Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.
Na nau
Lá vem. E outra vez. Foi onda que fez o nível baixar subir baixar do mar. Nessa embarcação, o peso do cobre não é perigo: não existe. Os temperos humildes que recobrem nosso casco perfumam os espaços nas dispensas, nos bolsos, no vento. E tem mais gente a estibordo, que peso trazem elas? Trazem promessas, juventudes, solidões.
Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.
Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.
Sobre o que sinto; e não dos sentidos que tem
Poderia falar-te mil coisas sobre os sentidos, mas nenhum sentido teria se eu não dissesse em palavras. Poderia calar infinitamente num gosto, aroma ou numa visão repentina de um mundo em que só se ouve em cores. Mas e daí se o fizesse? Quem teria em mente a medida do encanto da melodia de um passáro se não nos tivessem comunicado antes o sentido bucólico daqueles sutis elementos? Eu não sei. Tu Falas em sentidos como se visse neles uma porta aberta ao mundo; como se o mundo fosse, de fato, algo externo a ti. Eu, no entanto, não consigo jamais entender que cor seria o vermelho se antes essa palavra tão pulcra, manchada em três sílabas que têm em si um próprio sentido em ocorrências afora, não me tivesse representado do sangue a imagem perene de seu conteúdo. Para ver-me, basta que tu me fales, como para mim basta ver-te e dizer-lhe que vi. Não que eu precise, de fato, tocar-te com a minha retina, pois não preciso que seja com olhos - esses tão cegos da parede adiante (como tudo mais nesse corpo que anda e balança) - basta apenas que diga ou que ouça; que escreva, que leia ou rabisque em uma nota de supermercado. E quem há de negar que os tomates tenham tanta vida numa lista de compras quanto num pomar recém semeado? Talvez tu me aches satírico demais pra te ser companhia digna, já que espero tão pouco dos momentos silenciosos. Talvez me aches indigno de qualquer amor espontâneo, por ter eu dado às palavras o peso colossal como o daquela estátua em Rodes, que apesar de nunca ter sido vista por olhos de homens vivos, ainda assim, é possível vê-la com sumpto e magnificência em histórias antigas e novas. Mas entendo que tu mesmo não se dê tanto a essas visões. Não te culpo por olhares tanto pra frente, mesmo quando sabes que lá é que espreita o teu fim. Mas também não direi que te admiro a coragem. Porque não admiro. Sei que existe infinitamente mais sabedoria em olhos fechados que aquela estúpida certeza de que o concreto a tua frente pede o martelo e não tinta preta e pincel. E se tivermos que dar mérito aos sentidos, será menos pelo que encerram em si de absoluta contingência, que pelos adornos supérfluos ou impróprios com que subtraímos eles às palavras. Se o mundo que, com efeito, nos toca é mesmo um mundo de luz e som e matéria, então, mais belas ainda deverão ser estas que dizem sem sombrea-lo - o mundo - senão na memória arcaica que o homem tão ingenuamente aprisinou. E se tu me perdeste na fração diminuta entre um piscar de olhos e a passagem de um vulto, é porque, pobre de ti, tão bem te valem os olhos e a pele e os ouvidos pr'aquelas simples operações do espírito como é o "ver" e o "sentir". Já eu, devo dizer-te, jamais te perderei de vista enquanto tiver - como estas - tantas e tão interessadas palavras alçadas à dentro, como se a porta aberta fosse, ao contrário, um poço profundo e o escuro tão repleto de nuances quanto qualquer primavera. Pois existem mais camadas entre o branco do papel e o preto da tinta do que julgam afetados uns furtivos e ingênuos impressionistas.
Cores
Caminho sobre cores
.... variadas cores
.... calorosas cores
Que escorrem ao toque de meus pés
Deslizam pelo desfiladeiro
Novos mosaicos ao relento
Novas composições ao acaso
Suado
Molhados de suor
terminam.
