Copa online: deu a louca no piloto


Estávamos preparados para o embarque quando, de sua cabine, o piloto anunciou que a Copa do Mundo de Slam este ano aconteceria online. De modo autocrático, comunicou ainda que para prosseguir viagem deveríamos aceitar seu cego plano de voo.

Entendo slam como espaço do encontro. De ver, rever pessoas. De trocar energias, sensações, impressões. No caso da Copa, de conhecer outros poetas de vários países, com línguas e sotaques diversos. De ver o mundo e ser visto por ele.  

Essa relação se rompe, evidentemente, com a pandemia do COVID 19. Porém haveria a possibilidade de suspender e remarcar o evento para após o fim do isolamento social, como fez o comitê olímpico do Japão, ou fazer online, e esta foi a opção por ele escolhido. O criador do slam Marc Smith denomina os coletivos que organizam slams de “comunidade”, ou seja, uma coletividade em comunhão unida geograficamente ou por afinidades. Até pode ser comunidade se pensarmos nos territórios onde são feitos livremente por grupos em autogestão ocupando as ruas, unidos por identidades de raça, classe, gênero, sexualidade, mas não me parece que se este termo se adequa quando se trata de um evento unificador. Não dessa maneira.

O realizador, possivelmente, consultou algumas pessoas para tomar esta decisão, mas não houve diálogo com as organizações e tão pouco com os poetas representantes, ambos foram pegos de surpresa. Não é de todo mal se adaptar às novas exigências temporárias e explorar outras possibilidades de se realizar um torneio de poesia falada. Mas numa comunidade, se imagina a horizontalidade das relações para se definir os caminhos. Um dos elementos que nos une é a concordância.

Sendo online poderia ter escolhido jurados de diversas partes do mundo, (já imaginou que lindo seria?) e não somente seus amigos franceses dos condomínios de Belleville. O modo impositivo e desrespeitoso que a produção do evento já vinha tratando alguns participantes, em especial, uma participante com dificuldade de locomoção, chocou a comunidade internacional de slam gerando um pequeno boicote em 2018 fato que não abalou a sua estrutura.

A Copa do Mundo de Slam, o Grand Slam Paris, ainda é o maior e mais prestigiado evento desta modalidade. Desde a época das companhias de teatro italiano da Idade Média que o sonho em se apresentar em Paris persiste nas mentes dos artistas e em nós latino-americanos isto ainda é potencializado pela nossa história escravista. Sonhamos com o auge, em um dia fazer sucesso na Europa ou nos EUA, por exemplo, os jovens jogadores de futebol, eles não se satisfazem em jogar em clubes brasileiros, pra serem consagrados precisam passar pelo Real Madrid, Barcelona, Milan, PSG e, haja vista, com os jovens slammers não é diferente. Aqui não basta ganhar no Brasil, nem para quem faz e muito menos pra quem acompanha, não te traz o mesmo prestigio. Eu mesmo participei em 2014 e até hoje consigo trabalho e entrevistas em virtude da minha participação e colocação no mundial. Este evento foi fundamental pra mim e gostaria que a organização reavaliasse seus erros. Pois isso mexe com os sonhos de centenas de pessoas pobres.

A transferência do evento presencial para uma live poderá limar a chance de um poeta periférico latino-americano ou africanos que nunca saiu do seu país de origem, e que possivelmente nunca sairá, poder viajar pela primeira vez, e dessa maneira conhecer outra cultura, comer outra comida, ver a Torre Eiffel, a Notre Dame, visitar o Louvre, encher seus pais e amigos de orgulho. Vencer pela poesia!  Fazer slam virtual é como visitar o Metropolitan pelo site, como jogar FIFA Soccer. É praticar um esporte coletivo, individualmente. Nada substitui a experiência corpórea, ao vivo. 

Vou dar o start, como faço em todas as edições, porque amo esse jogo e vou torcer pro Brasil, pra América Latina, pra África, e caso todos esses saiam, como habitualmente ocorre, vou torcer pra alguns europeus que são ótimos performers. Como sempre a conexão vai cair. E o piloto continuará enviando mensagens natalinas improprias pra menores no meu messenger. 

