As vezes paro.
As canetas param.
O teclado para.
A cabeça não.
Me deparo,
Me debato,
Tento em vão me sossegar.
Disfarço.
Gol de Placa
Gosto de brincar nesse mundo
driblar o medo, presentear a vida
marcar um gol de placa todo dia
quanta beleza num drible sem bola
como o poeta quando escreve sem palavras
há uma beleza ainda maior
quando se desafia a estupidez
com alguma graça
quando se dribla a maldade
dribla-se a solidão com a amizade
são atributos do jogador
o dom de saber iludir
e o de despertar amor em toda parte
driblar o medo, presentear a vida
marcar um gol de placa todo dia
quanta beleza num drible sem bola
como o poeta quando escreve sem palavras
há uma beleza ainda maior
quando se desafia a estupidez
com alguma graça
quando se dribla a maldade
dribla-se a solidão com a amizade
são atributos do jogador
o dom de saber iludir
e o de despertar amor em toda parte
Drible de Categoria
Não gosto de futebol
Visto, pensam não ser eu brasileira
Brasil Pais do futebol!
Mas, nem tudo é perfeito
E uso regras deste esporte
Cotidianamente...
Driblo a burrice.
Diz o poeta “a burrice é invencível”
Clareza inigualável!
Por que me ponho a driblar então?
Porque não consigo exterminá-la.
Quanta energia gasta...
Quanta tristeza na face...
Quantos aborrecimentos vis...
Burrice. Melhor então aderir a ti?
Nesta hora percebo:
Algumas coisas são irreversíveis.
Visto, pensam não ser eu brasileira
Brasil Pais do futebol!
Mas, nem tudo é perfeito
E uso regras deste esporte
Cotidianamente...
Driblo a burrice.
Diz o poeta “a burrice é invencível”
Clareza inigualável!
Por que me ponho a driblar então?
Porque não consigo exterminá-la.
Quanta energia gasta...
Quanta tristeza na face...
Quantos aborrecimentos vis...
Burrice. Melhor então aderir a ti?
Nesta hora percebo:
Algumas coisas são irreversíveis.
Leda e o cisne
Da banca do homem mal
à beleza da fêmea fatal.
à beleza da fêmea fatal.
Quando a natureza (sábia?)
é infinitamente mais letal.
Engendraram-se uns nos outros,
engrenados.
engrenados.
Não sendo Yeats como gostaria, ele é ao menos honesto
Tenho eu outra coisa, a bordar nos céus, que nuvens
densa camada de não sei que substância hostil
desencanto, amargura e essa aspereza crassa
não os semitons, nuances ou a meia luz sutil
Espalharia sob seus pés amor algum se acaso tivesse
Mas eu, sendo de espirito pobre, tenho apenas rancor
Eu espalhei rancor sob os seus pés
Caminhe delicadamente ou afunde - como queira.
densa camada de não sei que substância hostil
desencanto, amargura e essa aspereza crassa
não os semitons, nuances ou a meia luz sutil
Espalharia sob seus pés amor algum se acaso tivesse
Mas eu, sendo de espirito pobre, tenho apenas rancor
Eu espalhei rancor sob os seus pés
Caminhe delicadamente ou afunde - como queira.
E passa
Esgarça-se no espaço.
Materializa-se como rastro em qualquer direção.
É vulto.
Voa.
Treme.
Fura.
Invade.
Arrasta.
Faz.
E passa.
Materializa-se como rastro em qualquer direção.
É vulto.
Voa.
Treme.
Fura.
Invade.
Arrasta.
Faz.
E passa.
Corro pois não gostei das asas
Ando para não possuir o mundo,
Ando pra não deixar possuir,
Ando para não parar e perceber que canso,
Perceber a dor, perceber arder.
Ando pois cada passo é um esquecer,
Ou um lembrar do que há de vir,
Ando como quem corre para um não sei onde,
Como quem corre para nunca chegar,
Como quem anda por estar perto,
E quando corro deixo.
Deixo viver, deixo correr.
Ando pra não deixar possuir,
Ando para não parar e perceber que canso,
Perceber a dor, perceber arder.
Ando pois cada passo é um esquecer,
Ou um lembrar do que há de vir,
Ando como quem corre para um não sei onde,
Como quem corre para nunca chegar,
Como quem anda por estar perto,
E quando corro deixo.
Deixo viver, deixo correr.
Sawubonas'Breu
Enriquecido
de meu próprio corpo
desfilo convicto
Fabricado seja amor
ou estupro
mesmo in vitro
A máscara e eu
E por alguns dias levo minha(s) máscara(s) pra passear! Posso fingir, assim...tranquilamente!