Apressados começaram.
Ela calcula cada movimento
Ele sufoca cada gemido.
O suor
O grito abafado.
Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir.
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.
Os olhos tristes, perdidos.
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.
Molhados de suor terminam.
O gemido.
Sufocado.
Apressados começaram.
Ela calcula cada movimento
Ele sufoca cada gemido.
O suor
O grito abafado.
Ela espera a hora certa
Ela pondera, ela pensa.
Ela quer fugir.
Ele respira. Ele se entrega.
Ele espera. Ela quer sorrir.
Os olhos tristes, perdidos.
O corpo triste, cansado.
O gemido.
O calor do quarto abafado
O fogo do grito abafado.
O gemido triste.
Desesperado.
Molhados de suor terminam.
O gemido.
Sufocado.
Certezas, somente quando...
Só quando tiveres olhos de infinito...
Verás como são ínfimas, as certezas que dizes ter
Caberás no vácuo, e mesmo assim te acharás
Teus redemoinhos, tuas obras-primas e teus juízos
Tudo isso será teu e de todo o mundo
Mas somente quando tiveres paisagem de infinito...
Porque os abismos têm fundo
E as estradas, essas que tu dizes querer
Se desdobram para passar em tua esquina
Teu guarda-chuva, se fecha só para a chuva te molhar
Mas tudo isso, só quando tiveres flores em teu jardim
infinito
Porque teu sal precisa ter gosto de mar
E o teu saber e o teu sentir,
São tuas entranhas, tua pele, o teu suor.
Anamorfose
Havia ela escrito esse texto; um texto tão particular que cada um que
lia tinha impressão de tratar-se de história totalmente distinta daquela que
lhe havia contado o amigo, tendo lido o texto alguns dias antes. Mas não era no
tempo que a diferença se estabelecia e senão no espaço. Duas pessoas que lessem
o texto ao mesmo tempo, de pontos diversos no espaço, teriam razão de uma outra
novela; ou de um poema; quem sabe, ainda, de uma nota de rodapé; poderia ser
que lessem as duas uma mesma coluna jornalística e que, no entanto, cada notícia
relatasse o mesmo acontecido numa cidade inteiramente outra. Seria, então, por haverem
lido aquelas palavras que chegariam a conclusão de sua própria existência no
mundo, uma vez que lendo distintas imagens diante de um mesmo pedaço de papel
preso a uma parede, seriam, assim, depoentes da divergência essencial em que se
estabelecia aquela experiência. Sentiriam como se estivessem também sendo lidos
quando julgassem, por sua posição no espaço, colocarem-se as vistas de um
observador atencioso, que enxergava, para cada visada e em cada lugar, uma
história particular.
Era uma vez um dia de chuva
Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.
Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.
Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.
Sobre ou sob um pedaço roubado de mim ou de você
Como pode uma certeza se esvair como incerteza?
De modo ingênuo e duradouro perco-me nos vãos que se instalam de nada entre nós.
Vãos espaços.
Vãos espasmos.
Vão.
Vão de ir, mais de um.
Vão de partir um sem outro, um em dois.
Ele foi e consigo levou parte: nem todo nem nada: parte de mim.
Um pedaço que não se encontra mais.
Arrancou, levou sem pedir.
Roubou-me.
Roubou-me de mim.
E agora quando o vejo - Ele - não o vejo mais: só procuro o que me foi roubado e nem sei mais, se ele é dono desse pedaço de pecado que tiraram de mim.
Ou se fiquei, em pedaços perdida, no ar.
Não sei se sou, se tenho, se sinto.
Só sei que vou, como ele foi e permissiva estou.
Dei-me carta de alforria: alforria da dor da ausência e do tempo mastigado e dificilmente digerido todos os dias pela falta.
Fui e quando vi era pro outro lado.
Fui como ele, mas algum pedaço desse um dividido em dois decidiu habitar o não-lado do outro.
