Rosto nu



(crédito da imagem: autor desconhecido)

[samples e amostras,
até bactéria é cultura;
o que dizer de sons orquestrados,
palavras e raios de luz]

A Sinfonia Anônima do Muro

Presto. Prestissimo.
[Con Spírito] Lado a lado, um a um. Na longa fileira, homens e mulheres sem nome lado a lado e um a um. Gemendo, gritando, grunhindo, urrando – em silêncio. Transeuntes mudos passando tranquilamente (mentira) do outro lado do muro indo pra algum lugar (mentira) que não sabiam bem nem ouviram (mentira) os gemidos, gritos, grunhidos, urros que do lado de cá ecoaram dentro do silêncio. Quando lado a lado foram caindo um a um sem nome e lado a lado, sempre. As balas flutuando pelo ar, uma a uma, os corpos caindo como trapos sujos, seguidamente, complexa coreografia, um balé, e a plateia que vivia do outro lado do muro não foi convidada para o espetáculo, [Ritardando] que pena.

Seu José de Dona Madalena

Seu José faça o favor, de não parar de sonhar
De não parar de parar, na hora de trabalhar
De não deixar de olhar, pro lado escuro da sala,
Pro outro lado do muro,
Pro canto oculto da casa...

Seu José nos faça o favor, homem de deus
De não esperar em seu deus,
De não esperar pela urna,
De não esperar pela chuva...

ENTRE ASPAS

(Numa porta giratória, um homem estressado)

1 - Eu já disse que não tem mais nada, olha minha bolsa!
2 - Não posso olhar, senhor! A empresa não permite que eu reviste clientes, pode causar constrangimento.
1 - Mas eu tô pedindo pra ser revistado, euuuuuu to pedinnnnndo! Tá todo mundo vendo, eu quero ser revistado!
2 - Senhor, não tem nada de metal na bolsa? Talvez a fivela ou seu cinto…
1 - Já disse que não! Que merda! Eu os preciso fazer esse tramite! (joga bolsa no chão e fica com um papel na mão) Eu entro só com o papel!
2 - Senhor, a empresa não se responsabiliza pela bolsa deixada do lado de fora.
1 - Eu me responsabilizo, abre essa merda dessa porta!

Seu Zé

Há mais de trinta anos, Seu Zé trabalhava como faxineiro em uma escola da periferia da zona sul da cidade de São Paulo.

No início, tinha a vassoura e o esfregão apenas como seus parceiros temporários. Sonhava em ser artista de cinema. Mas, com o passar dos anos, o temporário transformou-se em definitivo e ser artista de cinema já não mais passava de um sonho impossível de se realizar. Foi abatido por forte depressão ao se deparar com tal constatação, como se tudo não tivesse mais sentido. Comer, trabalhar ou até mesmo respirar já não indicava a direção de nada a ser alcançado. Repetia a mesma rotina todos os dias com um profundo mau humor. Era como se cada sala que ele limpava o tornasse mais sujo, pesado de tanta sujeira.

Até que, num certo dia, ao varrer a sala da 7ª série, encontrou um pedaço de papel, um tanto amassado, com algumas palavras, quase que por completo cobertas pela sujeira. “Nem sei porque, (...) espero (...) poder (...) dizer (...) te quero!” Fragmentos de um texto, de uma carta de amor. E Seu Zé começou a remontar em seus pensamentos aquela carta de amor e imaginou o garoto, a garota, a situação, tudo bem nítido como se estivesse assistindo a um filme de cinema. Ficou quase duas horas, parado, apoiando o peso do corpo nas mãos que pairavam sobre a ponta do cabo da vassoura, imaginando.

O verbo é a alma da língua

Dos muitos professores e professoras que tive, poucos permanecem até hoje em minha memória. Manoel de história, foi um dos desses professores que nunca esqueci. Estava na sexta série, e no primeiro dia de aula ele entrou na sala cantando em voz grave e firme: "Boemia, aqui me tens de regresso..."

Eu não sabia o que era boemia nesta época, não sabia também que me apaixonaria por ela. Mas, aquele modo novo – para mim – de começar uma aula me convenceu de que aquele professor era diferente. Ele gostava de ser chamado de Nenel, que era como sua avó de 87 anos o chamava.

