Sol nasceu

                                (Tela: Sol poente, Tarsila do Amaral)

SOL NASCEU
    &
       SUA
               EU.

Suado

 Molhados de suor terminam.
 Apressados começaram.
 Ela calcula cada movimento
 Ele sufoca cada gemido.
 O suor
 O grito abafado.
 Ela espera a hora certa
 Ela pondera, ela pensa.
 Ela quer fugir.
 Ele respira. Ele se entrega.
 Ele espera. Ela quer sorrir.
 Os olhos tristes, perdidos.
 O corpo triste, cansado.
 O gemido.
 O calor do quarto abafado
 O fogo do grito abafado.
 O gemido triste.
 Desesperado.
 Molhados de suor terminam.
 O gemido.
 Sufocado.

Certezas, somente quando...

Só quando tiveres olhos de infinito...
Verás como são ínfimas, as certezas que dizes ter
Caberás no vácuo, e mesmo assim te acharás
Teus redemoinhos, tuas obras-primas e teus juízos
Tudo isso será teu e de todo o mundo
Mas somente quando tiveres paisagem de infinito...
Porque os abismos têm fundo
E as estradas, essas que tu dizes querer
Se desdobram para passar em tua esquina
Teu guarda-chuva, se fecha só para a chuva te molhar
Mas tudo isso, só quando tiveres flores em teu jardim infinito
Porque teu sal precisa ter gosto de mar
E o teu saber e o teu sentir,
São tuas entranhas, tua pele, o teu suor.

Anamorfose

Havia ela escrito esse texto; um texto tão particular que cada um que lia tinha impressão de tratar-se de história totalmente distinta daquela que lhe havia contado o amigo, tendo lido o texto alguns dias antes. Mas não era no tempo que a diferença se estabelecia e senão no espaço. Duas pessoas que lessem o texto ao mesmo tempo, de pontos diversos no espaço, teriam razão de uma outra novela; ou de um poema; quem sabe, ainda, de uma nota de rodapé; poderia ser que lessem as duas uma mesma coluna jornalística e que, no entanto, cada notícia relatasse o mesmo acontecido numa cidade inteiramente outra. Seria, então, por haverem lido aquelas palavras que chegariam a conclusão de sua própria existência no mundo, uma vez que lendo distintas imagens diante de um mesmo pedaço de papel preso a uma parede, seriam, assim, depoentes da divergência essencial em que se estabelecia aquela experiência. Sentiriam como se estivessem também sendo lidos quando julgassem, por sua posição no espaço, colocarem-se as vistas de um observador atencioso, que enxergava, para cada visada e em cada lugar, uma história particular.

Era uma vez um dia de chuva

Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.

Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.

Sobre ou sob um pedaço roubado de mim ou de você

Como pode uma certeza se esvair como incerteza?
De modo ingênuo e duradouro perco-me nos vãos que se instalam de nada entre nós.
Vãos espaços.
Vãos espasmos. 
Vão. 
Vão de ir, mais de um. 
Vão de partir um sem outro, um em dois. 
Ele foi e consigo levou parte: nem todo nem nada: parte de mim.
Um pedaço que não se encontra mais.
Arrancou, levou sem pedir.
Roubou-me. 
Roubou-me de mim.
E agora quando o vejo - Ele - não o vejo mais: só procuro o que me foi roubado e nem sei mais, se ele é dono desse pedaço de pecado que tiraram de mim. 
Ou se fiquei, em pedaços perdida, no ar. 
Não sei se sou, se tenho, se sinto.
Só sei que vou, como ele foi e permissiva estou.
Dei-me carta de alforria: alforria da dor da ausência e do tempo mastigado e dificilmente digerido todos os dias pela falta.
Fui e quando vi era pro outro lado. 
Fui como ele, mas algum pedaço desse um dividido em dois decidiu habitar o não-lado do outro.
Amor-maldito, incerteza-tenra, dor-passiva, cor-massiva, pensamento-desalento.
Careço. Padeço. Suplico:
- Me habite em seus olhos para então habitar-me.