Amor-maldito, incerteza-tenra, dor-passiva, cor-massiva, pensamento-desalento.
Careço. Padeço. Suplico:
- Me habite em seus olhos para então habitar-me.
Rogaine, Viagra, Olestra
Roberto fez 30 anos semana passada. Sem muito que fazer,
chamou os colegas de trabalho pra um happy-hour na sexta. Não tinha mais sua
família por perto para comemorar. Seus pais moravam longe, e o seu
relacionamento com eles nunca foi dos melhores. Eu sou os cabelos caídos de Roberto
Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.
Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.
Assaltantes Anônimos
"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer
sociedade, é um homem sem nada a perder."
Malcolm X
Malcolm X
Isso é um assalto! Anunciou confiante. Passa tudo! Vamo, vamo, vamo logo senão leva chumbo agora! A mão firme. O rosto escondido. O corpo protegido pelas vestes. O corpo fechado pelo terreiro. Tá olhano o quê? Qué morre cara, cê tá quereno morre? As chave! A bolsa da madame também! Passa, passa, passa logo cara. Chico, pega tudo aqui, vamo logo, corre qui os home tá chegano. Apressadamente saem da lanchonete dos Jardins. Droga! Essa moto falha quando mais precisa! Duas, três, quatro fortes pisadas no pedal, ela arranca, Chico na garupa. O cachorro louco [1] rasga a cidade.
Ausente à dor
A dor, se não era quase
Era nada
Um nada de prazer
Um nada de vazio incompreensível
Porque se afastara dela assim,
Como se não reconhecesse suas mãos e pernas
Mas iria voltar,
Iria morrer esta
E renascer a outra
Outra, que era ela...
Quase...
Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.
A caixa laranja do arco-íris dourado
Selenita realiza, assim como centenas de milhares de mulheres, uma dupla jornada de trabalho. É secretária de um advogado falido no centro da cidade. Dr. Miguel. E, além disso, ao chegar em sua casa, passa roupa, lava copo, estende roupa e pinta o cabelo. Vinte e quatro horas multiplicadas por três ao cubo. É essa a impressão que se tem observando essa dona
Selenita é uma alavanca, daquelas que aprendemos em física, mais precisamente em mecânica. É só fazer a associação. Não olha nem para os próprios pés. Levanta-se às sete da manhã, sempre com o pé direito, pois isso já a direciona para o guarda-roupa, de onde recolhe sua calça preta de veludo e uma camisa branca amarelada, assim como todas as outras que ainda tem. Depois escova os dentes. Toma café. Escova de novo os dentes e faz uma trança no cabelo (dá mais credibilidade, um dia lhe disseram).
Sobre um Conto de Ninar
Era uma vez uma menina que não se chamava. Que ninguém chamava. Ela não tinha nome.
Uma menina que não morava em nenhum lugar. Ela não estava nem permanecia. Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe. Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava. Que não dizia nada não ouvia nada. Ela não tinha voz nem ouvidos. Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava. Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas não tinha estômago nem rim nem coração ela não tinha nada. Uma menina que era um monte de nada e de nunca. Nada e nunca dentro dela num monturo, no meio do dentro que não tinha fora.
Era uma vez uma menina que não chorava. Não brotava água dela. Uma menina que não ria. Não tinha força para um espasmo de gargalhada, não lhe saía força.
Uma menina que nunca incomodava.
Ela não tinha mãos nem pés nem cabeça. Uma menina que ninguém via.
Mas pairava, uma presença.
Gata BorraAlheia
Em uma era de nenhuma vez, não havia espaço para o faz de
conta.
A Gata Borralheira esperava aquele sempre onde seria feliz.
Sem contos de fada, diziam.
Ouvia-se apenas contos de um
fado.
Era só uma borra no fazer de contas.
