A máscara e eu

E por alguns dias levo minha(s) máscara(s) pra passear! Posso fingir, assim...tranquilamente!
A boca encarnada, os olhos borrados.
- Lágrimas?
- Chuva.
E posso aguachover, misturada com quem ali estiver: cúmplices inebriados do que está aqui dentro, do que está ali dentro.
A máscara e eu!
Nós duas podemos, em meio aos confetes, doer... languidamente!


o "sentido do carnaval" é anterior ao seu, mas poderia ser posterior

eu te levaria pela mão e ia te mostrar que esse negócio que dizem que já morreu (o sentido do carnaval) tá por aí. imagino que se você acreditasse no carnaval seria mais simples olhar pra você sem sorrir, andar de cavalinho, beijar sua nuca, correr dando risada, pular em cima da cama, te mostrar as batidas do meu coração. é difícil convencer alguém oferecendo tão pouco, eu sei. pra você acreditar no carnaval, teria que acreditar que as coisas não têm um sentido único. teria que achar que nada é mais bonito que um espasmo. você teria que querer esquecer que tipo de sujeito acredita que é. você teria que conhecer e amar a inutilidade de uma ação. as inutilidades são fundamentais, ou não são? se você aceitasse o carnaval, a gente poderia fazer o que temos evitado por pura falta de lógica. se você amasse o carnaval como eu, colocaria sua cabeça no meu colo e beijaria minha barriga só pra ouvir o estalo. riríamos juntos de nada especial. não seríamos mais irônicos publicamente e talvez fôssemos mais felizes. se você quisesse, teríamos todas as terças e quartas, quintas, sextas-feiras e dias que quiséssemos pra tentar

Imagina, imagina

Farras e fitas e eu quero morrer assim no seu colo e tantas e tintas e você é tão bonita assim quando gira em tambores e pandeiros e eu sou tão bonito assim quando tudo gira em guizos e gozos e entra na roda morena pra ver repentes serpentinas serpenteia e me beija e me pega em brilhos e bolhas e pulhas mas você tem tudo tem graça “imagina imagina hoje à noite a gente se perder” em saltos sandálias plumas fitas feitos cores claras cintilâncias imagina imagina...


Caravana

E a vida vai puxando o carro,
água eletricidade aminoácidos.

Carnaval!

Auto da barca do inferno,
ou a procissão dos deuses.

De Teogonia ao Candomblé.

UMA FATIA: FILACANTOS

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
   Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão...” (Drummond)


Gosto de deslizar entre as raízes entrelaçadas, enamoradas
............................filacantos..............................
Esgueirar-me por suas entrâncias e reentrâncias dilaceradas
Colher um pouco do néctar intenso ora aqui ora acolá
Para explodir em arbusto híbrido sobre o solo árido

Gosto de sentir o pulsar do corpo no movimento circular,
...........................sinuoso....................................
Do silêncio recôndito, a deglutir vidas em ceifa atemporal
Aconchegar-me a quem ali adormece calmamente, na vigília
Ouvir os sussurros de quem geme na brisa noturna

Gosto de saciar a sede nos pequenos veios venosos,
.............................embriaguez.......................................
Cambalear no tiro disparado sem direção e sem alvo uno
Deixar livros, amigos, riquezas, vergonhas...dançar velado

Deixar que minha face triste, magra e que meus olhos
.................................vazios................................................
Nem dêem por suas mudanças simples, certas e fáceis
Brincar de querer ser aquilo que a gente não é, quem sabe...ir além.

O deserto e a deriva


relação de amor
em cima da linha
melódica.

outro estranho,
céu e terra,
rosto amigo.

Imensidão
inóspita

Palhaça inversa

Não me pintei de palhaço.
Me pintei de nuvem, fantasia, drama e tatuagem.
Mas nunca de palhaço.
Me pintei de mocinha, fantasminha, borralheira sem carruagem.
Me pintei de puta, homem, cigana, marginal.
Mas nunca de palhaça.
Me pintaram.

