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Boletim de Ocorrência

- Pode relatar o ocorrido?

- Claro! Eu estava bem quando ele passou. Passou por mim. Através de mim. Enquanto ele passava eu pude entender melhor tudo à minha volta. Mas foi muito doloroso. Ele levou minha juventude, minha saúde, minha energia. Ele levou meus amores, meus sonhos, minhas oportunidades! E então levou minha mãe! Ela que sempre disse que ele era bom, que ele tinha ajudado a resolver os problemas mais graves da família, e ele nem se importou! Eu tentei impedi-lo. Fiz de tudo! Gritei até quase perder a voz! Tentei entrar na sua frente, mas eu já disse: Ele passou por mim; Passou através de mim! E levou tudo o que eu tinha. Eu tentei impedi-lo. Fiz de tudo! Tudo o que encontrei joguei no seu caminho! Fiz barricadas! Mas ele passou por tudo, através de tudo e levou tudo o que eu tinha! Nada o detém! Eu tentei agarrá-lo, prendê-lo... finquei estacas nos seus rastros no intento de ao menos retardá-lo, mas ele passou indiferente. E agora levou meus filhos! Eu implorei para ele voltar, mas ele não volta!

- Por favor, acalme-se e seja mais objetivo... Quem é ele?

Dos traços

Pintou nela um corpo de traços móveis
Caminhou por ele em passos de cores fortes
Atravessaram-se
Viveram-se por dentro
Os cheiros construíram castelos
Instalaram-se em tons de azul, um tanto de mar, um tanto de susto
Risco vermelho
Há uma tela branca
É tanto que não sabe.

E passa

Esgarça-se no espaço.
Materializa-se como rastro em qualquer direção.
É vulto.
Voa.
Treme.
Fura.
Invade.
Arrasta.
Faz.
E passa.

Na nau

Lá vem. E outra vez. Foi onda que fez o nível baixar subir baixar do mar. Nessa embarcação, o peso do cobre não é perigo: não existe. Os temperos humildes que recobrem nosso casco perfumam os espaços nas dispensas, nos bolsos, no vento. E tem mais gente a estibordo, que peso trazem elas? Trazem promessas, juventudes, solidões.

Içar velas, subir âncora. As fomes movem nossos braços e levam mãos frias e perfumadas para o trabalho de todo dia todo-o-dia. Acorda a ideia, recheia o fôlego. Prepara o pão para guardar, estende a roupa, divide o pouco. Enquanto isso, a brisa felina invade os cômodos, sinuosa, e nos lembra de brilharmos juntos, porque o sol está na popa. Então traz frutas.

Era uma vez um dia de chuva

Era uma vez um dia de chuva. Era uma vez um dia.
A boca do jarro se abriu e da falta dos olhos chorou.

Uma vez, dois. Outra vez um e um.
O jorro da borda desceu e da falta do colo molhou.

Quase...

Nas costas sentia algo, que quase instintivamente identificou como uma dor, mas dores era coisa que sentia havia tanto tempo, que nem mais o incomodava; embora percebesse, quase instintivamente, que elas estavam presentes como algo que não era de sua constituição, mas que pouco a pouco se tornaram parte dele. Essa dor, por alguma razão diferente das demais que lhe acompanhavam ao longo do tempo, o fez deitar-se, quase que instintivamente. Talvez esse descanso, fora de hora, fora de rotina, fora dos movimentos quase instintivos que aprendera - ou antes, desenvolvera como parte de um tipo de adestramento que era sua vida - o fizera olhar de forma diferente para a pequena foto colada na parede, ao lado da cama. A pequena foto sempre estivera lá: ele jovem, uma jovem ao seu lado, sorrisos, água das ondas lambendo as penas de ambos, sorrisos, amor, sorrisos. Um quase lampejo de memória tentou provocar alguma emoção, alguma ligação com o passado. Quase instintivamente uma ponta de sorriso marcou o canto esquerdo dos lábios há tanto tempo endurecidos. Não fosse a pressa da morte em chegar-se a ele, pois havia ainda tantos desconhecidos a visitar, talvez ele tivesse aproveitado um derradeiro instante de humanidade. Morreu, quase que instintivamente.

Gata BorraAlheia

Em uma era de nenhuma vez, não havia espaço para o faz de conta.

A Gata Borralheira esperava aquele sempre onde seria feliz.

Sem contos de fada, diziam. 
Ouvia-se apenas contos de um fado.

Era só uma borra no fazer de contas.

Na quadra.

tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum
tchdum dum
tchdum dum dum

E no cantar dos surdos a garganta da menina secava e os olhos se encharcavam.
A saliva se transformara em lágrimas.
Era bonito, por demais.
E seu coração batia:
tchdum dum
tchdum dum dum...

A luz, o palco e o movimento

Há uma lebre morta embaixo da primeira cartola.

