Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.

O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Nem uma nuvem ao longe anunciava a vinda de uma gota sequer. Passara já por um bezerro todo feito de costelas que o fez salivar. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.

Declaração de inocência

No banco dos réus, o cérebro permanecia calado, astuto, certamente maquinando sua própria defesa, enquanto do outro lado, uma promotoria sem papas despejava verbos e verbos contra aquele pobre músculo, cujo uso - assim a língua dizia - enrijecia a alma e desprendia o corpo de sua mais fresca humanidade.

Pelo banco das testemunhas passaram fígado e rins, estômago, olhos, apêndice (este, refutado pela defesa na simples confirmação de sua franca inutilidade), mãos e genitália. Subia, agora, a voz que mais se esperava e fez-se silêncio no recinto quando, chamado ao juramento, o coração se apresentou. A língua amaciou seu tom, que antes vociferava sem calculo ou pudor, e fez do drama, que agora se inclinava diante do júri como uma orquestra silenciosa, o cenário ideal para esse depoimento. Falou o coração. Repetiu-se algumas vezes numa oratória que dizia não apenas criminoso o cérebro, veículo marginal de uma tão seca premissa, mas condenou com ainda mais veemência sua protetora, progenitora e religião. Disse, dentre outros adjetivos cujas descrições não serão aqui alarmadas, da razão: intolerante, abusiva, autoritária, insensível e frígida. Esse último, repetiu-o sete ou oito vezes, e desandou um lamento que comoveu até mesmo os ouvidos, que tentavam até ali se por na imparcialidade de orgãos sem filiação.

Na quadra.

tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum

E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...

Primeira de Mangueira

O sambista: gari, bacharel, manobrista.
Pai de Santo, pau de arara. Autista:
O sambista está dormindo,
Mas não tarda em acordar.

Alvorada, o dia, à tarde, à noite,
a madrugada toda, raposas e gatos,
macacos e ratos fuxicam,
fornicam e fuçam, e roncam.

Estação

Perdi o ultimo vagão para a estação triste
Caminhei nos trilhos como se fosse feliz
Aprendi que as pernas seguem os pés
Em qualquer trilho que se sabe aonde quer
Passeio de pedra em pedra
Uma no bolso
Outras para trás

Minha música muda

E naqueles olhos eu morri.
Calei minha voz aguda.
Perdi!

A luz, o palco e o movimento

Há uma lebre morta embaixo da primeira cartola.

Há uma lebre morta embaixo da segunda cartola.

Há uma lebre morta embaixo da terceira cartola.

Embaixo da quarta cartola, há uma lebre morta.

Há uma lebre morta, também, embaixo da quinta cartola.

Há uma lebre embaixo da sexta cartola: morta.

Há, morta, embaixo da sétima cartola, uma lebre.

Há, enfim, lebres mortas embaixo de uma oitava e nona cartolas.

Eis que o mágico, então, uma cartola levanta – a décima.

Obscura luz

O jardim da noite cidades em chamas,
enxames de abelhas de luzes elétricas.
Mas damas e rainhas ainda perfumam o ar.

As sombras estão cheias
de cores, pulsos e sangue.
O silêncio que ouço no barulho,
e o seu contrário multidão.

Parabólicas Bucólicas

“Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
 Traz do sonho pro mundo quem já não o queria
 Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia” (Paralamas do Sucesso)

Na cidade estendida qual rede a quarar
O corpo desfalece clamando por água e sal
No ar circularidades de ondas a invadir
Ouvidos e corpo inerte
Que valem as ondas invisíveis a nos vigiar?
Que valem as ondas levando e trazendo
Notícias de um mundo fantasia?

do que somos

Meu amor
Quando você fez em mim espaços de aterrissagem
Cheio de promessas de flores, frutos e vôos
Não olhou pra terra nos meus pés

Toda sorte de presentes
Todo gosto por partilhar
Me fazem desembocar no mar
Fluindo leve
Feliz pleno até do perfume
Mas olha: não vou sozinho
E muitos deles, não sabem nadar