Rogaine, Viagra, Olestra

Roberto fez 30 anos semana passada. Sem muito que fazer, chamou os colegas de trabalho pra um happy-hour na sexta. Não tinha mais sua família por perto para comemorar. Seus pais moravam longe, e o seu relacionamento com eles nunca foi dos melhores. Eu sou os cabelos caídos de Roberto

Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.

Assaltantes Anônimos


"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer 
sociedade, é um homem sem nada a perder."   
Malcolm X        

Isso é um assalto! Anunciou confiante. Passa tudo! Vamo, vamo, vamo logo senão leva chumbo agora! A mão firme. O rosto escondido. O corpo protegido pelas vestes. O corpo fechado pelo terreiro. Tá olhano o quê? Qué morre cara, cê tá quereno morre? As chave! A bolsa da madame também! Passa, passa, passa logo cara. Chico, pega tudo aqui, vamo logo, corre qui os home tá chegano. Apressadamente saem da lanchonete dos Jardins. Droga! Essa moto falha quando mais precisa! Duas, três, quatro fortes pisadas no pedal, ela arranca, Chico na garupa. O cachorro louco [1] rasga a cidade.

Ausente à dor

A dor, se não era quase
Era nada
Um nada de prazer
Um nada de vazio incompreensível
Porque se afastara dela assim,
Como se não reconhecesse suas mãos e pernas
Mas iria voltar,
Iria morrer esta
E renascer a outra
Outra, que era ela...

Quase...

Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.

A caixa laranja do arco-íris dourado

Selenita realiza, assim como centenas de milhares de mulheres, uma dupla jornada de trabalho. É secretária de um advogado falido no centro da cidade. Dr. Miguel. E, além disso, ao chegar em sua casa, passa roupa, lava copo, estende roupa e pinta o cabelo. Vinte e quatro horas multiplicadas por três ao cubo. É essa a impressão que se tem observando essa dona

Selenita é uma alavanca, daquelas que aprendemos em física, mais precisamente em mecânica. É só fazer a associação. Não olha nem para os próprios pés. Levanta-se às sete da manhã, sempre com o pé direito, pois isso já a direciona para o guarda-roupa, de onde recolhe sua calça preta de veludo e uma camisa branca amarelada, assim como todas as outras que ainda tem. Depois escova os dentes. Toma café. Escova de novo os dentes e faz uma trança no cabelo (dá mais credibilidade, um dia lhe disseram).


Sobre um Conto de Ninar

Era uma vez uma menina que não se chamava. Que ninguém chamava. Ela não tinha nome.
Uma menina que não morava em nenhum lugar. Ela não estava nem permanecia. Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe. Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava. Que não dizia nada não ouvia nada. Ela não tinha voz nem ouvidos. Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava. Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas não tinha estômago nem rim nem coração ela não tinha nada. Uma menina que era um monte de nada e de nunca. Nada e nunca dentro dela num monturo, no meio do dentro que não tinha fora.
Era uma vez uma menina que não chorava. Não brotava água dela. Uma menina que não ria. Não tinha força para um espasmo de gargalhada, não lhe saía força.
Uma menina que nunca incomodava.
Ela não tinha mãos nem pés nem cabeça. Uma menina que ninguém via.

Mas pairava, uma presença.

Gata BorraAlheia

Em uma era de nenhuma vez, não havia espaço para o faz de conta.

A Gata Borralheira esperava aquele sempre onde seria feliz.

Sem contos de fada, diziam. 
Ouvia-se apenas contos de um fado.

Era só uma borra no fazer de contas.

A mulher de azul

Todos os dias no mesmo andar. O segundo. No mesmo passo. Arrastado e pulsante. No mesmo toque. Mãos leves e que desliza. Com os mesmos pisos. Os mesmos panos. Os mesmos produtos. As mesmas sujeiras.