Seu coordenador chama-se Pilot Le Hot e dirige com habilitação vencida, sem freios, sem retrovisor. O slam é a sua moto e nós estamos a pé ou em sua garupa, sem capacete, a duzentos quilômetros por hora, ignorando a sinalização. Marc já idoso e longe não consegue ou não se propõe a frear o inconsequente piloto.

Essa tal autonomia que cada comunidade tem de fazer a seu modo permitiu que o comando fosse assumido por um desajustado pouco preocupado com acessibilidade, transparência, inclusão e com sonhos de países subdesenvolvidos. Como não gostamos da polícia e somos contra a intervenção militar, não acionaremos a lei e nem o faremos pela força, deixaremos que se acidente sozinho numa curva sinuosa da vida. E faremos nós, o nosso próprio mundial.



Emerson Alcalde, 14/05/2020

Retrospectiva 2019




Este foi o ano que mais trabalhei na vida, sem sombra de dúvidas. Depois de muito batalhar e persistir posso dizer que este ano de 2019 prosperou. Foram muitos convites, muitos projetos aprovados, e tantos outros propostos. Agradeço de coração a todxs que fizeram parte da minha caminhada neste ano.

No finalzinho ano anterior havíamos ganhados dois editais: Pelo Slam da Guilhermina o Fomento à cultura da Periferia com o projeto “Das ruas para as escolas, das escolas para as ruas”, e também para o meu primeiro romance “Diário Bolivariano” o PROAC publicação prosa. Ambos com projeto gráfico da Yan Comunicação.

Com a Guilhermina voamos no trampo fazendo vários eventos paralelos as nossas edições mensais: Sesc Belenzinho com o Minchoni, Sesc Guarulhos com o Slam do Prego, Centro Cultural de Volta Redonda – RJ, Biblioteca Mário de Andrade. Realizamos o Slam Interescolar Nacional com a participação de cinco estados brasileiros no Festival do livro e da Literatura de São Miguel. E colocamos em prática o projeto do Fomento mantendo as edições mensais com mais pessoas trabalhando na produção e melhorando a comunicação ampliando o número de seguidores nas redes sociais e nos eventos presenciais. Porém o maior destaque vai para o Slam Interescolar SP com a participação de 80 escolas. Contando com 9 poeta-formadores que fizeram um digno corre nas escolas. Coisa linda de viver.

Um dos grandes saltos foram os encontros formativos que participei. Iniciei o ano com o Curso de Extensão de Slam na SP Escola de Teatro. Foram 18 encontros corridos de segunda a sexta com um turma maravilhosa. Tenho orgulho de ter ministrado o primeiro curso de extensão desta área. Aí o ano já se mostrava que seria cheio e intenso. Na sequência ministrei um curso de slam de três dias no Sesc Avenida Paulista.  E outro de três semanas no Sesc Campinas. E sequencialmente e sem descanso: Na Oficina de escrita na Oficina Cultural Alfredo Volpi pelo Slam da Guilhermina. E de Spoken Word no Sesc Pinheiros com Luiza Romão, Seminário de Educação da Casa das Rosas, no Instituto Singularidades para alunos do curso de pedagogia, Seminário DRE São Matheus para professores de sala de leitura, um workshop para o Slam do Grajaú, formação em slam para educadores das Fábricas de Cultura da Zona Leste, palestra para alunos do curso de letra da UNITAU em Taubaté. Totalizando 11 atividades formativas de slam neste ano.

Os slams dos quais sou slammaster continuaram firmes: Slam Jazz e SÓFÁLÁ, com edições regulares valendo vaga para o Slam SP. Realizamos a terceira edição Torneio dos Slams – Estéticas das Periferias e neste ano ganhamos um dia a mais e em um novo lugar, mantivemos as fases classificatórias na Casa das Rosas e a final no Instituto Moreira Salles.