Fragmentado

Há dias na estrada. Não me acostumo com a distância. Não essa. Horas a fio tecendo com o olhar uma geografia longínqua e estia, quiçá até íntima, já nem sei, agora que até meu corpo parece às avessas, sem lugar, se confundindo a tudo que me é solidão. Tudo que me é memória. Um indício ralo deixado lá atrás, a quilômetros de distância daqui, esse ínterim roçando cada pedaço de chão a que aporto. Agora mesmo levo o cigarro à boca com os olhos lá fora no estacionamento, tão longe que me perco em mim mesma, a poeira cobrindo o capô do carro e tudo a volta. E Deus parece a milhas distante daqui, faz vista grossa a nós duas, vê?, talvez nem ouça Dylan baixinho no rádio como eu o faço, com o cigarro na boca e lembrando que dias antes de apagar cada prova de minha antiga vida e bater a porta e dar com o dia me pesando sobre o dorso feito dúvida, dias antes eu me decidira por você. Sobretudo me decidi por você, deitada rente ao sono. Ainda levo os sentimentos nos poros, junto aos grãos de areia, em cada ranhura de minha pele, no talho sob as gazes feito guardados de memória. Talvez não me livre disso, logo vira cicatriz e a leve comigo, atada aos pulsos. Trago o cigarro com ânsia, certa gana nesse corpo cavo, ausente. Não durmo. Fecho os olhos. Sob as pálpebras fantasmas se esgueiram no breu, meio da noite ainda, feito os pesadelos de quando criança, quando a madrugada salivava suas sombras no teto e eu temia me debruçar sobre o sono para não mais acordar. E então não dormia, feito agora, insone, e tecia minhas fugas horas a fio. Até crescer, descobrir o corpo, um dique que não se rompia nunca, mesmo que eu quisesse, ainda que me esvaísse pelos pulsos, não se rompia nunca...

Semente

Tenho sede do mundo,
Como se o mundo me tomasse em arrastão
Tenho fome de carnavais lunares,
De rasos profundos
Como se eu fosse inteira cometa,
Como se as vozes fossem trombetas
Anunciando as marés e luas cheias

Tenho um mundo explodindo nos poros
A sair pelas narinas
Chamado pela luz do sol, pelas gotas de chuva
Pelo suor da minha dança,
Que prepara um rito,
Para o arrastão passar

Liberdade embalada

Olhou para a porta, pensou em como seria bom poder sair dali e pelo menos um dia (depois de tantos) ver o sol partir. Mas lembrou da nova máquina de ponto que instalaram há algumas semanas e olhou para os dedos, ainda faltavam duas horas. Portanto, se ausentar não podia.

O despertador era programado para todos os dias tocar no mesmo horário, pensou em desliga-lo, mas isso seria descontado no final do mês. Acordou, como de praxe, as 5:30 da manhã.

Pensou em dizer o que pensava, mas seria chamada de insolente pelo cliente e isso lhe custaria bem caro. Calou-se.

Embalo da Liberdade

Experimente
Sair de cena
      Ausente-se!


Experimente
Chegar mais tarde
           Desligue-se!


Experimente
Dizer o que pensa
          Distraia-se!


Experimente
O silencio...


Experimente
Ser bem livre
Isso, mais do que experimente!


Pra ver se é
Bem isso mesmo...
Que te embala
Livremente...

Memória

Certa vez, em alguma esquina da vida, encontrei um garotinha, linda, seus traços beiravam a perfeição, apesar de suas imperfeições caóticas, era linda.

Olhar expressivos, confusos a ponto de não se decidirem nem quanto a cor, apesar da aparente confusão, por vezes decididos, por vezes inseguros, transmitiam alguns sentimentos e informações nobres, a quem tivesse o interesse, a paciência e capacidade de desvendar.

Vivia como em uma espécie de mundo só seu. Com seus fantasmas, suas angústias, seu (des)amores, suas alegrias, suas tristezas, suas fantasias, loucuras, perversões.

da solidão

no peito
um deserto
inteiro, sem reservas
me abocanha
o ser
- esse verbo
latente
habitando as reentrâncias
da geografia tortuosa
do corpo

Cabotina ironia

Do outro lado da rua
em frente ao espelho
a terceira margem do rio:

A linha de fuga
no horizonte virtual
de uma solidão fragmentada:

Algo se debate
que não fica à vontade
e na deriva se deixa levar:

em multiplicidades.