Palhaçada Moderna

Pintei meu rosto de branco
Preenchi toda a face num tom
Sobre as bochechas abri um grande riso
Abraçando também a boca
Do olho desci uma lágrima prateada

Olhar a vida sob o prisma
Da alegria...
Na modernidade...
Só se for com cara e boca
De palhaço

Pingando na pedra


Poros cálidos dia
Pele úmida noite
O choro gozo asfixia
Contato veneno matilha
Sorte


Enfrentamento
Incrustação
Delicada análise
Ceifa corte
Lápide

Rápida decisão
Executor
freqüência
Lapidante

Diamante
Dinamite
Máquina

A marcha dos sentidos sobre terra árida e indiferença

Avante olhos incorruptíveis
hirtos e de franca estreiteza
Avante contra toda essa corrente-luz
Matéria refletida e percepção coesa

Silêncio imperioso a que se reduz
o inadvertido ouvido
pai da mais viril clareza

Esquecimento amarelo

Choviam flores amarelas
E por segundos esqueci quem era
Assim, como em tardes de primavera
E se tudo fossem flores, quimera.

O homem sentado logo adiante
Em viagens alucinantes
Do seu cachimbo brilhante
Esqueceu tudo por instantes

O Fantasma no Espelho


"Os olhos são espelhos d'alma"

E alma lá precisa de espelho pra se enxergar?

O espelho reflete o fantasma, aquele, soturno vindo pelo corredor escuro

Envolto na fumaça pinçada da ilusão cotidiana do viver

Fantasma que vivo, perambula por cômodos vazios a impregnar ambientes

Sim, o espelho reflete o fantasma-homem e sorri dele

Que ingenuamente cava suas covas dia após outro

Ah fantasma! Recolhe tuas vestes rotas, outrora tecidas por mãos habilidosas

Apanha tua botina velha a carregar resquícios do lamaçal

E marca o céu azul anil com teus passos febris rumo à imensidão

Corri na direção contrária

Corri na direção contrária
Mas mesmo essa
Acabava em poças feitas de seus restos
Em meus olhos 
E em teus olhos - cor de café
Me via nua e à espera
Do que disse que não quereria
Eles fixos, balbuciam teu nome
Me descolando de mim.
E, correndo pra se fazer gesto
Perdem-se em sua sobra de vista
Mais uma vez
E esses olhos - Ah esses olhos
Tornaram-se íntimos de minh'alma

Na nau

Lá vem. E outra vez. Foi onda que fez o nível baixar subir baixar do mar. Nessa embarcação, o peso do cobre não é perigo: não existe. Os temperos humildes que recobrem nosso casco perfumam os espaços nas dispensas, nos bolsos, no vento. E tem mais gente a estibordo, que peso trazem elas? Trazem promessas, juventudes, solidões.

Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.