Voltamos em cartaz, após cinco anos da nossa estreia, com o espetáculo “A cidade dos rios invisíveis” do coletivo Estopô Balaio e fomos indicado ao Prêmio Shell na categoria inovação.

Fiz a curadoria para a Coleção Slam pela editora Autonomia Literária com a publicação de quatro livros com autores de todo país divido por temas: Antifa, Empoderamento Feminino, Negritude e LGBTQIA. Cada livro com 10 autores sendo 3 poemas de cada autor. Lançamos no Salão do Livro Político da PUC - SP e na FLIP Parati dentro do Barco Pirata da FLIPEI e na Livraria Martins Fontes.

Livros que participei como escritor ou como de alguma outra maneira: Fórum de Cultura da Zona Leste, Slam Fluxo, 10 anos de Arte e Cultura da Kebrada e Movimento Cultural Ermelino Matarazzo.

Lancei o meu terceiro livro, e o primeiro romance, Diário Bolivariano na Biblioteca José Paulo Paes, na Penha e na biblioteca do SESC Avenida Paulista com a participação do grupo Apenas um sarau latino-americano depois circulei por diversas bibliotecas comunitárias, saraus e slams. Lancei na Feira de livro de Alfenas – MG, Biblioteca Municipal de Pindamonhangaba – SP, Festival do livro e da Literatura de São Miguel.

Gravei dois filmes com o diretor Cristiano Burlan: um sobre a vida de Paulo Freire pela TV Sesc e outro chamado: Batalha, um filme só com poesias que estreou no Festival de cinema de Brasília e em breve no circuito.

Fui convidado para ser jurado num slam de uma edição especial coordenado pelo Slam das Minas SP no CEU Aricanduva, no Slam Pavio Curto no Sesc Osasco, no Sarau dos Mesquiteiros no Sesc 24 de Maio, Intervenção no Sesc Guarulhos com Cleyton Mendes, FLIP, FLUP. Encruzilhada poética no Al Janiah. ZAP! SLAM, Cooperifa, Sarau Casa Amarela, Slam do 13.

Mediei uma mesa na FLIMA em Santo Antônio do Pinhal com a Mel Duarte e outra com Miriam Alves e Elizandra Souza no Sesc 24 de Maio.

Participei do Slam México (devo um texto só por esta experiência) com uma performance e uma conferência sobre slam no Brasil. De quebra ainda conheci o Panamá dei um rolê e conheci o canal do Panamá. Com estas duas viagens agora eu já conheço oito países.

Me filiei ao Partido dos Trabalhadores com a assinatura de Fernando Haddad. Não vamos deixar a direita dominar o congresso. Temos que ter os nossos lá e esta será a minha luta. Vou apoiar pessoas que entendo como representativas e com condições de fazer o enfrentamento politico e eu continuarei na rua na luta com a literatura marginal.

O último trampo do ano foi no melhor estilo fazendo parte da produção artística do Slam BR no Sesc Pinheiros. Acompanhei os 23 poetas que concorriam ao título de campeão nacional. Conheci pessoas maravilhosas nos tornando amigos. Kimani irá nos representar na França. Vai ter queima!

E o derradeiro evento foi para confraternizar com a família e com outras pessoas queridas no jogo do Amigos do Lula e do Chico Buarque e Amigos do MST no campo Dr Sócrates na Escola Nacional Florestan Fernandes em Guararema. Futebol, arte e política. Que ano incrível de potente. Finalizo exausto porém feliz com as conquistas e com a novas amizades e torcendo para que 2020 seja ainda melhor.

Ração


O que significa um governante oferecer ração para seu povo?

“Mas eles tem que comer! Se dêm por agradecidos por terem o que comer. Afinal, pouco se morreu de fome nos últimos anos!” (entortada política) Corta!

Darcy Ribeiro, em reportagem: “A classe dirigente (da política brasileira) é tacanha! Pra ela, pobre é carvão pra queimá, nada mais”. Corta!