A mulher de azul
Todos os dias no mesmo andar. O segundo. No mesmo passo. Arrastado e pulsante. No mesmo toque. Mãos leves e que desliza. Com os mesmos pisos. Os mesmos panos. Os mesmos produtos. As mesmas sujeiras.
Uma senhora já de idade. Parece uma vó querida, digo. Não, não pude ter filhos, me diz ela ainda com o seu brilho nos olhos. Uma senhora de brilho nos olhos. De um brilho que parece vida. Um brilho que parece que tem algo pra sair do corpo.
Época de Verão
“Época de verão
Criança, a vida é fácil
Os peixes pulando fora
d'àgua
E o algodão, Senhor,
O algodão está alto,
Senhor, tão alto.”
(Summertime, Janis Joplin)
A medida do gosto
Há quem consiga amar co'a alma
quando o corpo, dono dos gestos amáveis,
imerso em dura e estafante labuta, vacila?
Há quem a arte redima dos golpes
a seco nas feridas e calos, que o faça
querer mesmo o palco ao invés d'uma cama?
quando o corpo, dono dos gestos amáveis,
imerso em dura e estafante labuta, vacila?
Há quem a arte redima dos golpes
a seco nas feridas e calos, que o faça
querer mesmo o palco ao invés d'uma cama?
A medida da gota era a medida do pó
Lá fora chovia
Cá dentro secava
A medida da gota era a medida do pó
Queria chamar por Cecília
Queria falar de João
A medida do não era a medida do pó
Lá fora molhava
Cá dentro moía
A medida da dor era a medida do pó
Cá dentro secava
A medida da gota era a medida do pó
Queria chamar por Cecília
Queria falar de João
A medida do não era a medida do pó
Lá fora molhava
Cá dentro moía
A medida da dor era a medida do pó
Morte Prematura de uma Dúvida
O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.
O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.
O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Nem uma nuvem ao longe anunciava a vinda de uma gota sequer. Passara já por um bezerro todo feito de costelas que o fez salivar. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.
Declaração de inocência
No banco dos réus, o cérebro permanecia calado, astuto, certamente maquinando sua própria defesa, enquanto do outro lado, uma promotoria sem papas despejava verbos e verbos contra aquele pobre músculo, cujo uso - assim a língua dizia - enrijecia a alma e desprendia o corpo de sua mais fresca humanidade.
Pelo banco das testemunhas passaram fígado e rins, estômago, olhos, apêndice (este, refutado pela defesa na simples confirmação de sua franca inutilidade), mãos e genitália. Subia, agora, a voz que mais se esperava e fez-se silêncio no recinto quando, chamado ao juramento, o coração se apresentou. A língua amaciou seu tom, que antes vociferava sem calculo ou pudor, e fez do drama, que agora se inclinava diante do júri como uma orquestra silenciosa, o cenário ideal para esse depoimento. Falou o coração. Repetiu-se algumas vezes numa oratória que dizia não apenas criminoso o cérebro, veículo marginal de uma tão seca premissa, mas condenou com ainda mais veemência sua protetora, progenitora e religião. Disse, dentre outros adjetivos cujas descrições não serão aqui alarmadas, da razão: intolerante, abusiva, autoritária, insensível e frígida. Esse último, repetiu-o sete ou oito vezes, e desandou um lamento que comoveu até mesmo os ouvidos, que tentavam até ali se por na imparcialidade de orgãos sem filiação.
Na quadra.
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...
Primeira de Mangueira
O sambista: gari, bacharel, manobrista.
Pai de Santo, pau de arara. Autista:
O sambista está dormindo,
Mas não tarda em acordar.
Alvorada, o dia, à tarde, à noite,
a madrugada toda, raposas e gatos,
macacos e ratos fuxicam,
fornicam e fuçam, e roncam.
fornicam e fuçam, e roncam.