A boca encarnada, os olhos borrados.
- Lágrimas?
- Chuva.
E posso aguachover, misturada com quem ali estiver: cúmplices inebriados do que está aqui dentro, do que está ali dentro.
A máscara e eu!
Nós duas podemos, em meio aos confetes, doer... languidamente!
A boca encarnada, os olhos borrados.
- Lágrimas?
- Chuva.
E posso aguachover, misturada com quem ali estiver: cúmplices inebriados do que está aqui dentro, do que está ali dentro.
A máscara e eu!
Nós duas podemos, em meio aos confetes, doer... languidamente!
o "sentido do carnaval" é anterior ao seu, mas poderia ser posterior
eu te levaria pela mão e ia te mostrar que esse negócio que dizem que já morreu (o sentido do carnaval) tá por aí. imagino que se você acreditasse no carnaval seria mais simples olhar pra você sem sorrir, andar de cavalinho, beijar sua nuca, correr dando risada, pular em cima da cama, te mostrar as batidas do meu coração. é difícil convencer alguém oferecendo tão pouco, eu sei. pra você acreditar no carnaval, teria que acreditar que as coisas não têm um sentido único. teria que achar que nada é mais bonito que um espasmo. você teria que querer esquecer que tipo de sujeito acredita que é. você teria que conhecer e amar a inutilidade de uma ação. as inutilidades são fundamentais, ou não são? se você aceitasse o carnaval, a gente poderia fazer o que temos evitado por pura falta de lógica. se você amasse o carnaval como eu, colocaria sua cabeça no meu colo e beijaria minha barriga só pra ouvir o estalo. riríamos juntos de nada especial. não seríamos mais irônicos publicamente e talvez fôssemos mais felizes. se você quisesse, teríamos todas as terças e quartas, quintas, sextas-feiras e dias que quiséssemos pra tentar
Imagina, imagina
Farras e fitas e eu quero morrer
assim no seu colo e tantas e tintas e você é tão bonita assim quando gira em tambores
e pandeiros e eu sou tão bonito assim quando tudo gira em guizos e gozos e entra
na roda morena pra ver repentes serpentinas serpenteia e me beija e me pega em brilhos
e bolhas e pulhas mas você tem tudo tem graça “imagina imagina hoje à noite a
gente se perder” em saltos sandálias plumas fitas feitos cores claras cintilâncias
imagina imagina...
Caravana
E a vida vai puxando o carro,
água eletricidade aminoácidos.
Carnaval!
Auto da barca do inferno,
ou a procissão dos deuses.
De Teogonia ao Candomblé.
UMA FATIA: FILACANTOS
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi
um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão...” (Drummond)
Esgueirar-me por suas entrâncias e reentrâncias dilaceradas
Colher um pouco do néctar intenso ora aqui ora acolá
Para explodir em arbusto híbrido sobre o solo árido
Aconchegar-me a quem ali adormece calmamente, na vigília
Ouvir os sussurros de quem geme na brisa noturna
Cambalear no tiro disparado sem direção e sem alvo uno
Deixar livros, amigos, riquezas, vergonhas...dançar velado
Nem dêem por suas mudanças simples, certas e fáceis
Brincar de querer ser aquilo que a gente não é, quem sabe...ir além.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão...” (Drummond)
Gosto de deslizar entre as raízes entrelaçadas, enamoradas
............................filacantos..............................Esgueirar-me por suas entrâncias e reentrâncias dilaceradas
Colher um pouco do néctar intenso ora aqui ora acolá
Para explodir em arbusto híbrido sobre o solo árido
Gosto de sentir o pulsar do corpo no movimento circular,
...........................sinuoso....................................
Do silêncio recôndito, a deglutir vidas em ceifa atemporal Aconchegar-me a quem ali adormece calmamente, na vigília
Ouvir os sussurros de quem geme na brisa noturna
Gosto de saciar a sede nos pequenos veios venosos,
.............................embriaguez.......................................Cambalear no tiro disparado sem direção e sem alvo uno
Deixar livros, amigos, riquezas, vergonhas...dançar velado
Deixar que minha face triste, magra e que meus olhos
.................................vazios................................................Nem dêem por suas mudanças simples, certas e fáceis
Brincar de querer ser aquilo que a gente não é, quem sabe...ir além.
O deserto e a deriva
relação de amor
em cima da linha
melódica.
outro estranho,
céu e terra,
rosto amigo.
