas as gotas grossas e pesadas nos separavam como abismos, eu me lembro de ter perguntado bem alto o que foi que você disse, enquanto deslizava a mão no rosto para represar aqueles aquedutos correndo, um fluxo de expressões ansiosas que eu queria esconder de você, parados os dois naquele estacionamento vazio, você se aproximou e tocou com dedos leves o meu rosto pulando corajosamente gargantas e ravinas, éramos dois homens nos tocando naquele teatro de Noé, e não havia lugar onde pudéssemos nos abrigar daquele dilúvio, mas a pergunta era: queríamos isso realmente? Talvez se a gente se escondesse daquele aguaceiro, talvez isso significasse uma ruptura do momento, talvez nós passássemos a nos ouvir melhor, e no nosso caso, compreender era perigoso, você me perguntou se eu estava a fim de me render ao clichê e juntarmos nossas bocas na chuva, beijo cinematográfico, hudsons e newmans. Eu disse que sim, que só faltava alguém com aquela plaquinha divertida de claquete pra dizer ação e então nos beijaríamos bem hollywood debaixo daquela chuva, você me respondeu qualquer coisa assim como a chuva é a nossa diretora e eu dei risada, rimos juntos, eu me aproximei de você, olhei no fundo da tua boca e beijei o cristalino dos teus olhos, estes olhos estranhos e belos, ficamos assim parados nesse nosso teatrinho de representações, você deu um passo dentro da chuva, você estendeu a mão e tocou na minha barba, a partir disso mundos cederam em alguma parte, na realidade, expostos da chuva, sem fugir da chuva eu fugia da chuva, fugia do chuvisqueiro dentro de mim, você fugia da sua garoa interna, refúgio, marquise existencial de mãos dadas, um carro passou, depois outro, deviam estranhar aqueles dois caras estatelados por atrações mútuas, os faróis iluminando aqueles dois perdidos que se encontraram, mas faltava muito pouco, a minha boca já diante da sua, o bafo de cerveja e halls se misturando, as bocas e línguas quase se enroscando entre as Águas e Incontinências do mundo, dois rios, Amazonas e Orinoco, tua boca encostou na minha, minha boca encostou na tua, descarga elétrica no diapasão dos nossos corpos, nossas línguas se enroscaram num quente, redundante, molhado e triste beijo, um carro passou nos iluminou, musiquinha dos Smiths tocando alto "and if you must go to work tomorrow"..., nossas línguas enroscadas naquele embate desmitificador de projeções, meu halls passou pra tua boca, eu me embebedei com seu hálito, e nos olhamos e ficamos parados na chuva abraçados e, sim, éramos o melhor exemplar de nossa espécie.

Dobradinha



Lua fénix:
oscilante espectadora




Isto é


Muita chuva e pouco arco-íris

Seria mais um dia de inumeráveis incoerências onde as crianças são terríveis, os homens os donos, as mulheres caladas e os velhos apêndices. Outra vez o amor seria confundido com propriedade do corpo alheio e frases concluídas pelo romântico fetichismo. Mais uma vez morreriam milhares em nome da mercancia pátria intolerante fanática do senso comum. Seguiriam as pessoas, confiando para si como verdade, as palavras de revistas que veem. Algum indivíduo voaria o mundo em primeira classe em busca de felicidade e outro alguém não daria (sequer) um passo, graças a tristeza do estômago vazio. Humanos assistiriam a dramaturgia real espetacular de um mundo em um quadrado de imagens hegemônicas. Seria até possível presenciar aqueles que desempenham seu emprego de sacrificar os desrespeitosos da ordem. Seria mais um dia desses o próximo e os próximos e os próximos...

Poesia sem poeta II

Um dia vou fazer uma poesia,
Que explique tudo,
Sei que ninguém vai entender,
Por isso mesmo farei!

Será uma poesia que não falará de amor,
Muito menos de saudade!
Não citará nem sequer a paixão!

Não será ridiculamente romântica,
Não haverá fantasias ou devaneios.
Será verdadeiramente sincera!

Filacantos

Abrem a janela do dia,
Fios de canto e poesia
Contos, prosas em fotografia...
Uma rede vai se tecendo em palavras
Um tanto de ócio, um tanto de saudade,
Um tanto de dor, um tanto de risos.

Aqui, nesse canto da rede de calor e muito mar
Faz hoje uma chuvinha preguiçosa,
Que chamam os versos em sopro
Que ardem somente a calma...

O chamavam de Gorila

Se queria comer, pegava
Se não queria, dormia
De todo modo não falava
Se escutava, não entendia

Ali parado só olhava
Se pensava, não sabia
Se queria comer, pegava
Se não queria, dormia

Aguda gravidade


Tão simples quanto
entrar no buraco de uma agulha:
um gol, uma luva,
um amor, um girassol.