A industrialização da comida, matrizes rurais de toda ordem (a nível global), latifúndios, plantations, as colônias de judeus na Palestina e abatedouros de animais (aproveita-se até a última tripa do osso). Corta!

A idéia de Tekoha, de uma terra de pertença, onde tem um rio, um riacho, uma queda d’água na colina; vai até ali, naquela cumeeira do morro, embaixo tem outra. O jeito de plantar junto Mandioca, Feijão, Amendoim, pra nascer tudo junto, mas cada um na sua época certa. Corta!

Várias cenas são possíveis, comendo a gororoba, várias formas de cerceamento e coerção – coesão na “gestão do coletivo” (cara de aspas bem cínicas com mexida no dedinho), outras associações, das mais indigestas às mais inusitada (feijoada foi feita a partir de ração?), mas sobretudo aquela idéia que qualquer mente burguesa esclarecida ou comunista inverterada hão de concordar na mesa do bar, a idéia de que a comida, a janta, o almoço, o café da manhã, a própria idéia básica e divina de nutrição é algo que, pelo menos à luz dos holofotes, deveria se realizar como algo sublime – muitas vezes grotesco e soberbo – e sagrado, um ideal social-democrata plausível de se cumprir. Só que não! Corta!


Novas formas de reinvenções são necessárias, a partir da guerra que existe a partir daquilo que é considerado normal, passando pelo plausível e a prática do tosco, tacanho e terrivelmente bruto e violento, até aquilo que é considerado absurdo e inaceitável, e que, numa “perda da razão”, até mesmo o indivíduo mais são pode fraquejar, entre os acasos da inevitabilidade. Existem outros meios?

em resposta à uma inquietação da Isabela Penov

Porta

De um lado os pássaros cantam
São muitos, vários, fazem sinfonia
Festejam a alegria do alimento
O vento na folhagem, a liberdade
Um olho na vida, outro na morte
Conversam conversas de pássaros
Pulam de galho em galho e fogem satisfeitos

Do outro lado a casa dorme
Embalada pelo canto dos pássaros
E os sonhos de pássaros vagueiam pelo lar
Aromaticamente o café convida ao bom dia
Não, os pássaros não tomam café
Os pássaros brincam de esconde no cafezal
E a casa adormece na cidade cinza


Passarês

Todos estranharam!
Quando anunciei minhas intensões musicais,
foi na aula de música da escola primária
que prenunciei que seria flautista.
Estranharam, pois alguém de minha índole
não possuía o estereotipo de um flautista!
Aconselharam-me quanto a pouca virilidade do instrumento,
quanto o insucesso ante as garotas,
mas eu só tinha oito anos,
não conhecia de fato tal pretensão.
Em busca de patrocínio a esta empreita,
convenci minha mãe com certa facilidade,
mas quanto a meu pai, precisei citar chorões,
como Altamilho Carrilho e Waldir de Azevedo,
afinal, falar em samba para o velho era apelação.

Não contei minha real cobiça a ninguém,
mas acreditava que flautistas falavam com pássaros,
eu intentava aprender tal idioma, o passarês.
Quanto a musica, disseram-me que aprendi tocar depressa,
mas não observaram o tempo que levei pra gorjear.
Foram poucos dias para executar sabiamente todas as notas,
mas demorei meses pra diferenciar pio de silvo.
Em alguns anos executei a Primavera de Vivaldi em um concerto,
mas o bastava o tempo mudar e eu tocava pro outono,
para o verão ou pro Luar, para amores e não amadas,
para amandas e amigos,
para o medo ou alegria...


Os anos se passaram,
e envelhecemos,
eu e minha flauta.
Já não sei se na verdade foi bem essa a história.
Mas sei que hoje pela manhã um saíra-azul
que pousou em minha janela,
disse-me que eu era um velho louco,
(Onde já se viu? Velho que fala com pássaros)
e antes de sair voando ele anunciou que choveria,
me convidou para ouvi-lo acompanha-la a tocar
os concertos de Brandemburgo de Bach.