Imensidão
inóspita
Palhaça inversa
Não me pintei
de palhaço.
Me pintei de
nuvem, fantasia, drama e tatuagem.
Mas nunca de
palhaço.
Me pintei de
mocinha, fantasminha, borralheira sem carruagem.
Me pintei de
puta, homem, cigana, marginal.
Mas nunca de
palhaça.
Me pintaram.
Palhaçada Moderna
Pintei meu rosto de branco
Preenchi toda a face num tom
Sobre as bochechas abri um grande riso
Abraçando também a boca
Do olho desci uma lágrima prateada
Olhar a vida sob o prisma
Da alegria...
Na modernidade...
Só se for com cara e boca
De palhaço
Pingando na pedra
Poros cálidos dia
Pele úmida noite
O choro gozo asfixia
Contato veneno matilha
Sorte
Enfrentamento
Enfrentamento
Incrustação
Delicada análise
Ceifa corte
Lápide
Rápida decisão
Executor
freqüência
Lapidante
Diamante
Diamante
Dinamite
Máquina
Máquina
A marcha dos sentidos sobre terra árida e indiferença
Avante olhos incorruptíveis
hirtos e de franca estreiteza
Avante contra toda essa corrente-luz
Matéria refletida e percepção coesa
Silêncio imperioso a que se reduz
o inadvertido ouvido
pai da mais viril clareza
hirtos e de franca estreiteza
Avante contra toda essa corrente-luz
Matéria refletida e percepção coesa
Silêncio imperioso a que se reduz
o inadvertido ouvido
pai da mais viril clareza
Esquecimento amarelo
Choviam flores amarelas
E por segundos esqueci quem era
Assim, como em tardes de primavera
E se tudo fossem flores, quimera.
O homem sentado logo adiante
Em viagens alucinantes
Do seu cachimbo brilhante
Esqueceu tudo por instantes
O Fantasma no Espelho
"Os olhos são espelhos d'alma"
E alma lá precisa de espelho pra se enxergar?
O espelho reflete o fantasma, aquele, soturno vindo pelo
corredor escuro
Envolto na fumaça pinçada da ilusão cotidiana do viver
Fantasma que vivo, perambula por cômodos vazios a impregnar
ambientes
Sim, o espelho reflete o fantasma-homem e sorri dele
Que ingenuamente cava suas covas dia após outro
Ah fantasma! Recolhe tuas vestes rotas, outrora tecidas por
mãos habilidosas
Apanha tua botina velha a carregar resquícios do lamaçal
E marca o céu azul anil com teus passos febris rumo à
imensidão
Corri na direção contrária
Corri na direção contrária
Mas mesmo essa
Acabava em poças feitas de seus restos
Em meus olhos
E em teus olhos - cor de café
Me via nua e à espera
Do que disse que não quereria
Eles fixos, balbuciam teu nome
Me descolando de mim.
E, correndo pra se fazer gesto
Mas mesmo essa
Acabava em poças feitas de seus restos
Em meus olhos
E em teus olhos - cor de café
Me via nua e à espera
Do que disse que não quereria
Eles fixos, balbuciam teu nome
Me descolando de mim.
E, correndo pra se fazer gesto
Perdem-se em sua sobra de vista
Mais uma vez
E esses olhos - Ah esses olhos
Tornaram-se íntimos de minh'alma
Mais uma vez
E esses olhos - Ah esses olhos
Tornaram-se íntimos de minh'alma
Na nau
Lá vem. E outra vez. Foi onda que fez o nível baixar subir baixar do mar. Nessa embarcação, o peso do cobre não é perigo: não existe. Os temperos humildes que recobrem nosso casco perfumam os espaços nas dispensas, nos bolsos, no vento. E tem mais gente a estibordo, que peso trazem elas? Trazem promessas, juventudes, solidões.
Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.
Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.