Peso

Arrasto minha liberdade pelas ruas, quase como uma obrigação. Ela está atada ao meu calcanhar esquerdo, porque era a única forma que encontrei de arrastá-la com uma certa facilidade. Minhas mãos ainda estão esfoladas com seu peso e sua aspereza e não mais conseguem segurá-la por muito tempo. A noite eu deito minha cabeça sobre minha liberdade, tento fazê-la de travesseiro. O cansaço cotidiano é tanto que consigo dormir rápido, mas sempre acordo com dores no pescoço e costas, já que é tão desconfortável quanto dura. Arrasto minha liberdade com tanto orgulho, que nem percebo minhas roupas rotas e minha pele ferida enquanto sorrio para as pessoas, dizendo: "vê? Sou livre!!"

Sou livre para morrer de liberdade, porque dela, de qualquer forma, pouco consigo viver. Ainda assim, a seguro com o cuidado de um Shyloch para com sua bolsa de moedas. Tudo o que tenho é essa liberdade, que é minha e só minha. Liberdade que conquistei como se conquista um troféu valioso, uma medalha brilhante, uma mulher difícil.

Simples Enganos

Quando imbuído de insegurança
Externamente travestida de orgulho
Tomado torna-se o pobrezinho
Em terra delira quixotescamente

Mãos, pernas e costas apoiadas
Salvação em escombros a boiar
Burla em si mesmo a legalidade
Fragilidade ancorada noutros mares

Da metafísica e outras medidas

a distancia entre a idéia
e o impulso
será a mesma
que a que há entre o impulso
e o que segue?

Dos motivos, das causas
quem sabe ao certo
do certo a medida
entre os possíveis e os prováveis?

Coisas de gente preconceituosa...


A língua dilacera a alma 
Engana o homem
Dá prazer e vertigem
Apodrece,
Quando consome
A língua mora na boca
Que come
E que será comida 
Os vermes devoram 
O homem e a língua
E evacuam a intolerância infame
de toda uma vida perdida...

Ao extremo

Eles fazem da noite o terror dos que se mostram. E andam juntos, por ruas claras e escuras, procurando por quem se atreve a ser. Em seus rostos, a multiplicidade étnica dos brasileiros. Mas preferem narizes importados e a “pureza” de ideias que julgam próprias.

Vítimas do machismo, trancafiam seus desejos no imundo cárcere de corpos mal amados e dedicam-se a combater a liberdade dos afetos.

Ignoram as cores, as origens e os ritmos de seus ascendentes, enquanto marcham, com tênis made in, sobre o solo de um país inexistente. A terra sul-caucasiana de um delírio fora do mapa.

Não lhes falta coragem, nem ideais, nem energia. Não lhes falta estudo, nem dinheiro e nem advogados. Só lhes falta um espelho ou, quem sabe, alguma tintura capaz de mudar a cor do próprio sangue.

Ideologia

Ontem, na solidão dada pelo descaso assistia TV, novela. Uma coceira na omoplata direita. Coçou. A vilã vence a mocinha, assim como em todos os capítulos, com exceção do último. Uma coceira na omoplata esquerda. Coçou. Beijo apaixonado da mocinha enganada pelo vilão. De tudo já sabia, mas gostava de emendar a das seis com a das sete, durante o jornal banhava-se. Depois a das oito. Como coçam suas costas.

Acabou o comercial, deita-se no sofá. Algo por debaixo. Levanta-se. Nada. Como é engraçada a empregada. Engraçada e preta. Algo incomoda por debaixo. Pequenas pontas. Estranha. Coça. Sangue?

Não tinha a quem correr. Suas costas sangravam. Algo estranho saía dela. Esqueceu até da novela.

Mais bela

Enrolada colcha de lençol,
uma concha, uma ostra,
uma pérola.

Lá fora, a noite, da janela,
a lua alumia um gato.
Fada?

A boneca

Ela não gostava de ursinhos de pelúcia nem da cor rosa e não tinha bonecas. Gostava de rolar na terra e vivia sujinha a correr pelos arredores da casa.

Quer dizer, havia uma, somente uma boneca.

E foi assim:

Quando sua avó paterna morreu num enfarto fulminante acharam guardados no seu guarda-roupas os brinquedos que já havia começado a comprar para as crianças da família. Ainda era agosto mas talvez intuindo que lhe faltava pouco para partir adiantou as compras de Natal. Deu tempo apenas de presentear dois de seus seis netos: lá estavam duas bonecas. E uma delas era exatamente para "X". Vou chamá-la assim. 

Durante alguns meses X apenas olhava pra aquela boneca limpa, rosa, posta em sua cama como enfeite. Ninguém mexia nela, a menina de seis anos não deixava. Apenas sua mãe podia pegá-la para o ritual cotidiano de arrumar a cama da filha e colocá-la de volta ali, apoiada no travesseiro. X não tocava na boneca, apenas a olhava, um pouco de longe porque de alguma forma sentia medo. É que no dia do enterro  ela não entendeu porque jogavam terra em cima de sua avó. Como podiam fazer aquilo?, pensou. Então aos berros pediu pra que parassem, chorou, gritou e depois dos afagos maternos e paternos, acalmou. A garotinha não sabia exatamente do que se tratava a morte... Bom, isso talvez até hoje não saiba!