Allan Sobral

Mordeu. Feito manga fiapo nos dentes.
Lambuzou-se rosto, pescoço, mãos.

Escorreu. Peito, barriga, sexo.
Pés inundados.

Poça de gozo-fruta.
Bruta.

Enfim...chão.

Exercício Cotidiano

Veio se arrastando pelo chão
...de costas.

Ergueu as pernas longilíneas
Em cruz se exercitou.

Emitiu um grito gutural.

Vagarosamente... abriu as pernas
...até que os pés tocassem o chão.

...maliciosamente...sorriu.


Tudo que é Nação se estilhaça no ar

O estandarte da liberdade se abre a tempo
De ver os filhos, os pais, as avós e os sobrinhos
Em ritmo estonteante de anarquias diversas
Rodas gigantes tão gigantescas,
Que engolem ventos, moinhos, desafetos
Bolas fantásticas que se encantam diante dos olhos
Fazendo a maior incrédula acreditar em presságios
Tudo isso, para ter na boca um pingo de gosto
Do que é ser uma nação

Diziam por aí que nação é coisa de povo unido
De gente forte
De guerreiros tão valentes, que nunca fogem de nada
Nem da própria morte
Mas morrer pela nação é algo tão surreal
Quanto ter boca para comer toda a comida do mundo
Ou ter fome para matar a gula de poucos
É, nação deve mesmo ser algo de contos que contam por aí
Nesses cantos longes que não sabemos como chegar
De um Estado tão, tão pequeno, que não se pode ver
E morrer pela nação, avalie!

Mas também contam – isso eu ouvi de línguas populares
Que ter nação é sofrido
É doído como cair de um prédio e não morrer
É cruel como ter casa e não poder voltar
É tão angustiante, como ter chão e não poder andar
Sofrido, que nem fome dá
Ou dá, mas é tão vazio,
Que é como comer e não saciar

Imaginem então, como é ter nação inventada
Maquiada, figurada, animada
É como que se desmanchasse no vão
É como se não tivesse nunca,
Escutado essa palavra
Essa junção de letras e sílabas, que se espalham e partem
E se estilhaçam
Como os fogos
Que estouram por toda parte...

A Fera, O Poeta

Com a barba por fazer, papel e caneta,
Mais uma vez ele rabisca a noite,
E suas fantasias com o luar...
Um Marlboro vermelho queimando suave,
Enquanto ele assistia sozinhos os infinitos, ·Esbanjando sua inutilidade.

Ele ri
Ri bêbado, (sem álcool) das piadas (sem graça) de dor que a vida lhe fez,
Enquanto sua companheira Solidão enciúma-se
Da beleza que as estrelas perdidas do infinito dão ao poeta
Ao beijar seu rosto cansado,
O beijo de luz destaca uma lagriminha cortante e lenta,
Carregando uma nova poesia ébria.

É ele o tal poeta,
Que faz samba de valsa, e chora velórios de gente viva,
Que se perde antes mesmo de acordar,
Que brinca com o os sim's e não's sociais, encontrando e perdendo-se...


Oscilando entre um vago momento da sua loucura,
Um momento que não sabe se dor passada ou medo futuro,
Loucura de sinestesia, com aroma, cor e frio...
Loucura tipo Dali, loucura Piatam, loucura Drummond, loucura Cristo... Sei lá
Disfarçadamente louco...

Já não reconhece qual de seus muitos eu’s era o poeta,
Qual fragmento daquele luar, daquele malandro, daquele vagabundo,
Não sabe onde tornou-se o descontrole das emoções alheias,
O historiador das meretrizes, herói das donzelas, o filho dos pais e putas!
Tornou-se fera...

Escondido a traz de sua erudição poética, elegância eclética, rebeldia simétrica!
Tornou-se Fera,
Com garras e fome!
Com frio e sede...
Acordando, escondendo-se, comendo e chorando.