Estação
Perdi o ultimo vagão para a estação triste
Caminhei nos trilhos como se fosse feliz
Aprendi que as pernas seguem os pés
Em qualquer trilho que se sabe aonde quer
Passeio de pedra em pedra
Uma no bolso
Outras para trás
A luz, o palco e o movimento
Há uma lebre morta embaixo da primeira cartola.
Há uma lebre morta embaixo da segunda cartola.
Há uma lebre morta embaixo da terceira cartola.
Embaixo da quarta cartola, há uma lebre morta.
Há uma lebre morta, também, embaixo da quinta cartola.
Há uma lebre embaixo da sexta cartola: morta.
Há, morta, embaixo da sétima cartola, uma lebre.
Há, enfim, lebres mortas embaixo de uma oitava e nona cartolas.
Eis que o mágico, então, uma cartola levanta – a décima.
Obscura luz
O jardim da noite cidades em chamas,
enxames de abelhas de luzes elétricas.
Mas damas e rainhas ainda perfumam o ar.
enxames de abelhas de luzes elétricas.
Mas damas e rainhas ainda perfumam o ar.
As sombras estão cheias
de cores, pulsos e sangue.
O silêncio que ouço no barulho,
e o seu contrário multidão.
de cores, pulsos e sangue.
O silêncio que ouço no barulho,
e o seu contrário multidão.
Parabólicas Bucólicas
“Todo
dia o sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia” (Paralamas do Sucesso)
Traz do sonho pro mundo quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia” (Paralamas do Sucesso)
Na cidade estendida qual rede
a quarar
O corpo desfalece clamando
por água e salNo ar circularidades de ondas a invadir
Ouvidos e corpo inerte
Que valem as ondas invisíveis a nos vigiar?
Que valem as ondas levando e trazendo
Notícias de um mundo fantasia?
do que somos
Meu amor
Quando você fez em mim espaços de aterrissagem
Cheio de promessas de flores, frutos e vôos
Não olhou pra terra nos meus pés
Toda sorte de presentes
Todo gosto por partilhar
Me fazem desembocar no mar
Fluindo leve
Feliz pleno até do perfume
Mas olha: não vou sozinho
E muitos deles, não sabem nadar
Quando você fez em mim espaços de aterrissagem
Cheio de promessas de flores, frutos e vôos
Não olhou pra terra nos meus pés
Toda sorte de presentes
Todo gosto por partilhar
Me fazem desembocar no mar
Fluindo leve
Feliz pleno até do perfume
Mas olha: não vou sozinho
E muitos deles, não sabem nadar
Fragmentado
Há
dias na estrada. Não me acostumo com a distância. Não essa. Horas a fio tecendo
com o olhar uma geografia longínqua e estia, quiçá até íntima, já nem sei,
agora que até meu corpo parece às avessas, sem lugar, se confundindo a tudo que
me é solidão. Tudo que me é memória. Um indício ralo deixado lá atrás, a
quilômetros de distância daqui, esse ínterim roçando cada pedaço de chão a que
aporto. Agora mesmo levo o cigarro à boca com os olhos lá fora no
estacionamento, tão longe que me perco em mim mesma, a poeira cobrindo o capô
do carro e tudo a volta. E Deus parece a milhas distante daqui, faz vista
grossa a nós duas, vê?, talvez nem ouça Dylan baixinho no rádio como eu o faço,
com o cigarro na boca e lembrando que dias antes de apagar cada prova de minha antiga
vida e bater a porta e dar com o dia me pesando sobre o dorso feito dúvida,
dias antes eu me decidira por você. Sobretudo me decidi por você, deitada
rente ao sono. Ainda levo os sentimentos nos poros, junto aos grãos de areia,
em cada ranhura de minha pele, no talho sob as gazes feito guardados de
memória. Talvez não me livre disso, logo vira cicatriz e a leve comigo, atada
aos pulsos. Trago o cigarro com ânsia, certa gana nesse corpo cavo, ausente.