Sobre o que sinto; e não dos sentidos que tem
Poderia falar-te mil coisas sobre os sentidos, mas nenhum sentido teria se eu não dissesse em palavras. Poderia calar infinitamente num gosto, aroma ou numa visão repentina de um mundo em que só se ouve em cores. Mas e daí se o fizesse? Quem teria em mente a medida do encanto da melodia de um passáro se não nos tivessem comunicado antes o sentido bucólico daqueles sutis elementos? Eu não sei. Tu Falas em sentidos como se visse neles uma porta aberta ao mundo; como se o mundo fosse, de fato, algo externo a ti. Eu, no entanto, não consigo jamais entender que cor seria o vermelho se antes essa palavra tão pulcra, manchada em três sílabas que têm em si um próprio sentido em ocorrências afora, não me tivesse representado do sangue a imagem perene de seu conteúdo. Para ver-me, basta que tu me fales, como para mim basta ver-te e dizer-lhe que vi. Não que eu precise, de fato, tocar-te com a minha retina, pois não preciso que seja com olhos - esses tão cegos da parede adiante (como tudo mais nesse corpo que anda e balança) - basta apenas que diga ou que ouça; que escreva, que leia ou rabisque em uma nota de supermercado. E quem há de negar que os tomates tenham tanta vida numa lista de compras quanto num pomar recém semeado? Talvez tu me aches satírico demais pra te ser companhia digna, já que espero tão pouco dos momentos silenciosos. Talvez me aches indigno de qualquer amor espontâneo, por ter eu dado às palavras o peso colossal como o daquela estátua em Rodes, que apesar de nunca ter sido vista por olhos de homens vivos, ainda assim, é possível vê-la com sumpto e magnificência em histórias antigas e novas. Mas entendo que tu mesmo não se dê tanto a essas visões. Não te culpo por olhares tanto pra frente, mesmo quando sabes que lá é que espreita o teu fim. Mas também não direi que te admiro a coragem. Porque não admiro. Sei que existe infinitamente mais sabedoria em olhos fechados que aquela estúpida certeza de que o concreto a tua frente pede o martelo e não tinta preta e pincel. E se tivermos que dar mérito aos sentidos, será menos pelo que encerram em si de absoluta contingência, que pelos adornos supérfluos ou impróprios com que subtraímos eles às palavras. Se o mundo que, com efeito, nos toca é mesmo um mundo de luz e som e matéria, então, mais belas ainda deverão ser estas que dizem sem sombrea-lo - o mundo - senão na memória arcaica que o homem tão ingenuamente aprisinou. E se tu me perdeste na fração diminuta entre um piscar de olhos e a passagem de um vulto, é porque, pobre de ti, tão bem te valem os olhos e a pele e os ouvidos pr'aquelas simples operações do espírito como é o "ver" e o "sentir". Já eu, devo dizer-te, jamais te perderei de vista enquanto tiver - como estas - tantas e tão interessadas palavras alçadas à dentro, como se a porta aberta fosse, ao contrário, um poço profundo e o escuro tão repleto de nuances quanto qualquer primavera. Pois existem mais camadas entre o branco do papel e o preto da tinta do que julgam afetados uns furtivos e ingênuos impressionistas.
Cores
Caminho sobre cores
.... variadas cores
.... calorosas cores
Que escorrem ao toque de meus pés
Deslizam pelo desfiladeiro
Novos mosaicos ao relento
Novas composições ao acaso
Suado
Molhados de suor
terminam.
Apressados começaram.
Ela calcula cada movimento
Ele sufoca cada gemido.
O suor
O grito abafado.
Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir.
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.
Os olhos tristes, perdidos.
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.
Molhados de suor terminam.
O gemido.
Sufocado.
Apressados começaram.
Ela calcula cada movimento
Ele sufoca cada gemido.
O suor
O grito abafado.
Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir.
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.
Os olhos tristes, perdidos.
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.
Molhados de suor terminam.
O gemido.
Sufocado.
Certezas, somente quando...
Só quando tiveres olhos de infinito...
Verás como são ínfimas, as certezas que dizes ter
Caberás no vácuo, e mesmo assim te acharás
Teus redemoinhos, tuas obras-primas e teus juízos
Tudo isso será teu e de todo o mundo
Mas somente quando tiveres paisagem de infinito...
Porque os abismos têm fundo
E as estradas, essas que tu dizes querer
Se desdobram para passar em tua esquina
Teu guarda-chuva, se fecha só para a chuva te molhar
Mas tudo isso, só quando tiveres flores em teu jardim
infinito
Porque teu sal precisa ter gosto de mar
E o teu saber e o teu sentir,
São tuas entranhas, tua pele, o teu suor.