Machucando-se pela sua inconstância,
Em suas overdoses, porres, e madrugadas vadias,
Sendo sempre “A Fera”,
Enobrecido ao titulo “O Poeta”.


Allan Sobral

Cantos de Fera

'Ela é uma mina versátil
O seu mal é ser muito volúvel” (Fogo-fátuo, Chacal)

De um canto ela surgia assim, sem tirar nem por, abrilhantando o ambiente
Esmeralda adentra o recinto qual vulcão em erupção abrupta e feroz
Pernas num molejo ancestral avançavam pela passarela sinuosa
Em movimentos cheios de cadência, sensualidade e atitude
A noite só estava começando e ela estava pronta para impulsionar vontades
 
A cinta liga preta presa aos quadris sorridentes ondulava nas curvas sinuosas
Anfitriã, era exibida abertamente por debaixo da mini saia prateada justa
Os elásticos esticados sobre a coxa esguia convidavam ao luxo e prazer
A cada presilha aberta no acabamento rendado da meia, murmúrios impuros
Cantos avessos pelas mesas, redondas luas espiavam perplexas, caladas
 
Nos cabelos loiros uma flor vermelha liberava aroma almiscarado no ar
Embriaguez nos lábios negros ornados de explosões estelares misteriosas
No canto do olho esquerdo uma lágrima suspensa gemia... cristalina
Enquanto a tez pálida invadia as faces famintas do recinto casual e abafado
Mãos a buscar alento nos vãos do viver coletivo e insano do ser
 
O salto agulha negro avançava e esmagava os sonhos expostos na vitrine
Abrindo caminho, deixando rastros de fogo na queima veloz e efêmera
Fumaças movidas por braços embalados ao som do rock’n roll hipnotizavam
Luvas carmim... faíscas raivosas arremessadas a esmo pelo recinto escuro
Deslumbre, fetiche a vagar no palco entrecortado do ser moça criança

Longas unhas escorregavam insinuantes da boca para os fartos seios em riste
Servidos quais taças de espumante no sutiã dourado ornado qual seu nome
Banhados por miríades acanhadas que caíam diretamente do teto escarlate
Para saldar a beleza da fera a invadir a mata hostil... sorrateiramente
Guerra que avança numa constante e insana marcha do ataque a mão armada
 
Entre baratas, lixos, restos e mortos... derramava sonoras gargalhadas
                                   ...a cada canto filado....
Dançava, rodopiava, curvava, exibia o rabo e rastejava incansavelmente
Traduzindo a volúpia da roupa cara e suntuosa no seu interior íntegro
Felino, sombrio, revolto e impiedoso com seus algozes surreais que gemiam

 

 

 

 

 

 

 

O Fila Cantos



Todo mundo fila um canto em todo canto
vivemos filando a vida inteira
filar um canto em todo canto é uma regra
que une todos num só poema

Todos vivemos de filar, mas o sistema
finge que inventa aquilo que fila
dos esforços que rouba
Por isso eu filo, tu filas , ele fila
um olhar, um conto, um canto em todo canto
praticamos a arte de ser humano

Gosto de filar uns raios de sol nas manhãs
Gosto de filar o calor dos abraços do meu amor
gosto  de filar uma viagem em seu poema
filar um sustento do seio da terra
filar dos mares e desertos a dose diária
e pagar sempre com a alegria
de criar mais uma página de poesia

Seguimos juntos
Nos encontramos no caminho
cada qual com seu canto
encontrando-se nos cantos
sentindo-se menos sozinho
repartimos nosso pranto e nosso gozo
nosso canto e nosso sonho
tecendo numa teia de poemas
nossos medos nossos dilemas
dividindo o encanto
vamos nos transformando
criando raízes profundas
vamos resistindo ao calor do deserto
buscando nos lençóis subterrâneos
e nos abraços das raízes
segurar as chuvas que caem do céu
aproveitar cada gota de sua riqueza
para fabricar a seiva de nossas vidas