Uma senhora já de idade. Parece uma vó querida, digo. Não, não pude ter filhos, me diz ela ainda com o seu brilho nos olhos. Uma senhora de brilho nos olhos. De um brilho que parece vida. Um brilho que parece que tem algo pra sair do corpo.

Época de Verão


“Época de verão
Criança, a vida é fácil
Os peixes pulando fora d'àgua
E o algodão, Senhor,
    O algodão está alto, Senhor, tão alto.”
(Summertime, Janis Joplin)

Dirige-se para o quintal, não pregara o olho a noite toda. pega a corda no quarto de trabalho do marido. arrasta-se mais que anda, segue para a sala, pé direito mais alto da morada. não é dona de seus passos. puxa uma cadeira, sobe  nela para encaixar a corda no caibro alto, joga a corda passando-a de um lado a outro da madeira. numa das pontas dá três nós, assegura-se de que estejam firmes o suficiente para suportar o peso do corpo. desce da cadeira com a outra extremidade da corda nas mãos, nesta faz o laço... cuidadosamente, mecanicamente, ajusta-o para o pescoço fino. dependura-se na corda, puxa e repuxa, muitas vezes, tantas que a mesma escorrega até a parede entre a sala e o quarto das crianças e ali se aloja, em segurança. novos puxões para testar a firmeza do objeto, um pouco da cal cai sobre sua cabeça, tons esbranquiçados nos cabelos a branquear... a corda deixa marcas na parede velha. será que a casa suportará o peso? sente-se tão densa! sente-se tão nada! novamente pega a cadeira - o sol anunciava o espetáculo no horizonte, precisa guardar bem tudo aquilo – esconde a corda sobre a madeira. exposta somente suas marcas na parede, ninguém há de botar reparo naquilo. esmeralda levanta antes do sol todos os dias, deixa na cama filhos e filhas dormindo, quando acordarem não terão o que comer. dor. arranjar o que colocar à mesa durante o dia. tem de garantir ao menos uma refeição por dia ou uma refeição a cada dois dias. impunha-se esta missão. deus! não fossem suas crias! pega a enxada, que o falecido deixara sempre organizada no canto de trabalho da casa e parte. olhos não tinham onde buscar lágrimas, tamanha a fundara da dor. pés, protegidos por chinelas gastas, tocam a terra seca do lugar. na vastidão terra, pedras e um pequeno riacho que vinga no outono, traz poucos tons verdes na localidade amarronzada. passa por ali.. tanta beleza no ar.. mas não vê a beleza exterior. o vilarejo é ermo, cinematográfico, muita gente da cidade grande vai até lá para gravar filmes que falam da realidade do nordestino. o cenário nasceu pronto. chega mais um grupo na cidade, esmeralda ignora, trabalha, cava em busca de um milagre. o luto pesa mais a fina tez. não vê, é vista. a magia do cinema à sua frente. a possibilidade de ganhar dinheiro como figurante. Sorteio. será a viúva. ironia do destino, a arte imitando a vida. tem certeza que o papel é dela, não sofrerá para desempenhá-lo. grava as cenas. para o cinema. vê-se na tela grande. é atriz. desperta nela uma felicidade, um sentido de vitória. forças que não sabia possuir. sente que é capaz de fazer qualquer coisa. encara a vida. encara a morte batendo a porta da memória... constantemente. diz não, um “não” rancoroso, cheio de certezas e de renascimento. a vida corre, como o riacho com cores. precisa de arte para viver. cria e recria sua realidade. constrói um castelo com sua criatividade: deposita na calçada estrelas, nas paredes fé, na mesa o alimento, na vida de cada filho a música e a poesia. surgem novos sentidos da vida. a casa é arte, atenta a quem passa. a alma está em paz. na parede da sala, entre a sala e o quarto das crianças.. marcas da corda. Dali, como reféns, somente as marcas.