Não durmo. Fecho os olhos. Sob as pálpebras fantasmas se esgueiram no breu,
meio da noite ainda, feito os pesadelos de quando criança, quando a madrugada
salivava suas sombras no teto e eu temia me debruçar sobre o sono para não mais
acordar. E então não dormia, feito agora, insone, e tecia minhas fugas horas a
fio. Até crescer, descobrir o corpo, um dique que não se rompia nunca, mesmo
que eu quisesse, ainda que me esvaísse pelos pulsos, não se rompia nunca...
Semente
Tenho sede do mundo,
Como se o mundo me tomasse em
arrastão
Tenho fome de carnavais lunares,
De rasos profundos
Como se eu fosse inteira cometa,
Como se as vozes fossem trombetas
Anunciando as marés e luas cheias
Tenho um mundo explodindo nos poros
A sair pelas narinas
Chamado pela luz do sol, pelas gotas
de chuva
Pelo suor da minha dança,
Que prepara um rito,
Para o arrastão passar
Liberdade embalada
Olhou para a porta, pensou em como
seria bom poder sair dali e pelo menos um dia (depois de tantos) ver o sol
partir. Mas lembrou da nova máquina de ponto que instalaram há algumas semanas
e olhou para os dedos, ainda faltavam duas horas. Portanto, se ausentar não
podia.
O despertador era programado para
todos os dias tocar no mesmo horário, pensou em desliga-lo, mas isso seria
descontado no final do mês. Acordou, como de praxe, as 5:30 da manhã.
Pensou em dizer o que pensava, mas seria chamada de insolente pelo cliente e isso lhe custaria bem caro. Calou-se.
Embalo da Liberdade
Experimente
Sair de cena
Ausente-se!
Experimente
Chegar mais tarde
Desligue-se!
Experimente
Dizer o que pensa
Distraia-se!
Experimente
O silencio...
Experimente
Ser bem livre
Isso, mais do que experimente!
Pra ver se é
Bem isso mesmo...
Que te embala
Livremente...
Sair de cena
Ausente-se!
Experimente
Chegar mais tarde
Desligue-se!
Experimente
Dizer o que pensa
Distraia-se!
Experimente
O silencio...
Experimente
Ser bem livre
Isso, mais do que experimente!
Pra ver se é
Bem isso mesmo...
Que te embala
Livremente...
Memória
Certa vez, em alguma esquina da vida, encontrei um garotinha, linda, seus traços beiravam a perfeição, apesar de suas imperfeições caóticas, era linda.
Olhar expressivos, confusos a ponto de não se decidirem nem quanto a cor, apesar da aparente confusão, por vezes decididos, por vezes inseguros, transmitiam alguns sentimentos e informações nobres, a quem tivesse o interesse, a paciência e capacidade de desvendar.
Vivia como em uma espécie de mundo só seu. Com seus fantasmas, suas angústias, seu (des)amores, suas alegrias, suas tristezas, suas fantasias, loucuras, perversões.
da solidão
no peito
um deserto
inteiro, sem reservas
me abocanha
o ser
- esse verbo
latente
habitando as reentrâncias
da geografia tortuosa
do corpo
Cabotina ironia
Do outro lado da rua
em frente ao espelho
a terceira margem do rio:
em frente ao espelho
a terceira margem do rio:
A linha de fuga
no horizonte virtual
de uma solidão fragmentada:
no horizonte virtual
de uma solidão fragmentada:
Algo se debate
que não fica à vontade
e na deriva se deixa levar:
que não fica à vontade
e na deriva se deixa levar:
em multiplicidades.
Penteando a barba
A literatura que se instala em meu peito não é aquela que me alcança através dos olhos ou dos ouvidos, senão a que tem olhos e ouvidos próprios e me encara diante do espelho. Mas, então, responda-me seu grandessíssimo cabotino: Por que tanto amor dado a si e nem ao menos bom-dia a uma pobre alma que estende a ti sua voz do outro lado da rua?
Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.
Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.
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