Outros professores insistiram em se agarrar a minhas memórias afetivas do tempo de escola. Professora Ariadne era outra delas. Não entrava na sala cantando, não fazia piadas, nem tirava pontos de alunos que erravam as bolinhas de papel lançadas ao lixo.

Ariadne mascava viciosa e serenamente  um chiclete com cheiro de hortelã, mandava seus alunos soletrarem palavras, passava dever de casa todos os dias, em resumo, era a "pior" professora que um jovem de treze anos poderia ter.

O décimo sétimo verso

1   Não há reis que lavrem seus muitos campos,
5   Quem, por ventura, colhe aos olhos as cores?
2   como fazem aos montes uns outros os deles
6   melodias, encantos, os prantos e os versos?

3   Não há nas fábricas ou lojas filósofos tantos,
7   Brutos, sensíveis, mesquinhos e acolhedores
4   é também o contexto que fabrica os haveres
8   não vos enganai com estes humanos excessos

A Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – um abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.

O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca engolia um árido silêncio. No estômago só a raiva e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

Do sul, Américas



LISARB – BRASIL – ANAGRAMAS

SALRIB (onde o ribeirão encontra o mar, água doce-salgada, agridoce céu da boca)

LISARB (Lisboa Arborescente, mais-valia Pau Brasil, tantas plantas mais)

A passagem de Kronos, o nome que lhe deram, ou os nomes que lhe dão, vou chamá-lo de Macunaíma, bater o cartão, a hora da novela, deus ajuda quem cedo madruga, o apito da fábrica, a ambiguidade do crepúsculo, toque de recolher na favela, que preguiiiiiiiiça...

Boletim de Ocorrência

- Pode relatar o ocorrido?

- Claro! Eu estava bem quando ele passou. Passou por mim. Através de mim. Enquanto ele passava eu pude entender melhor tudo à minha volta. Mas foi muito doloroso. Ele levou minha juventude, minha saúde, minha energia. Ele levou meus amores, meus sonhos, minhas oportunidades! E então levou minha mãe! Ela que sempre disse que ele era bom, que ele tinha ajudado a resolver os problemas mais graves da família, e ele nem se importou! Eu tentei impedi-lo. Fiz de tudo! Gritei até quase perder a voz! Tentei entrar na sua frente, mas eu já disse: Ele passou por mim; Passou através de mim! E levou tudo o que eu tinha. Eu tentei impedi-lo. Fiz de tudo! Tudo o que encontrei joguei no seu caminho! Fiz barricadas! Mas ele passou por tudo, através de tudo e levou tudo o que eu tinha! Nada o detém! Eu tentei agarrá-lo, prendê-lo... finquei estacas nos seus rastros no intento de ao menos retardá-lo, mas ele passou indiferente. E agora levou meus filhos! Eu implorei para ele voltar, mas ele não volta!

- Por favor, acalme-se e seja mais objetivo... Quem é ele?

Tatuagem Monocromática

“Batidas na porta da frente
                 É o tempo.
                               Eu bebo um pouquinho pra ter argumento...” (Resposta ao Tempo, Aldir Blanc)


Acordava intermitentemente durante a noite, sonhava estar só. A angústia rasgava a garganta em gritos alucinados que ecoavam na noite quieta e morna.

Os gritos arrancavam do sono profundo, repentinamente, a filha em sentinela, o coração de quem espera por notícia ruim a qualquer momento galopava no peito. Após breve pausa, a serenidade voltava ao lar, já envelhecido com suas histórias devidamente marcadas no compasso de cada rachadura a correr pelas paredes.

Hybrid by Skin


A tristeza faz parte das equações sem solução. Já vi isso no filme Incêndios, Vinícius canta isso como religião. Canta nos reverbs dos registros audiovisuais, instrumentos e intérpretes, memória nada mais, onde quem percebe cria vínculos subjetivos, afetivos, do coração ao cérebro, algo bate, algo corre. A descoberta do afeto, ouvindo quem já morreu.

Do aviso vítima

Sou mais uma vítima do aviso
Não me poderia ter largado, de todo, ao imprevisto?

Jamais se deve dar ouvidos
A um homem com uma profecia
Esse corredor reto e liso
Que trata com franco descaso
o quinhão que cabe à poesia

Um balde raso transbordando água fria.