Medidas da dor

Quando menina ela tinha uma aparência assim de quem sempre acabara de errar. Já ele, ah, ele era mesmo um pai: tinha uma aparência de visão passada, se olhava para ele e parecia que se estava vislumbrando a melhor lembrança. E qualquer coisa que ela-menina dissesse ou que fizesse, fazia-o olhar para ela sério e em silêncio - como quem dá ao que foi dito uma importância incrível - e logo depois sorrir como quem compreende. Quando ela passava por ele no ritmo instável de sua idade indecisa, ele afagava a sua cabeça e dava um puxãozinho nas suas tranças, leve como uma brisa. Olhar para ele era como ter certeza de que existe no mundo uma verdade.

Mas aquele não era seu pai. O corpo morto velado sob lágrimas e sussurros era de um pobre homem que não fazia entrever lembranças nem tinha aquela serenidade de ser como tinha ele e como têm os passarinhos. Mas era curioso um corpo morto.

Déjà vu

O tempo levou-me ao lugar vazio
E trouxe-me memórias,
 Pessoas...
       Coisas...
Tristezas que sempre adio...
                                                        
Cenários que nunca esqueço,
Sensações...
          amores...
                apreços...


Numa viagem tão livre...
Horas essas, desapareço.

Lembrança


Te vejo aqui dentro,
quando faço a próxima jogada,
de vida e movimento.

O casebre

As azaleias eram suas preferidas, tinham algo de melancólico, mas também a delicadeza as rodeava.

- Flores fortes! Dizia. Não se envergonham no frio. Conseguem dar um colorido enquanto as outras dormem.

Essa admiração veio da infância, daquele casebre no meio do nada onde sua avó vivia. Lembrava do cheiro das tardes frias que sentava ao lado da avó para se despedirem do sol, devorando um bom pedaço de queijo curado com gosto de Minas Gerais e um copo de café quentinho, o seu tinha uma gota de leite e o da vó era preto, forte.

Para não esquecer, ou, quarenta e oito azaleias.

Há um ano, todos os domingos, desde que a doença o derrubou definitivamente, a moça ia ao cemitério e repetia o ritual. Depositava sobre o túmulo um vaso de azaleias, a preferida de ambos, e começava a lhe contar as novidades do jornal de domingo. Lia as notícias, uma por uma, sem nenhuma pressa porque sabia que o pai tinha dificuldades de ouvir. Pulava o caderno das novelas e dava atenção especial ao de esportes. Depois, cantava baixinho, e muito afinada, O Sol Nascerá, de Cartola e lembrava-se das tantas vezes que a música lhe despertara em suas manhãs de infância. Por fim, colocava ao lado do vaso de flores o novo desenho que o neto lhe havia feito. Achava melhor explicar, porque as garatujas eram um pouco incompreensíveis. E lá estava, em traços tortos e bolotas de giz de cera, o vovô jogando bola com as crianças, sobre as nuvens, e todos felizes com a camisa do Santos. Então, em silêncio se despedia. Sem nenhum peso porque fazia isso, simplesmente, para não esquecer.

Saudade

Eu to zen, meu bem...
Eu to lero lero
Numa palavra, cem.
Ter quem eu quero...

n'algum espaço

Saudade é bicho sem razão. Escapa em pontadas líquidas, fluxo sem hora marcada. Em silêncio tão profundo que grita até estourar os vidros dos quartos, dos carros, da cidade. Embaça o olhar pela força do ar que tem, e é. Paradoxo sanguíneo, essa tua (ir)real presença ausente, que chega de surpresa e engole o tempo que há.
 

De visita em flor

"E se você se lembrar daquele nosso namoro"

Me admirei quando um beija-flor bateu na porta da casa em que me encontrava
Dizendo que não poderia ficar por muitos minutos, que naquela noite não poderia ser
Pedi que ficasse mais um pouco, pedi também sua mão para sambar
Ele, por sua vez, sambou, beijou a flor e partiu.
Deixou felicidade, poesia e perfume.
Ai que saudade!

25.09.2011
LAURA SALERNO

O Beija-flor

Como se não bastasse
O Beija-flor por horas parado
Buscando  avistar um bosque...
Um qualquer que fosse...
Qualquer planta,
Qualquer vaso...
De tão quieto o pobre,
Já nem parecia pássaro.
Vivendo num mundo torpe
Onde todas as flores são de plástico.

O juízo e a Jactância

Dois são os animais que me intrigam,
O cachorro porque tem dentes,
E o periquito porque não os tem.
Do que se deve concluir que dúbia é também a minha maneira do interesse.

Onde há o belo, faço gozar contemplando-o,
Onde não há, gozo...


...imaginando o seu paradeiro.