Sobre o que sinto; e não dos sentidos que tem

Poderia falar-te mil coisas sobre os sentidos, mas nenhum sentido teria se eu não dissesse em palavras. Poderia calar infinitamente num gosto, aroma ou numa visão repentina de um mundo em que só se ouve em cores. Mas e daí se o fizesse? Quem teria em mente a medida do encanto da melodia de um passáro se não nos tivessem comunicado antes o sentido bucólico daqueles sutis elementos? Eu não sei. Tu Falas em sentidos como se visse neles uma porta aberta ao mundo; como se o mundo fosse, de fato, algo externo a ti. Eu, no entanto, não consigo jamais entender que cor seria o vermelho se antes essa palavra tão pulcra, manchada em três sílabas que têm em si um próprio sentido em ocorrências afora, não me tivesse representado do sangue a imagem perene de seu conteúdo. Para ver-me, basta que tu me fales, como para mim basta ver-te e dizer-lhe que vi. Não que eu precise, de fato, tocar-te com a minha retina, pois não preciso que seja com olhos - esses tão cegos da parede adiante (como tudo mais nesse corpo que anda e balança) - basta apenas que diga ou que ouça; que escreva, que leia ou rabisque em uma nota de supermercado. E quem há de negar que os tomates tenham tanta vida numa lista de compras quanto num pomar recém semeado? Talvez tu me aches satírico demais pra te ser companhia digna, já que espero tão pouco dos momentos silenciosos. Talvez me aches indigno de qualquer amor espontâneo, por ter eu dado às palavras o peso colossal como o daquela estátua em Rodes, que apesar de nunca ter sido vista por olhos de homens vivos, ainda assim, é possível vê-la com sumpto e magnificência em histórias antigas e novas. Mas entendo que tu mesmo não se dê tanto a essas visões. Não te culpo por olhares tanto pra frente, mesmo quando sabes que lá é que espreita o teu fim. Mas também não direi que te admiro a coragem. Porque não admiro. Sei que existe infinitamente mais sabedoria em olhos fechados que aquela estúpida certeza de que o concreto a tua frente pede o martelo e não tinta preta e pincel. E se tivermos que dar mérito aos sentidos, será menos pelo que encerram em si de absoluta contingência, que pelos adornos supérfluos ou impróprios com que subtraímos eles às palavras. Se o mundo que, com efeito, nos toca é mesmo um mundo de luz e som e matéria, então, mais belas ainda deverão ser estas que dizem sem sombrea-lo - o mundo - senão na memória arcaica que o homem tão ingenuamente aprisinou. E se tu me perdeste na fração diminuta entre um piscar de olhos e a passagem de um vulto, é porque, pobre de ti, tão bem te valem os olhos e a pele e os ouvidos pr'aquelas simples operações do espírito como é o "ver" e o "sentir". Já eu, devo dizer-te, jamais te perderei de vista enquanto tiver - como estas - tantas e tão interessadas palavras alçadas à dentro, como se a porta aberta fosse, ao contrário, um poço profundo e o escuro tão repleto de nuances quanto qualquer primavera. Pois existem mais camadas entre o branco do papel e o preto da tinta do que julgam afetados uns furtivos e ingênuos impressionistas.

Cores

Caminho sobre cores
.... variadas cores
.... calorosas cores
Que escorrem ao toque de meus pés
Deslizam pelo desfiladeiro
Novos mosaicos ao relento
Novas composições ao acaso

Sol nasceu

                                (Tela: Sol poente, Tarsila do Amaral)

SOL NASCEU
    &
       SUA
               EU.

Suado

 Molhados de suor terminam.
 Apressados começaram.
 Ela calcula cada movimento
 Ele sufoca cada gemido.
 O suor
 O grito abafado.
 Ela espera a hora certa
 Ela pondera, ela pensa.
 Ela quer fugir.
 Ele respira. Ele se entrega.
 Ele espera. Ela quer sorrir.
 Os olhos tristes, perdidos.
 O corpo triste, cansado.
 O gemido.
 O calor do quarto abafado
 O fogo do grito abafado.
 O gemido triste.
 Desesperado.
 Molhados de suor terminam.
 O gemido.
 Sufocado.

Certezas, somente quando...

Só quando tiveres olhos de infinito...
Verás como são ínfimas, as certezas que dizes ter
Caberás no vácuo, e mesmo assim te acharás
Teus redemoinhos, tuas obras-primas e teus juízos
Tudo isso será teu e de todo o mundo
Mas somente quando tiveres paisagem de infinito...
Porque os abismos têm fundo
E as estradas, essas que tu dizes querer
Se desdobram para passar em tua esquina
Teu guarda-chuva, se fecha só para a chuva te molhar
Mas tudo isso, só quando tiveres flores em teu jardim infinito
Porque teu sal precisa ter gosto de mar
E o teu saber e o teu sentir,
São tuas entranhas, tua pele, o teu suor.