Dos traços

Pintou nela um corpo de traços móveis
Caminhou por ele em passos de cores fortes
Atravessaram-se
Viveram-se por dentro
Os cheiros construíram castelos
Instalaram-se em tons de azul, um tanto de mar, um tanto de susto
Risco vermelho
Há uma tela branca
É tanto que não sabe.

Fruta Estranha

O corpo roça a parede
Num incessante vai e vem
Braços abertos agarrados ao nada
Chamam para si quem passa
Unhas marcam o compasso na tinta fresca
A escuridão roça os pés
Desnudos sob o gramado frio
Na noite fria
Desnuda
As pernas semi-abertas brincam
Em curvas sinuosas, sobem e descem
A boca implora carinho e prazer
Olhos, quais estrelas cadentes
Desejosos...
De pedidos secretos saciados
Esgueirando esquinas, as estrelas
Espiando entre os prédios a lua descuidada,
Expõe cabelo umedecido pela névoa,
A arredondar mais sua face brilhosa
Na agulha, a embalar sonhos adormecidos
Strange Fruit de Billie Holiday
No vão, a solidão acompanhada rastreia,
...qual antena de TV
Momentos de prazer
E fúria.

Miséria de Civilização


Esses dias eu vi uma garça
com uma plumagem branca
pousada no meio de um rio negro
cheio de esgoto e doenças

Ela tinha uma altivez na postura
que raramente os animais perdem
a não ser depois de muito maltrato e abandono
no convívio dos homens
estava sozinha e observava a cidade cinza

"O cão sem plumas"

Os pássaros azuis vagam
Acima das nuvens claras
Sob seu manto escarlate
Resta-nos apreciar o voo deslumbrante
Suave, levado ao sabor do vento
Olhos voltados aos céus
Pinço cada movimento
Mente anestesiada a vagar em cada rodopio

A gente

As vezes paro.
As canetas param.
O teclado para.
A cabeça não.
Me deparo,
Me debato,
Tento em vão me sossegar.
Disfarço.

Gol de Placa

Gosto de brincar nesse mundo
driblar o medo, presentear a vida
marcar um gol de placa todo dia

quanta beleza num drible sem bola
como o poeta quando escreve sem palavras
há uma beleza ainda maior

quando se desafia a estupidez
com alguma graça
quando se dribla a maldade
dribla-se a solidão com a amizade

são atributos do jogador
o dom de saber iludir
e o de despertar amor em toda parte

Drible de Categoria

Não gosto de futebol
Visto, pensam não ser eu brasileira
Brasil Pais do futebol!
Mas, nem tudo é perfeito
E uso regras deste esporte
Cotidianamente...
Driblo a burrice.
Diz o poeta “a burrice é invencível”
Clareza inigualável!
Por que me ponho a driblar então?
Porque não consigo exterminá-la.
Quanta energia gasta...
Quanta tristeza na face...
Quantos aborrecimentos vis...
Burrice. Melhor então aderir a ti?
Nesta hora percebo:
Algumas coisas são irreversíveis.

Leda e o cisne


Da banca do homem mal
à beleza da fêmea fatal.
Quando a natureza (sábia?)
é infinitamente mais letal.

Engendraram-se uns nos outros,
engrenados.

Não sendo Yeats como gostaria, ele é ao menos honesto

Tenho eu outra coisa, a bordar nos céus, que nuvens

densa camada de não sei que substância hostil

desencanto, amargura e essa aspereza crassa

não os semitons, nuances ou a meia luz sutil

Espalharia sob seus pés amor algum se acaso tivesse

Mas eu, sendo de espirito pobre, tenho apenas rancor

Eu espalhei rancor sob os seus pés

Caminhe delicadamente ou afunde - como queira.

Pessoa

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

E passa

Esgarça-se no espaço.
Materializa-se como rastro em qualquer direção.
É vulto.
Voa.
Treme.
Fura.
Invade.
Arrasta.
Faz.
E passa.

Corro pois não gostei das asas

Ando para não possuir o mundo,
Ando pra não deixar possuir,
Ando para não parar e perceber que canso,
Perceber a dor, perceber arder.

Ando pois cada passo é um esquecer,
Ou um lembrar do que há de vir,
Ando como quem corre para um não sei onde,
Como quem corre para nunca chegar,
Como quem anda por estar perto,

E quando corro deixo.
Deixo viver, deixo correr.