Penteando a barba

A literatura que se instala em meu peito não é aquela que me alcança através dos olhos ou dos ouvidos, senão a que tem olhos e ouvidos próprios e me encara diante do espelho. Mas, então, responda-me seu grandessíssimo cabotino: Por que tanto amor dado a si e nem ao menos bom-dia a uma pobre alma que estende a ti sua voz do outro lado da rua?





Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.

Hotel Amargo

Surpreendeu-se com os olhos fixos no teto. O olhar dele, que antes percorria inquieto as coisas e o mundo, as coisas dentro do mundo, ou o mundo dentro das coisas, agora dera para estatelar o nada. Olhou para dentro de si mesmo. O tempo correu. Surpreendeu-se olhando para dentro de si mesmo. Desviou os olhos. Pensou que deveria acender a luz do quarto, passava das seis horas da tarde, o escuro aparecendo e dramatizando tudo, pinceladas expressionistas sobre sua incapacidade. Paredes, móveis. Permaneceu deitado, porém. Fitou os pés magros aparecendo na barra da calça do pijama, brincou um pouco com os pelos lisos da barriga. Cruzou os braços sobre o peito, tentando encapar o movimento com o embrulho da superioridade, mas conseguia ouvir o barulho do chuveiro em que o outro se enfiara, imaginava os olhos dele ardendo por causa do xampu barato. Sentou-se na cama, bruscamente.

Era estranho. O quanto sua capacidade de enxergar aumentara, a partir do momento em que passou a usar os olhos dele. Quando era criança, costumava achar que o mundo terminava naquela linha, naquele limite redondo que a vista alcançava. Ficava imaginando que se a pessoa desse um passo além do horizonte, essa pessoa cairia. O que antes era apenas intuição, agora se tornava uma verdade. Ele foi além, e caiu.

íntimo

... Trazia os olhos sobre uma memória, e a fiava com o silêncio de quem pura e simplesmente se pega a remoer o passado numa dobra ou outra do dia. Não a notariam - não ali sob o finzinho de tarde, com os olhos sobre o guardado de fotografia que trazia consigo, amarelado, alguns rostos (felizes?), o passado alinhavando aquela lonjura de anos a fio - ranhuras, as nódoas na pele, já cansada. O tempo, esse que mal sabe, mas tão presente agora. “Cá dentro não me esgoto, me farto”, ali, dedilhando sentimentos, “palavra dá corpo a sentimento?”, perguntava-se. Sabia mesmo que tardes iguais àquela roçavam o peito, e se por segundos fechasse os olhos, num gesto vago, lhe brotaria sob as pálpebras a saudade de um amor feito lá atrás, quando ainda não era ausência feito agora...

Angústia

Comprou cigarros. De início iria fumar só um (talvez outro) depois do trabalho e jogaria fora o maço ainda cheio, como fizera tantas vezes. Mas desta vez fumou vários, um a um, dia após dia, na interminável promessa de parar na manhã seguinte. Que não chegou. E ao redor da fumaça fedorenta flutuavam nebulosos pensamentos sobre a vida e uma certa nostalgia. E um buraco no estômago... humores? Blá-blé-bli-bló-blu, diria um poeta apaixonado. Não podia crer em poesia; não neste momento. Caminhava errado, porém qual o atalho correto. Angústia crescente nas lombadas. A cada cigarro aceso percebia que o buraco não era vazio, estava repleto de uma massa aterradora, absurda. Sufocante. Sentia falta, mas de quê. Uominis-humbre-falus-pensantis-amenos, blasfemara o filósofo. Não entendia nada de filosofia, psicologia ou meteorologia. E os raios esbravejando no seu cérebro vertiginoso. Não é estômago, é coração, percebeu. Aí era tarde demais e os cigarros já tinham acabado: voltara a fumar.

Indivíduos ou um conto sobre angústia.

Tinham o peito preenchido pela ausência. A selva que cercava suas casas também cresciam em galhos nos  pensamentos. Eram, naturalmente, felizes (ou deveriam ser) já que possuíam a mais rica tecnologia para se comunicarem - eram lindas mercadorias com as mais diferentes luzes e botões. Acreditavam no poder  como resultado dos anos trabalhados em esforços. Possivelmente alguém (em tantos) vingaria, assim poderia distribuir em bondades e caridades o que os outros necessitavam para se manterem vivos durante os dias que voavam com o tempo.