Anamorfose
Havia ela escrito esse texto; um texto tão particular que cada um que
lia tinha impressão de tratar-se de história totalmente distinta daquela que
lhe havia contado o amigo, tendo lido o texto alguns dias antes. Mas não era no
tempo que a diferença se estabelecia e senão no espaço. Duas pessoas que lessem
o texto ao mesmo tempo, de pontos diversos no espaço, teriam razão de uma outra
novela; ou de um poema; quem sabe, ainda, de uma nota de rodapé; poderia ser
que lessem as duas uma mesma coluna jornalística e que, no entanto, cada notícia
relatasse o mesmo acontecido numa cidade inteiramente outra. Seria, então, por haverem
lido aquelas palavras que chegariam a conclusão de sua própria existência no
mundo, uma vez que lendo distintas imagens diante de um mesmo pedaço de papel
preso a uma parede, seriam, assim, depoentes da divergência essencial em que se
estabelecia aquela experiência. Sentiriam como se estivessem também sendo lidos
quando julgassem, por sua posição no espaço, colocarem-se as vistas de um
observador atencioso, que enxergava, para cada visada e em cada lugar, uma
história particular.
Era uma vez um dia de chuva
Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.
Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.
Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.
Sobre ou sob um pedaço roubado de mim ou de você
Como pode uma certeza se esvair como incerteza?
De modo ingênuo e duradouro perco-me nos vãos que se instalam de nada entre nós.
Vãos espaços.
Vãos espasmos.
Vão.
Vão de ir, mais de um.
Vão de partir um sem outro, um em dois.
Ele foi e consigo levou parte: nem todo nem nada: parte de mim.
Um pedaço que não se encontra mais.
Arrancou, levou sem pedir.
Roubou-me.
Roubou-me de mim.
E agora quando o vejo - Ele - não o vejo mais: só procuro o que me foi roubado e nem sei mais, se ele é dono desse pedaço de pecado que tiraram de mim.
Ou se fiquei, em pedaços perdida, no ar.
Não sei se sou, se tenho, se sinto.
Só sei que vou, como ele foi e permissiva estou.
Dei-me carta de alforria: alforria da dor da ausência e do tempo mastigado e dificilmente digerido todos os dias pela falta.
Fui e quando vi era pro outro lado.
Fui como ele, mas algum pedaço desse um dividido em dois decidiu habitar o não-lado do outro.
Amor-maldito, incerteza-tenra, dor-passiva, cor-massiva, pensamento-desalento.
Careço. Padeço. Suplico:
- Me habite em seus olhos para então habitar-me.
Rogaine, Viagra, Olestra
Roberto fez 30 anos semana passada. Sem muito que fazer,
chamou os colegas de trabalho pra um happy-hour na sexta. Não tinha mais sua
família por perto para comemorar. Seus pais moravam longe, e o seu
relacionamento com eles nunca foi dos melhores. Eu sou os cabelos caídos de Roberto
Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.
Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.
Assaltantes Anônimos
"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer
sociedade, é um homem sem nada a perder."
Malcolm X
Malcolm X
Isso é um assalto! Anunciou confiante. Passa tudo! Vamo, vamo, vamo logo senão leva chumbo agora! A mão firme. O rosto escondido. O corpo protegido pelas vestes. O corpo fechado pelo terreiro. Tá olhano o quê? Qué morre cara, cê tá quereno morre? As chave! A bolsa da madame também! Passa, passa, passa logo cara. Chico, pega tudo aqui, vamo logo, corre qui os home tá chegano. Apressadamente saem da lanchonete dos Jardins. Droga! Essa moto falha quando mais precisa! Duas, três, quatro fortes pisadas no pedal, ela arranca, Chico na garupa. O cachorro louco [1] rasga a cidade.
Ausente à dor
A dor, se não era quase
Era nada
Um nada de prazer
Um nada de vazio incompreensível
Porque se afastara dela assim,
Como se não reconhecesse suas mãos e pernas
Mas iria voltar,
Iria morrer esta
E renascer a outra
Outra, que era ela...
Quase...
Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.
A caixa laranja do arco-íris dourado
Selenita realiza, assim como centenas de milhares de mulheres, uma dupla jornada de trabalho. É secretária de um advogado falido no centro da cidade. Dr. Miguel. E, além disso, ao chegar em sua casa, passa roupa, lava copo, estende roupa e pinta o cabelo. Vinte e quatro horas multiplicadas por três ao cubo. É essa a impressão que se tem observando essa dona
Selenita é uma alavanca, daquelas que aprendemos em física, mais precisamente em mecânica. É só fazer a associação. Não olha nem para os próprios pés. Levanta-se às sete da manhã, sempre com o pé direito, pois isso já a direciona para o guarda-roupa, de onde recolhe sua calça preta de veludo e uma camisa branca amarelada, assim como todas as outras que ainda tem. Depois escova os dentes. Toma café. Escova de novo os dentes e faz uma trança no cabelo (dá mais credibilidade, um dia lhe disseram).
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