Há uma lebre morta embaixo da segunda cartola.

Há uma lebre morta embaixo da terceira cartola.

Embaixo da quarta cartola, há uma lebre morta.

Há uma lebre morta, também, embaixo da quinta cartola.

Há uma lebre embaixo da sexta cartola: morta.

Há, morta, embaixo da sétima cartola, uma lebre.

Há, enfim, lebres mortas embaixo de uma oitava e nona cartolas.

Eis que o mágico, então, uma cartola levanta – a décima.

Fragmentado

Há dias na estrada. Não me acostumo com a distância. Não essa. Horas a fio tecendo com o olhar uma geografia longínqua e estia, quiçá até íntima, já nem sei, agora que até meu corpo parece às avessas, sem lugar, se confundindo a tudo que me é solidão. Tudo que me é memória. Um indício ralo deixado lá atrás, a quilômetros de distância daqui, esse ínterim roçando cada pedaço de chão a que aporto. Agora mesmo levo o cigarro à boca com os olhos lá fora no estacionamento, tão longe que me perco em mim mesma, a poeira cobrindo o capô do carro e tudo a volta. E Deus parece a milhas distante daqui, faz vista grossa a nós duas, vê?, talvez nem ouça Dylan baixinho no rádio como eu o faço, com o cigarro na boca e lembrando que dias antes de apagar cada prova de minha antiga vida e bater a porta e dar com o dia me pesando sobre o dorso feito dúvida, dias antes eu me decidira por você. Sobretudo me decidi por você, deitada rente ao sono. Ainda levo os sentimentos nos poros, junto aos grãos de areia, em cada ranhura de minha pele, no talho sob as gazes feito guardados de memória. Talvez não me livre disso, logo vira cicatriz e a leve comigo, atada aos pulsos. Trago o cigarro com ânsia, certa gana nesse corpo cavo, ausente. Não durmo. Fecho os olhos. Sob as pálpebras fantasmas se esgueiram no breu, meio da noite ainda, feito os pesadelos de quando criança, quando a madrugada salivava suas sombras no teto e eu temia me debruçar sobre o sono para não mais acordar. E então não dormia, feito agora, insone, e tecia minhas fugas horas a fio. Até crescer, descobrir o corpo, um dique que não se rompia nunca, mesmo que eu quisesse, ainda que me esvaísse pelos pulsos, não se rompia nunca...

Penteando a barba

A literatura que se instala em meu peito não é aquela que me alcança através dos olhos ou dos ouvidos, senão a que tem olhos e ouvidos próprios e me encara diante do espelho. Mas, então, responda-me seu grandessíssimo cabotino: Por que tanto amor dado a si e nem ao menos bom-dia a uma pobre alma que estende a ti sua voz do outro lado da rua?





Como veis, é somente o silêncio que contorna esse corpo. E solidão é o que o preenche.

íntimo

... Trazia os olhos sobre uma memória, e a fiava com o silêncio de quem pura e simplesmente se pega a remoer o passado numa dobra ou outra do dia. Não a notariam - não ali sob o finzinho de tarde, com os olhos sobre o guardado de fotografia que trazia consigo, amarelado, alguns rostos (felizes?), o passado alinhavando aquela lonjura de anos a fio - ranhuras, as nódoas na pele, já cansada. O tempo, esse que mal sabe, mas tão presente agora. “Cá dentro não me esgoto, me farto”, ali, dedilhando sentimentos, “palavra dá corpo a sentimento?”, perguntava-se. Sabia mesmo que tardes iguais àquela roçavam o peito, e se por segundos fechasse os olhos, num gesto vago, lhe brotaria sob as pálpebras a saudade de um amor feito lá atrás, quando ainda não era ausência feito agora...

Angústia

Comprou cigarros. De início iria fumar só um (talvez outro) depois do trabalho e jogaria fora o maço ainda cheio, como fizera tantas vezes. Mas desta vez fumou vários, um a um, dia após dia, na interminável promessa de parar na manhã seguinte. Que não chegou. E ao redor da fumaça fedorenta flutuavam nebulosos pensamentos sobre a vida e uma certa nostalgia. E um buraco no estômago... humores? Blá-blé-bli-bló-blu, diria um poeta apaixonado. Não podia crer em poesia; não neste momento. Caminhava errado, porém qual o atalho correto. Angústia crescente nas lombadas. A cada cigarro aceso percebia que o buraco não era vazio, estava repleto de uma massa aterradora, absurda. Sufocante. Sentia falta, mas de quê. Uominis-humbre-falus-pensantis-amenos, blasfemara o filósofo. Não entendia nada de filosofia, psicologia ou meteorologia. E os raios esbravejando no seu cérebro vertiginoso. Não é estômago, é coração, percebeu. Aí era tarde demais e os cigarros já tinham acabado: voltara a fumar.