Anamorfose

Havia ela escrito esse texto; um texto tão particular que cada um que lia tinha impressão de tratar-se de história totalmente distinta daquela que lhe havia contado o amigo, tendo lido o texto alguns dias antes. Mas não era no tempo que a diferença se estabelecia e senão no espaço. Duas pessoas que lessem o texto ao mesmo tempo, de pontos diversos no espaço, teriam razão de uma outra novela; ou de um poema; quem sabe, ainda, de uma nota de rodapé; poderia ser que lessem as duas uma mesma coluna jornalística e que, no entanto, cada notícia relatasse o mesmo acontecido numa cidade inteiramente outra. Seria, então, por haverem lido aquelas palavras que chegariam a conclusão de sua própria existência no mundo, uma vez que lendo distintas imagens diante de um mesmo pedaço de papel preso a uma parede, seriam, assim, depoentes da divergência essencial em que se estabelecia aquela experiência. Sentiriam como se estivessem também sendo lidos quando julgassem, por sua posição no espaço, colocarem-se as vistas de um observador atencioso, que enxergava, para cada visada e em cada lugar, uma história particular.

Era uma vez um dia de chuva

Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.

Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.

Sobre ou sob um pedaço roubado de mim ou de você

Como pode uma certeza se esvair como incerteza?
De modo ingênuo e duradouro perco-me nos vãos que se instalam de nada entre nós.
Vãos espaços.
Vãos espasmos. 
Vão. 
Vão de ir, mais de um. 
Vão de partir um sem outro, um em dois. 
Ele foi e consigo levou parte: nem todo nem nada: parte de mim.
Um pedaço que não se encontra mais.
Arrancou, levou sem pedir.
Roubou-me. 
Roubou-me de mim.
E agora quando o vejo - Ele - não o vejo mais: só procuro o que me foi roubado e nem sei mais, se ele é dono desse pedaço de pecado que tiraram de mim. 
Ou se fiquei, em pedaços perdida, no ar. 
Não sei se sou, se tenho, se sinto.
Só sei que vou, como ele foi e permissiva estou.
Dei-me carta de alforria: alforria da dor da ausência e do tempo mastigado e dificilmente digerido todos os dias pela falta.
Fui e quando vi era pro outro lado. 
Fui como ele, mas algum pedaço desse um dividido em dois decidiu habitar o não-lado do outro.
Amor-maldito, incerteza-tenra, dor-passiva, cor-massiva, pensamento-desalento.
Careço. Padeço. Suplico:
- Me habite em seus olhos para então habitar-me.

Rogaine, Viagra, Olestra

Roberto fez 30 anos semana passada. Sem muito que fazer, chamou os colegas de trabalho pra um happy-hour na sexta. Não tinha mais sua família por perto para comemorar. Seus pais moravam longe, e o seu relacionamento com eles nunca foi dos melhores. Eu sou os cabelos caídos de Roberto

Roberto saiu de casa pra fazer faculdade em São Paulo aos 18 e de cá nunca mais saiu. Não queria mais saber de voltar pro interior. Seus pais se separaram quando ele tinha 12 e ele foi criado por uma mãe que se virava em duas ou três, já naquela época, pra trazer o pão e cuidar da casa. Seu pai teve outra família e nunca mais foi o mesmo. Aliás, outras famílias, nem as conhecia ao certo.

Assaltantes Anônimos


"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer 
sociedade, é um homem sem nada a perder."   
Malcolm X        

Isso é um assalto! Anunciou confiante. Passa tudo! Vamo, vamo, vamo logo senão leva chumbo agora! A mão firme. O rosto escondido. O corpo protegido pelas vestes. O corpo fechado pelo terreiro. Tá olhano o quê? Qué morre cara, cê tá quereno morre? As chave! A bolsa da madame também! Passa, passa, passa logo cara. Chico, pega tudo aqui, vamo logo, corre qui os home tá chegano. Apressadamente saem da lanchonete dos Jardins. Droga! Essa moto falha quando mais precisa! Duas, três, quatro fortes pisadas no pedal, ela arranca, Chico na garupa. O cachorro louco [1] rasga a cidade.

Ausente à dor

A dor, se não era quase
Era nada
Um nada de prazer
Um nada de vazio incompreensível
Porque se afastara dela assim,
Como se não reconhecesse suas mãos e pernas
Mas iria voltar,
Iria morrer esta
E renascer a outra
Outra, que era ela...

Quase...

Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.