A medida do gosto

Há quem consiga amar co'a alma
quando o corpo, dono dos gestos amáveis,
imerso em dura e estafante labuta, vacila?

Há quem a arte redima dos golpes
a seco nas feridas e calos, que o faça
querer mesmo o palco ao invés d'uma cama?

A medida da gota era a medida do pó

Lá fora chovia
Cá dentro secava
A medida da gota era a medida do pó

Queria chamar por Cecília
Queria falar de João
A medida do não era a medida do pó

Lá fora molhava
Cá dentro moía
A medida da dor era a medida do pó

Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.

O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Nem uma nuvem ao longe anunciava a vinda de uma gota sequer. Passara já por um bezerro todo feito de costelas que o fez salivar. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.

Declaração de inocência

No banco dos réus, o cérebro permanecia calado, astuto, certamente maquinando sua própria defesa, enquanto do outro lado, uma promotoria sem papas despejava verbos e verbos contra aquele pobre músculo, cujo uso - assim a língua dizia - enrijecia a alma e desprendia o corpo de sua mais fresca humanidade.

Pelo banco das testemunhas passaram fígado e rins, estômago, olhos, apêndice (este, refutado pela defesa na simples confirmação de sua franca inutilidade), mãos e genitália. Subia, agora, a voz que mais se esperava e fez-se silêncio no recinto quando, chamado ao juramento, o coração se apresentou. A língua amaciou seu tom, que antes vociferava sem calculo ou pudor, e fez do drama, que agora se inclinava diante do júri como uma orquestra silenciosa, o cenário ideal para esse depoimento. Falou o coração. Repetiu-se algumas vezes numa oratória que dizia não apenas criminoso o cérebro, veículo marginal de uma tão seca premissa, mas condenou com ainda mais veemência sua protetora, progenitora e religião. Disse, dentre outros adjetivos cujas descrições não serão aqui alarmadas, da razão: intolerante, abusiva, autoritária, insensível e frígida. Esse último, repetiu-o sete ou oito vezes, e desandou um lamento que comoveu até mesmo os ouvidos, que tentavam até ali se por na imparcialidade de orgãos sem filiação.

Na quadra.

tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum

E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...

Primeira de Mangueira

O sambista: gari, bacharel, manobrista.
Pai de Santo, pau de arara. Autista:
O sambista está dormindo,
Mas não tarda em acordar.

Alvorada, o dia, à tarde, à noite,
a madrugada toda, raposas e gatos,
macacos e ratos fuxicam,
fornicam e fuçam, e roncam.

Estação

Perdi o ultimo vagão para a estação triste
Caminhei nos trilhos como se fosse feliz
Aprendi que as pernas seguem os pés
Em qualquer trilho que se sabe aonde quer
Passeio de pedra em pedra
Uma no bolso
Outras para trás

Minha música muda

E naqueles olhos eu morri.
Calei minha voz aguda.
Perdi!

A luz, o palco e o movimento

Há uma lebre morta embaixo da primeira cartola.

Há uma lebre morta embaixo da segunda cartola.

Há uma lebre morta embaixo da terceira cartola.

Embaixo da quarta cartola, há uma lebre morta.

Há uma lebre morta, também, embaixo da quinta cartola.

Há uma lebre embaixo da sexta cartola: morta.

Há, morta, embaixo da sétima cartola, uma lebre.

Há, enfim, lebres mortas embaixo de uma oitava e nona cartolas.

Eis que o mágico, então, uma cartola levanta – a décima.

Obscura luz

O jardim da noite cidades em chamas,
enxames de abelhas de luzes elétricas.
Mas damas e rainhas ainda perfumam o ar.

As sombras estão cheias
de cores, pulsos e sangue.
O silêncio que ouço no barulho,
e o seu contrário multidão.