As lágrimas e o suor que escorrem de nossos corpos
regam essa semente acostumada ao clima hostil
vencendo o inverno a planta desse canto
flori como quem sorri debruçada nos abismos
cheia de dor e amor, graça, flor e espinho

Seus frutos semeiam labirintos nos morros
aprende com seu caos, participa de sua história
vamos juntos até o final, nossa maior glória
nessa luta desigual, semente anscestral
é desafiar a miséria com nosso ideal
reduto de esperança de justiça nessa terra
pela força com que se une a raíz
lança sua mensagem universal

Serendip Smash Brothers




Serendipidade

Príncipes de Serendib, Horace Wallpole
Capacidade de observação e sagacidade
Descobertas inesperadas para dilemas impensados

Sri Lanka, Sânscrito, Terra Resplandecente
Acentuando o grego, Tabrobana, Tamraparni,
Thambapanni, cor de cobre, o porto Kudiramalai
Tamraparni, Budismo Theravada
Na primeira estrofe de Os Lusíadas
Uma jornada além da Terra, a Atmosfera e o Ar

Enquanto macacos comem bananas
三猿 Mizaru Kikazaru Iwazaru
Homo sapiens sapiens cospem dinamites bombas atômicas
A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica



Deslumbre ou Para Januário (F.)

Acostumada com sua pequenez deslumbrava-se diante dos olhos dele. Ela que facilmente acostumava-se com o pouco, afogava-se agora diante da imensidão do azul velado. Como na história bonita que inventava quando menina...
Do alto de sua janela vislumbrava o céu também azul forrado de nuvens brancas. O tapete do céu era contraste com a dureza da sua fala. Não era boa em falar, soava bruta! Confundia–se com as inflexões! 

                       “Perto de você me calo, tudo penso nada falo...”
Mas não calava e ao tentar falar soava fora do tom :
Soava menor -  "Quero te ver!' virava -"Vamos beber cerveja?" ;
Soava fuga -“ Não entre em meu quarto” quando “ É que lá habita a bagunça dos dias solitários”;
Só o “ai, ai” queria dizer “ai, ai” :  ai de desejo, ai de suspiro - Soava barroco.

“Deslumbramento atrapalha o verbo”, pensava. Melhor mesmo só pensar porque pensar era natural: dentro dela era um eterno livro narrado sem pausas para o almoço. A ininterrupta transformação de galho de árvore em pássaro pousado.
(Borboleta amarela passa diante de seus olhos! Silêncio.
- Vida de borboleta é breve!) 
Pensou.
Deslumbre! Des-lumbre!   
E ainda numa brincadeira pensou. 

"- O deslumbre me escurece a fala."

"Amélia"


No limiar do céu escarlate
Amélia requebrava
Unhas compridas prateadas
Riscavam as estrelas
Braços alongados
Rodopiavam
As volumosas ancas
Pediam passagem
No movimento alegre
Risos morenos
 
Do pandeiro fez seu palco
Da cuíca seu lamento
Das estrelas estandartes
...rodopiava faceira
Os olhos arregalados
Gritavam por Januário
Enquanto o surdo moreno
descia a ladeira soturna
no cortejo vagabundo
de bêbados e prostitutas
 
Subiu assim Januário
Pros braços da doce morena
Figura singela e pacata
Sabia o homem encontrar
Amélia “mulher de verdade”
Como aquela nunca vira
Assim passou pela moça
E não a reconheceu
Mal sabia Januário
Que no céu tudo é às avessas

Quem é doido
Vira Santo
Quem é pobre
Fica rico
Quem chorava
Só sorri
Desalmado
Ganha alma
Deslumbrado
Ah, este continua....

 

 

Cozinha da carne


Desce a ladeira a marcha fúnebre
dos vagabundos e prostitutas,
gargalhando extravasados
“fodam-se” à sagrada família:

É o enterro de Quincas Berro d’Água!
A festa é cidade baixa,
É festa no mar!
...