A caixa laranja do arco-íris dourado

Selenita realiza, assim como centenas de milhares de mulheres, uma dupla jornada de trabalho. É secretária de um advogado falido no centro da cidade. Dr. Miguel. E, além disso, ao chegar em sua casa, passa roupa, lava copo, estende roupa e pinta o cabelo. Vinte e quatro horas multiplicadas por três ao cubo. É essa a impressão que se tem observando essa dona

Selenita é uma alavanca, daquelas que aprendemos em física, mais precisamente em mecânica. É só fazer a associação. Não olha nem para os próprios pés. Levanta-se às sete da manhã, sempre com o pé direito, pois isso já a direciona para o guarda-roupa, de onde recolhe sua calça preta de veludo e uma camisa branca amarelada, assim como todas as outras que ainda tem. Depois escova os dentes. Toma café. Escova de novo os dentes e faz uma trança no cabelo (dá mais credibilidade, um dia lhe disseram).


Sobre um Conto de Ninar

Era uma vez uma menina que não se chamava. Que ninguém chamava. Ela não tinha nome.
Uma menina que não morava em nenhum lugar. Ela não estava nem permanecia. Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe. Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava. Que não dizia nada não ouvia nada. Ela não tinha voz nem ouvidos. Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava. Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas não tinha estômago nem rim nem coração ela não tinha nada. Uma menina que era um monte de nada e de nunca. Nada e nunca dentro dela num monturo, no meio do dentro que não tinha fora.
Era uma vez uma menina que não chorava. Não brotava água dela. Uma menina que não ria. Não tinha força para um espasmo de gargalhada, não lhe saía força.
Uma menina que nunca incomodava.
Ela não tinha mãos nem pés nem cabeça. Uma menina que ninguém via.

Mas pairava, uma presença.

Gata BorraAlheia

Em uma era de nenhuma vez, não havia espaço para o faz de conta.

A Gata Borralheira esperava aquele sempre onde seria feliz.

Sem contos de fada, diziam. 
Ouvia-se apenas contos de um fado.

Era só uma borra no fazer de contas.

A mulher de azul

Todos os dias no mesmo andar. O segundo. No mesmo passo. Arrastado e pulsante. No mesmo toque. Mãos leves e que desliza. Com os mesmos pisos. Os mesmos panos. Os mesmos produtos. As mesmas sujeiras.

Uma senhora já de idade. Parece uma vó querida, digo. Não, não pude ter filhos, me diz ela ainda com o seu brilho nos olhos. Uma senhora de brilho nos olhos. De um brilho que parece vida. Um brilho que parece que tem algo pra sair do corpo.

Época de Verão


“Época de verão
Criança, a vida é fácil
Os peixes pulando fora d'àgua
E o algodão, Senhor,
    O algodão está alto, Senhor, tão alto.”
(Summertime, Janis Joplin)