Pé de estrela!

Havia ventado tanto, que as emoções foram todas levadas junto com o vento. Emoções, segredos e histórias - aquelas contadas e não contadas. Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos. Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou. E você sabe, né, vapor que sobe para o céu,  tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva,  tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.

A Ausência

A ausência era seu par. Para ela dava colo, consolo, cuidado. Saiam para passear de mãos dadas. Visitavam bosques, museus, cinemas, espetáculos dos mais variados. Bebiam vinho. Preferiam comida japonesa com shoyu light. Ele e ela, a ausência, sempre lá. Um bom tempo passou. E, ele, só de olhar para ela sentia cansaço. Quis terminar o romance. Ela? Não. Bateu o pé. Já estava acostumada ao colo, ao consolo, ao cuidado. Não teve jeito. Ele partiu para o litigioso. Em meio às discussões banhadas em dores o processo correu. Foi mais rápido do que ele imaginava. Enfim: a separação! Um alívio. Agora sim! Naquela noite ao deitar sentiu um cheiro que nunca tinha sentido, pelo menos não se lembrava. Ao acordar olhou para o lado da cama que a ausência costumava ocupar. Sentiu-se só.

Espanto

O menino interrompeu seu passo. A voz que ouvia não era de alguém, mas da sombra.

A sua sombra falava.

Falou de quando era jovem e pequena, de como cresceu e tornou-se sombra adulta. Contou que as sombras vivem para sempre, aparecem onde tem luz, e fazem festa onde não tem. Disse que se alimentava de poeira, e que estava cansada de tanto andar.

Muita chuva e pouco arco-íris

Seria mais um dia de inumeráveis incoerências onde as crianças são terríveis, os homens os donos, as mulheres caladas e os velhos apêndices. Outra vez o amor seria confundido com propriedade do corpo alheio e frases concluídas pelo romântico fetichismo. Mais uma vez morreriam milhares em nome da mercancia pátria intolerante fanática do senso comum. Seguiriam as pessoas, confiando para si como verdade, as palavras de revistas que veem. Algum indivíduo voaria o mundo em primeira classe em busca de felicidade e outro alguém não daria (sequer) um passo, graças a tristeza do estômago vazio. Humanos assistiriam a dramaturgia real espetacular de um mundo em um quadrado de imagens hegemônicas. Seria até possível presenciar aqueles que desempenham seu emprego de sacrificar os desrespeitosos da ordem. Seria mais um dia desses o próximo e os próximos e os próximos...

Ao extremo

Eles fazem da noite o terror dos que se mostram. E andam juntos, por ruas claras e escuras, procurando por quem se atreve a ser. Em seus rostos, a multiplicidade étnica dos brasileiros. Mas preferem narizes importados e a “pureza” de ideias que julgam próprias.

Vítimas do machismo, trancafiam seus desejos no imundo cárcere de corpos mal amados e dedicam-se a combater a liberdade dos afetos.

Ignoram as cores, as origens e os ritmos de seus ascendentes, enquanto marcham, com tênis made in, sobre o solo de um país inexistente. A terra sul-caucasiana de um delírio fora do mapa.

Não lhes falta coragem, nem ideais, nem energia. Não lhes falta estudo, nem dinheiro e nem advogados. Só lhes falta um espelho ou, quem sabe, alguma tintura capaz de mudar a cor do próprio sangue.

Para não esquecer, ou, quarenta e oito azaleias.

Há um ano, todos os domingos, desde que a doença o derrubou definitivamente, a moça ia ao cemitério e repetia o ritual. Depositava sobre o túmulo um vaso de azaleias, a preferida de ambos, e começava a lhe contar as novidades do jornal de domingo. Lia as notícias, uma por uma, sem nenhuma pressa porque sabia que o pai tinha dificuldades de ouvir. Pulava o caderno das novelas e dava atenção especial ao de esportes. Depois, cantava baixinho, e muito afinada, O Sol Nascerá, de Cartola e lembrava-se das tantas vezes que a música lhe despertara em suas manhãs de infância. Por fim, colocava ao lado do vaso de flores o novo desenho que o neto lhe havia feito. Achava melhor explicar, porque as garatujas eram um pouco incompreensíveis. E lá estava, em traços tortos e bolotas de giz de cera, o vovô jogando bola com as crianças, sobre as nuvens, e todos felizes com a camisa do Santos. Então, em silêncio se despedia. Sem nenhum peso porque fazia isso, simplesmente, para não esquecer.

n'algum espaço

Saudade é bicho sem razão. Escapa em pontadas líquidas, fluxo sem hora marcada. Em silêncio tão profundo que grita até estourar os vidros dos quartos, dos carros, da cidade. Embaça o olhar pela força do ar que tem, e é. Paradoxo sanguíneo, essa tua (ir)real presença ausente, que chega de surpresa e engole o tempo que há.