“A pipa do vovô não sobe mais
A pipa do vovô não sobe mais
Apesar de fazer muita força
O vovô foi passado pra trás!”

“Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha
Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha”


...

Januário estava pego em lembranças. Diabos, como se divertia naqueles carnavais de outrora, da mocidade juvenil. Agora essa dor nas costa...

Sambista ortodoxo, marcador de responsa do surdo nos batuques da comunidade, agora tem que aguentar o mister Catra cantando a versão pancadão daquela saudosa marchinha de outrora. Raios que os partam, que vão todos pra puta que pariu!

Lançava maldições assim seu Januário, esquecendo ser ele mesmo gigolô das antigas, Leão de Chácara de responsa, conhecedor e mesmo padrinho de boa parte dos filhas da puta da sua quebrada. Não lembrava também que quando começou essa história de funk já era macaco véi dos bailão. Bons tempos daquele Black Power; agora ele é careca bola oito.

Na verdade Januário só está de mau humor mesmo, saudade que bateu doída no peito, saudades da Amélia; aquele jeito tão de repente inconsolável e derradeiro em que ela voou pro céu e faltou na terra ao mesmo tempo.

Agora, derramado todo o leite, esvazia-se nos sons surdos da multidão, entre a quarta feira de cinzas e o dia de Finados. Espera sua vez de virar passarinho (quem sabe besouro, mesmo um urubu-rei, um gaviãozão?). Enquanto isso observa lentamente os movimentos inertes de cada momento que passa.

“Essa carcaça véia é casulo, vai virá asa, ah se vai, to cozinhando!” diz aos amigos que chegam, pro carteado e pra cachacinha.

Decerto que, quando voar, vai ao encontro dela.

Correção

Sou um homem correto: estudei, trabalho, pago minhas contas. Casei, tive filhos, sustento uma família inteira com o suor do meu trabalho. Vieram os netos, e um deles, certo dia me disse:

- Vô, eu posso?

Algo me fez ter vontade de dizer sim. Talvez os olhos da criança que brilhavam. Mas lembrei que sou um homem correto.

- Não, não pode.

Pés no chão para evitar grandes quedas. Olhos brilhantes enchem a alma, não a barriga. Assim aprendi e agora ensino, pois sou um homem correto. E homens corretos não voam.

Sempre fora assim.

Voava com uma só asa; é que sofria de cacos!
Desde pequena era assim. Acostumara-se ao coração feito de margens e aos pés em desalinho.
Via formigas e pensava em mundos distantes. Olhava de perto aqueles corpos pequenos, irritantes, curiosos e pisava em cima deles. (tinha medo de amontoados!)
Via o céu e sonhava. Era mais difícil pois lá em cima tudo era possível.
Era difícil pensar no possível!
Por isso mesmo passava horas do dia se enredando nas nuvens,
cavalgando em algodões, pulando pó de estrela!
Os cometas eram seus preferidos!
Nunca compreendeu funcionamento de penas, as dos pássaros e as suas: como um pedaço de quase nada podia te levar pro alto? Como um pedaço de quase nada te tirava do chão?
Não compreendia muitas coisas. Como por exemplo: os gritos da vizinha com seu cachorro Banzé; como a água que é uma coisa transparente e que não dá pra pegar quebrava as telhas de sua casa; porque os mais velhos diziam “Vá com Deus!”
Talvez fosse seu coração feito de margens que deixava que o entendimento caísse nos vãos.
Gostava de flor! Dos infinitos cheiros coloridos. Esses eram de fácil entendimento:  - Flor tem perfume, oras! Até as que não se deixam sentir tem! Para essas só era preciso uma atenção especial de joaninha.
Aprendera que para voar uma espécie de agudo se formava entre o esforço e o vão do coração.
Aprendera que o agudo apitava! E que quando o agudo apitava um tremor irreversível  sacudia os cacos e acordava a asa.  
Voava com uma só asa. Doía. Ela não sabia que doía porque nunca tinha sido de outro jeito.
Só sabia que sempre fora assim.