Dirige-se para o quintal, não pregara o olho a noite toda. pega a corda no quarto de trabalho do marido. arrasta-se mais que anda, segue para a sala, pé direito mais alto da morada. não é dona de seus passos. puxa uma cadeira, sobe  nela para encaixar a corda no caibro alto, joga a corda passando-a de um lado a outro da madeira. numa das pontas dá três nós, assegura-se de que estejam firmes o suficiente para suportar o peso do corpo. desce da cadeira com a outra extremidade da corda nas mãos, nesta faz o laço... cuidadosamente, mecanicamente, ajusta-o para o pescoço fino. dependura-se na corda, puxa e repuxa, muitas vezes, tantas que a mesma escorrega até a parede entre a sala e o quarto das crianças e ali se aloja, em segurança. novos puxões para testar a firmeza do objeto, um pouco da cal cai sobre sua cabeça, tons esbranquiçados nos cabelos a branquear... a corda deixa marcas na parede velha. será que a casa suportará o peso? sente-se tão densa! sente-se tão nada! novamente pega a cadeira - o sol anunciava o espetáculo no horizonte, precisa guardar bem tudo aquilo – esconde a corda sobre a madeira. exposta somente suas marcas na parede, ninguém há de botar reparo naquilo. esmeralda levanta antes do sol todos os dias, deixa na cama filhos e filhas dormindo, quando acordarem não terão o que comer. dor. arranjar o que colocar à mesa durante o dia. tem de garantir ao menos uma refeição por dia ou uma refeição a cada dois dias. impunha-se esta missão. deus! não fossem suas crias! pega a enxada, que o falecido deixara sempre organizada no canto de trabalho da casa e parte. olhos não tinham onde buscar lágrimas, tamanha a fundara da dor. pés, protegidos por chinelas gastas, tocam a terra seca do lugar. na vastidão terra, pedras e um pequeno riacho que vinga no outono, traz poucos tons verdes na localidade amarronzada. passa por ali.. tanta beleza no ar.. mas não vê a beleza exterior. o vilarejo é ermo, cinematográfico, muita gente da cidade grande vai até lá para gravar filmes que falam da realidade do nordestino. o cenário nasceu pronto. chega mais um grupo na cidade, esmeralda ignora, trabalha, cava em busca de um milagre. o luto pesa mais a fina tez. não vê, é vista. a magia do cinema à sua frente. a possibilidade de ganhar dinheiro como figurante. Sorteio. será a viúva. ironia do destino, a arte imitando a vida. tem certeza que o papel é dela, não sofrerá para desempenhá-lo. grava as cenas. para o cinema. vê-se na tela grande. é atriz. desperta nela uma felicidade, um sentido de vitória. forças que não sabia possuir. sente que é capaz de fazer qualquer coisa. encara a vida. encara a morte batendo a porta da memória... constantemente. diz não, um “não” rancoroso, cheio de certezas e de renascimento. a vida corre, como o riacho com cores. precisa de arte para viver. cria e recria sua realidade. constrói um castelo com sua criatividade: deposita na calçada estrelas, nas paredes fé, na mesa o alimento, na vida de cada filho a música e a poesia. surgem novos sentidos da vida. a casa é arte, atenta a quem passa. a alma está em paz. na parede da sala, entre a sala e o quarto das crianças.. marcas da corda. Dali, como reféns, somente as marcas.

A medida do gosto

Há quem consiga amar co'a alma
quando o corpo, dono dos gestos amáveis,
imerso em dura e estafante labuta, vacila?

Há quem a arte redima dos golpes
a seco nas feridas e calos, que o faça
querer mesmo o palco ao invés d'uma cama?

A medida da gota era a medida do pó

Lá fora chovia
Cá dentro secava
A medida da gota era a medida do pó

Queria chamar por Cecília
Queria falar de João
A medida do não era a medida do pó

Lá fora molhava
Cá dentro moía
A medida da dor era a medida do pó

Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.

O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Nem uma nuvem ao longe anunciava a vinda de uma gota sequer. Passara já por um bezerro todo feito de costelas que o fez salivar. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.

Declaração de inocência

No banco dos réus, o cérebro permanecia calado, astuto, certamente maquinando sua própria defesa, enquanto do outro lado, uma promotoria sem papas despejava verbos e verbos contra aquele pobre músculo, cujo uso - assim a língua dizia - enrijecia a alma e desprendia o corpo de sua mais fresca humanidade.

Pelo banco das testemunhas passaram fígado e rins, estômago, olhos, apêndice (este, refutado pela defesa na simples confirmação de sua franca inutilidade), mãos e genitália. Subia, agora, a voz que mais se esperava e fez-se silêncio no recinto quando, chamado ao juramento, o coração se apresentou. A língua amaciou seu tom, que antes vociferava sem calculo ou pudor, e fez do drama, que agora se inclinava diante do júri como uma orquestra silenciosa, o cenário ideal para esse depoimento. Falou o coração. Repetiu-se algumas vezes numa oratória que dizia não apenas criminoso o cérebro, veículo marginal de uma tão seca premissa, mas condenou com ainda mais veemência sua protetora, progenitora e religião. Disse, dentre outros adjetivos cujas descrições não serão aqui alarmadas, da razão: intolerante, abusiva, autoritária, insensível e frígida. Esse último, repetiu-o sete ou oito vezes, e desandou um lamento que comoveu até mesmo os ouvidos, que tentavam até ali se por na imparcialidade de orgãos sem filiação.

Na quadra.

tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum

E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...