A máscara e eu

E por alguns dias levo minha(s) máscara(s) pra passear! Posso fingir, assim...tranquilamente!
A boca encarnada, os olhos borrados.
- Lágrimas?
- Chuva.
E posso aguachover, misturada com quem ali estiver: cúmplices inebriados do que está aqui dentro, do que está ali dentro.
A máscara e eu!
Nós duas podemos, em meio aos confetes, doer... languidamente!


o "sentido do carnaval" é anterior ao seu, mas poderia ser posterior

eu te levaria pela mão e ia te mostrar que esse negócio que dizem que já morreu (o sentido do carnaval) tá por aí. imagino que se você acreditasse no carnaval seria mais simples olhar pra você sem sorrir, andar de cavalinho, beijar sua nuca, correr dando risada, pular em cima da cama, te mostrar as batidas do meu coração. é difícil convencer alguém oferecendo tão pouco, eu sei. pra você acreditar no carnaval, teria que acreditar que as coisas não têm um sentido único. teria que achar que nada é mais bonito que um espasmo. você teria que querer esquecer que tipo de sujeito acredita que é. você teria que conhecer e amar a inutilidade de uma ação. as inutilidades são fundamentais, ou não são? se você aceitasse o carnaval, a gente poderia fazer o que temos evitado por pura falta de lógica. se você amasse o carnaval como eu, colocaria sua cabeça no meu colo e beijaria minha barriga só pra ouvir o estalo. riríamos juntos de nada especial. não seríamos mais irônicos publicamente e talvez fôssemos mais felizes. se você quisesse, teríamos todas as terças e quartas, quintas, sextas-feiras e dias que quiséssemos pra tentar

Imagina, imagina

Farras e fitas e eu quero morrer assim no seu colo e tantas e tintas e você é tão bonita assim quando gira em tambores e pandeiros e eu sou tão bonito assim quando tudo gira em guizos e gozos e entra na roda morena pra ver repentes serpentinas serpenteia e me beija e me pega em brilhos e bolhas e pulhas mas você tem tudo tem graça “imagina imagina hoje à noite a gente se perder” em saltos sandálias plumas fitas feitos cores claras cintilâncias imagina imagina...


Caravana

E a vida vai puxando o carro,
água eletricidade aminoácidos.

Carnaval!

Auto da barca do inferno,
ou a procissão dos deuses.

De Teogonia ao Candomblé.

UMA FATIA: FILACANTOS

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
   Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão...” (Drummond)


Gosto de deslizar entre as raízes entrelaçadas, enamoradas
............................filacantos..............................
Esgueirar-me por suas entrâncias e reentrâncias dilaceradas
Colher um pouco do néctar intenso ora aqui ora acolá
Para explodir em arbusto híbrido sobre o solo árido

Gosto de sentir o pulsar do corpo no movimento circular,
...........................sinuoso....................................
Do silêncio recôndito, a deglutir vidas em ceifa atemporal
Aconchegar-me a quem ali adormece calmamente, na vigília
Ouvir os sussurros de quem geme na brisa noturna

Gosto de saciar a sede nos pequenos veios venosos,
.............................embriaguez.......................................
Cambalear no tiro disparado sem direção e sem alvo uno
Deixar livros, amigos, riquezas, vergonhas...dançar velado

Deixar que minha face triste, magra e que meus olhos
.................................vazios................................................
Nem dêem por suas mudanças simples, certas e fáceis
Brincar de querer ser aquilo que a gente não é, quem sabe...ir além.

O deserto e a deriva


relação de amor
em cima da linha
melódica.

outro estranho,
céu e terra,
rosto amigo.

Imensidão
inóspita

Palhaça inversa

Não me pintei de palhaço.
Me pintei de nuvem, fantasia, drama e tatuagem.
Mas nunca de palhaço.
Me pintei de mocinha, fantasminha, borralheira sem carruagem.
Me pintei de puta, homem, cigana, marginal.
Mas nunca de palhaça.
Me pintaram.

Palhaçada Moderna

Pintei meu rosto de branco
Preenchi toda a face num tom
Sobre as bochechas abri um grande riso
Abraçando também a boca
Do olho desci uma lágrima prateada

Olhar a vida sob o prisma
Da alegria...
Na modernidade...
Só se for com cara e boca
De palhaço