Parabólicas Bucólicas

“Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
 Traz do sonho pro mundo quem já não o queria
 Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia” (Paralamas do Sucesso)

Na cidade estendida qual rede a quarar
O corpo desfalece clamando por água e sal
No ar circularidades de ondas a invadir
Ouvidos e corpo inerte
Que valem as ondas invisíveis a nos vigiar?
Que valem as ondas levando e trazendo
Notícias de um mundo fantasia?

do que somos

Meu amor
Quando você fez em mim espaços de aterrissagem
Cheio de promessas de flores, frutos e vôos
Não olhou pra terra nos meus pés

Toda sorte de presentes
Todo gosto por partilhar
Me fazem desembocar no mar
Fluindo leve
Feliz pleno até do perfume
Mas olha: não vou sozinho
E muitos deles, não sabem nadar

Fragmentado

Há dias na estrada. Não me acostumo com a distância. Não essa. Horas a fio tecendo com o olhar uma geografia longínqua e estia, quiçá até íntima, já nem sei, agora que até meu corpo parece às avessas, sem lugar, se confundindo a tudo que me é solidão. Tudo que me é memória. Um indício ralo deixado lá atrás, a quilômetros de distância daqui, esse ínterim roçando cada pedaço de chão a que aporto. Agora mesmo levo o cigarro à boca com os olhos lá fora no estacionamento, tão longe que me perco em mim mesma, a poeira cobrindo o capô do carro e tudo a volta. E Deus parece a milhas distante daqui, faz vista grossa a nós duas, vê?, talvez nem ouça Dylan baixinho no rádio como eu o faço, com o cigarro na boca e lembrando que dias antes de apagar cada prova de minha antiga vida e bater a porta e dar com o dia me pesando sobre o dorso feito dúvida, dias antes eu me decidira por você. Sobretudo me decidi por você, deitada rente ao sono. Ainda levo os sentimentos nos poros, junto aos grãos de areia, em cada ranhura de minha pele, no talho sob as gazes feito guardados de memória. Talvez não me livre disso, logo vira cicatriz e a leve comigo, atada aos pulsos. Trago o cigarro com ânsia, certa gana nesse corpo cavo, ausente. Não durmo. Fecho os olhos. Sob as pálpebras fantasmas se esgueiram no breu, meio da noite ainda, feito os pesadelos de quando criança, quando a madrugada salivava suas sombras no teto e eu temia me debruçar sobre o sono para não mais acordar. E então não dormia, feito agora, insone, e tecia minhas fugas horas a fio. Até crescer, descobrir o corpo, um dique que não se rompia nunca, mesmo que eu quisesse, ainda que me esvaísse pelos pulsos, não se rompia nunca...

Semente

Tenho sede do mundo,
Como se o mundo me tomasse em arrastão
Tenho fome de carnavais lunares,
De rasos profundos
Como se eu fosse inteira cometa,
Como se as vozes fossem trombetas
Anunciando as marés e luas cheias

Tenho um mundo explodindo nos poros
A sair pelas narinas
Chamado pela luz do sol, pelas gotas de chuva
Pelo suor da minha dança,
Que prepara um rito,
Para o arrastão passar

Liberdade embalada

Olhou para a porta, pensou em como seria bom poder sair dali e pelo menos um dia (depois de tantos) ver o sol partir. Mas lembrou da nova máquina de ponto que instalaram há algumas semanas e olhou para os dedos, ainda faltavam duas horas. Portanto, se ausentar não podia.

O despertador era programado para todos os dias tocar no mesmo horário, pensou em desliga-lo, mas isso seria descontado no final do mês. Acordou, como de praxe, as 5:30 da manhã.

Pensou em dizer o que pensava, mas seria chamada de insolente pelo cliente e isso lhe custaria bem caro. Calou-se.

Embalo da Liberdade

Experimente
Sair de cena
      Ausente-se!


Experimente
Chegar mais tarde
           Desligue-se!


Experimente
Dizer o que pensa
          Distraia-se!


Experimente
O silencio...