(O tempo, velho ingrato que teima em voar, insiste em perpetuar a ausência, aquela mesma que preenche os peitos.)

Se encontram, toda semana, em grupos de crenças para satisfazerem o doce prazer da relação.

Labirinto

Uma estrela hoje caiu
Minha cabeça atingiu em cheio
Assim despencou...do nada
Sangue lunar de repente
Por minha face escorrendo

Seu brilho noturno clama o céu
De suas luzes apossou-se
A megalópole
Morte súbita entre as luzes artificiais
Estava só, quando dei por mim

haikai urbano

o neon na pele

liquefaz o corpo todo.

sombras no asfalto.

cru

eu vivo aqui mesmo, perto do chão
gosto de sentir o cheiro de mijo da calçada
gosto do gosto de porra na boca
vôo às vezes por aí
mordida numa nuvem cinza
vôo cego, sem capacete
e o sol na cara
o chão é meu segundo lar, volto sempre que posso
pouso derrapante em dias de chuva

Parceiro de Queda Livre

Eu também varo nuvens caindo
por entre rajadas de vento
do topo de minhas pretensões mais elevadas
e contraponho momentos em que vôo
à margem do choque fatal
com o desespero de quem não tem onde se segurar
afundando cada vez mais 
nas profundezas existenciais

Eu fui olhar o abismo
e me encantei com sua grandeza
atraído pelo brilho sublime da luz
dei um passo além
e caí pra sempre no vício do sonho
no lodo humano
caí para sempre em seu desvão de sentido
estou caindo sem nenhum controle
e nenhuma oração pode me salvar
e nenhum remédio nem uma bela mentira 
pode evitar meu desastre

nada

Voltava pra casa depois de duas semanas fora, tinha precisado de umas férias da própria vida, mas já sentia saudades de casa. Não há lugar como nosso lar, descia a rua lembrando de Dorothy e quando viu já estava em frente ao seu prédio.

Abriu a porta e sentiu aquele cheiro conhecido, de cera misturado com desinfetante. Engraçado como lembramos dos cheiros, ainda lembrava do cheiro da escola na primeira série e sempre que sentia aquele cheiro, que nem sabia identificar, era transportada pra aquela época.

Entrou no elevador antigo e mais uma vez teve medo que ele parasse de repente entre os andares, apesar de nunca ter parado com ela era insuportavelmente lento. Décimo terceiro andar era o dela, sã e salva. O corredor era comprido e cheio de portas, numa delas estava sua casa. Não há lugar como nosso lar. Na sua porta, o tapete colorido e brega parecia gritar algo sobre a dona da casa. Chave na fechadura e a pressa de tirar os sapatos e fazer um xixi, porque não conseguia mijar calçada.

Caindo

Não lembro muito bem quando pulei, ou se jogaram-me... Só sei que quando percebi já caía neste precipício sem fim. Todos caiam, e caiam sozinhos.

Alguns dos que caiam, agarravam-se a pedras, guarda-chuvas ou papéis soltos, deixados pelos que antes caíram. As vezes divinizavam tais objetos, e diziam que lhe contavam histórias sobre o fim da queda, ou que um dia o sofrimento e o medo acabariam. Mas se acabasse o sofrimento o que seria do Amor?! Por vezes tentei acreditar, também tentei agarrar-me, mas logo desistia, havia pouca beleza em tudo.

...

Vai desconstruindo essa eternidade dentro de ti,
Porque é tudo poeira
Vai lavando em rio,
Tua alma arteira
Porque no final, cujo lugar desconhecemos,
O que se tem são correntezas,
Que se espalham terra a dentro...

sem título

e de repente a gente nem precisa de espelho pra entender que cresceu
que cresceu demais para o que queria
que o que escorre já tem outro peso
dói mais
demora mais pra passar
demora mais pra entender
pra compreender
pra aceitar
e de repente os silêncios fazem mais parte do que se queria
as incertezas, as dúvidas e os medos já nem se contam mais
isso porque parecia que quanto mais se crescia mais simples seria
poder fazer qualquer coisa
ir a qualquer lugar
e de repente ser o dono de si mesmo pesa
pesa mais do que se sonhava
do que se podia imaginar
e nessa construção
pensamentos ossificados
sensações liquidas
medos santificados
buscas mobiliadas
e são várias paredes brancas
e são vários os silêncios
e você crescido...