Experimente
Ser bem livre
Isso, mais do que experimente!


Pra ver se é
Bem isso mesmo...
Que te embala
Livremente...

Memória

Certa vez, em alguma esquina da vida, encontrei um garotinha, linda, seus traços beiravam a perfeição, apesar de suas imperfeições caóticas, era linda.

Olhar expressivos, confusos a ponto de não se decidirem nem quanto a cor, apesar da aparente confusão, por vezes decididos, por vezes inseguros, transmitiam alguns sentimentos e informações nobres, a quem tivesse o interesse, a paciência e capacidade de desvendar.

Vivia como em uma espécie de mundo só seu. Com seus fantasmas, suas angústias, seu (des)amores, suas alegrias, suas tristezas, suas fantasias, loucuras, perversões.

da solidão

no peito
um deserto
inteiro, sem reservas
me abocanha
o ser
- esse verbo
latente
habitando as reentrâncias
da geografia tortuosa
do corpo

Cabotina ironia

Do outro lado da rua
em frente ao espelho
a terceira margem do rio:

A linha de fuga
no horizonte virtual
de uma solidão fragmentada:

Algo se debate
que não fica à vontade
e na deriva se deixa levar:

em multiplicidades.

Penteando a barba

A literatura que se instala em meu peito não é aquela que me alcança através dos olhos ou dos ouvidos, senão a que tem olhos e ouvidos próprios e me encara diante do espelho. Mas, então, responda-me seu grandessíssimo cabotino: Por que tanto amor dado a si e nem ao menos bom-dia a uma pobre alma que estende a ti sua voz do outro lado da rua?





Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.

Hotel Amargo

Surpreendeu-se com os olhos fixos no teto. O olhar dele, que antes percorria inquieto as coisas e o mundo, as coisas dentro do mundo, ou o mundo dentro das coisas, agora dera para estatelar o nada. Olhou para dentro de si mesmo. O tempo correu. Surpreendeu-se olhando para dentro de si mesmo. Desviou os olhos. Pensou que deveria acender a luz do quarto, passava das seis horas da tarde, o escuro aparecendo e dramatizando tudo, pinceladas expressionistas sobre sua incapacidade. Paredes, móveis. Permaneceu deitado, porém. Fitou os pés magros aparecendo na barra da calça do pijama, brincou um pouco com os pelos lisos da barriga. Cruzou os braços sobre o peito, tentando encapar o movimento com o embrulho da superioridade, mas conseguia ouvir o barulho do chuveiro em que o outro se enfiara, imaginava os olhos dele ardendo por causa do xampu barato. Sentou-se na cama, bruscamente.

Era estranho. O quanto sua capacidade de enxergar aumentara, a partir do momento em que passou a usar os olhos dele. Quando era criança, costumava achar que o mundo terminava naquela linha, naquele limite redondo que a vista alcançava. Ficava imaginando que se a pessoa desse um passo além do horizonte, essa pessoa cairia. O que antes era apenas intuição, agora se tornava uma verdade. Ele foi além, e caiu.

íntimo

... Trazia os olhos sobre uma memória, e a fiava com o silêncio de quem pura e simplesmente se pega a remoer o passado numa dobra ou outra do dia. Não a notariam - não ali sob o finzinho de tarde, com os olhos sobre o guardado de fotografia que trazia consigo, amarelado, alguns rostos (felizes?), o passado alinhavando aquela lonjura de anos a fio - ranhuras, as nódoas na pele, já cansada. O tempo, esse que mal sabe, mas tão presente agora. “Cá dentro não me esgoto, me farto”, ali, dedilhando sentimentos, “palavra dá corpo a sentimento?”, perguntava-se. Sabia mesmo que tardes iguais àquela roçavam o peito, e se por segundos fechasse os olhos, num gesto vago, lhe brotaria sob as pálpebras a saudade de um amor feito lá atrás, quando ainda não era ausência feito agora...