O fim previsível é o mais provável de todos os erros

Braços vão além da extensão do corpo, e eu, com essa iluminação, tracei tua áurea com a língua sobre seus pêlos.  Imaginei o corpo sendo o mundo desnudo, e nós, as partes deslocadas da matéria-mãe, desencaixados e vulneráveis a seguir objetivos que nunca serão nossos. Válvulas de improviso  que resistem ao prazo de validade, sabendo que só há uma chance de romper com os dogmas. E se por alguma crença, existirem outras, essa não deixará de ser única. Nada é o mesmo sempre, nem mesmo as peças do mesmo fabricante.

Pé de estrela!

Havia ventado tanto, que as emoções foram todas levadas junto com o vento. Emoções, segredos e histórias - aquelas contadas e não contadas. Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos. Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou. E você sabe, né, vapor que sobe para o céu,  tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva,  tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.

A Ausência

A ausência era seu par. Para ela dava colo, consolo, cuidado. Saiam para passear de mãos dadas. Visitavam bosques, museus, cinemas, espetáculos dos mais variados. Bebiam vinho. Preferiam comida japonesa com shoyu light. Ele e ela, a ausência, sempre lá. Um bom tempo passou. E, ele, só de olhar para ela sentia cansaço. Quis terminar o romance. Ela? Não. Bateu o pé. Já estava acostumada ao colo, ao consolo, ao cuidado. Não teve jeito. Ele partiu para o litigioso. Em meio às discussões banhadas em dores o processo correu. Foi mais rápido do que ele imaginava. Enfim: a separação! Um alívio. Agora sim! Naquela noite ao deitar sentiu um cheiro que nunca tinha sentido, pelo menos não se lembrava. Ao acordar olhou para o lado da cama que a ausência costumava ocupar. Sentiu-se só.

Flores do Paraíso

Faço de minha loucura meus versos

De meus versos faço meu reverso

Busco solução para o que não tem mais

que ser resolvido

Tento acreditar em algo e diariamente

me mostram que estou enganada

Da viril vaidade do homem que escreve ou fálico é o falante

Éramos praticantes das mesmas simbologias, embora tomássemos parte nessa mecânica como partes distintas e destacadas. Enquanto eu marcava a ferro as datas das minhas mais cabais frustrações, ele empunhava o ferro e dava o contorno tipografado dos números de dias e anos que em minha pele devia servir de brasão.

Andávamos juntos ao rigor da sincronia das marchas. Eu era sempre o pé que apoiava, que suportava todo o peso nas juntas comprimidas querendo partir-se. Mas era ele quem conduzia, quem revelava o caminho e estava sempre no ar. O pé que impulsionava era leve como a fumaça, mas combustível como o âmbar.

Quarar

Atravessar-me
Mudar de metade
Ver a que não conheço
Dar a ela a mão
Tirá-la do cheiro de guardado

Dar a ela banho de sol
Quarar com sabão de côco
Deixar a espuma endurecer
Banhar na água a metade quarada
Vê-la transparente, clareando

Da parte que não domino eu

Metade da minha vida
Tenho nos dentes
A outra metade, caminha
Não sei se chega,
Não sei se levo
Sinto-me do outro lado da beira
Da estrada que não quero borrar
Sinto-me a um pulo de mudar o eixo
De trocar os sapatos
De me vestir de mim
Sinto-me querendo voltar
À essência que me transforma em ser

Minha receita cotidiana

Todas as manhãs levanto antes do sol
faminto de sono

Misturo passos e pequenos saltos
mexo até dar liga

Bato tudo com um pouco de ônibus
e pitadas de metrô

Cozinho meu caminho até o serviço
em fogo baixo

Aroma

Minha fé tem cheiro de mato.
Terra molhada, café torrado.
Doce e amarga.